Porque as algas são a peça invisível da transição azul – e Portugal ainda não percebeu isso

Por José Couceiro, Gestor de Comunicação e Marketing da PROALGA – Associação Portuguesa dos Produtores de Algas

Fala-se cada vez mais de transição energética, alimentar, ecológica. E, mais recentemente, de transição azul, um termo que traz o oceano para o centro da sustentabilidade. Mas há um recurso natural que continua a largamente ausente na narrativa pública e política: as algas.

Portugal tem mais de 2.000 km de costa, um clima particularmente favorável, uma comunidade científica reconhecida internacionalmente e empresas que já produzem e exportam micro e macroalgas para mercados exigentes, da alimentação funcional à cosmética. Tem também enquadramento europeu: a União Europeia reconheceu recentemente as algas como um recurso estratégico para as transições verde e azul, integrando-as na sua visão para a bioeconomia e a neutralidade climática.

Ainda assim, em Portugal, o setor continua a ser tratado como estando à margem. Para muitos decisores, as algas permanecem associadas a um nicho experimental ou a projetos piloto sem escala, o que impede a sua integração em políticas públicas de longo prazo. Apesar do conhecimento científico acumulado e da experiência já existente, raramente é encarado como parte de uma estratégia económica e ambiental estruturante.

Este desfasamento revela um problema fulcral. Há um desajuste entre o que a ciência e a indústria já sabem e o que a sociedade e as políticas públicas ainda não reconhecem. Já não é apenas uma questão técnica, é também uma questão de linguagem, de visão e de estratégia.

É por isso que o reconhecimento recente por parte da União Europeia pode, e deve, ser um ponto de viragem. Mas isso exige ação concreta: um enquadramento regulatório nacional que distinga claramente a produção europeia da produção extra-UE, incentivos reais à produção e transformação e, como tem vindo a ser sublinhado pela PROALGA – Associação Portuguesa dos Produtores de Algas, uma narrativa política que integre as algas como parte de uma estratégia nacional para a bioeconomia azul.

Ignorar este potencial é um erro estratégico. As algas são, cada vez mais, uma resposta à escassez de recursos, à necessidade de inovação circular e à urgência climática. O seu cultivo não compete por solo nem por água doce, pode contribuir para a redução de emissões de CO₂ e desempenhar um papel relevante na restauração de ecossistemas marinhos.

A ausência de uma estratégia clara tem consequências concretas. Sem um enquadramento estável, os projetos não avançam, o investimento é adiado e o conhecimento produzido em universidades e centros de investigação acaba por não se traduzir em valor económico ou impacto ambiental. Enquanto outros países consolidam cadeias de valor em torno das algas, da produção à transformação, Portugal arrisca-se a ficar remetido ao papel de fornecedor de conhecimento e de matéria-prima, perdendo a oportunidade de criar emprego qualificado e valor acrescentado no território.