“A economia circular não se pode circunscrever à reciclagem”

“A economia circular não se pode circunscrever à reciclagem”

A economia circular foi o tema do segundo painel do 6º Encontro Nacional “Gestão de Resíduos”, promovido pela Associação Portuguesa de Empresas de Tecnologias Ambientais (APEMETA), realizado na passada segunda-feira, dia 12. Tanto Graça Martinho, professora na Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade Nova de Lisboa, como Paulo Lemos, da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo (CCDR-LVT) alertaram: “A economia circular não se pode circunscrever à reciclagem”.

A economia circular é uma forma de gerir os recursos de um modo mais sustentável, com vista a reduzir a poluição, mas, de acordo com os oradores do seminário que se realizou na Fundação Cidade Lisboa, não está a ser abordada da melhor forma. “O debate está a ser muito feito nos resíduos e na reciclagem. Esta é importante mas não é tudo, nem é só a inovação. É acima de tudo uma necessidade de mudança de paradigmas”, realçou Graça Martinho.

 

Também Paulo Lemos referiu esta conceção na sua apresentação, explicando que “a transição para a economia circular tem que se fazer na prevenção e reutilização, apesar de a reciclagem continuar a ter um papel importante, não é suficiente”.

O mesmo responsável defendeu ainda que para que seja possível a transição “tem que se apostar nos níveis mais elevados da hierarquia” – referindo-se à Hierarquia de Resíduos, definida desde 1979, um conceito que hierarquiza as estratégias conforme a sua importância para a gestão de resíduos. De acordo com esta teoria, a prevenção de resíduos é o que se encontra no topo, sendo o mais importante, seguindo-se a reutilização da reciclagem, e por fim, a recuperação. O aterro sanitário é a última opção sugerida como destino para os resíduos.

“Mas como chegar lá?”, foi a pergunta que Paulo Lemos lançou de seguida, preparando-se desde logo para avançar uma resposta: “através da legislação e do ecodesign [produtos e serviços amigos do ambiente]”.

Na sua visão, é preciso, “uma nova abordagem de gestão de resíduos à luz da economia circular”. Um aspeto que pode contribuir significativamente para este novo conceito é a durabilidade dos equipamentos. “É importante que os produtos estejam mais tempo na vida económica”, apontou Paulo Lemos.

O responsável enumerou também algumas das medidas que podem ajudar a esta transição e a aumentar a durabilidade dos equipamentos, como, aumentar o prazo de garantia dos produtos elétricos e eletrónicos, existir uma oferta comercial das empresas que ficam com o produto para reciclar quando já não tem utilidade, aumentar a possibilidade de reparação, incentivar a possibilidade de atualização dos equipamentos – impedindo que haja compra de novos-, e ainda, uma maior informação para os consumidores sobre a eficácia dos produtos e quanto aos seus impactos ambientais.

Paulo Lemos realçou ainda a necessidade de se aliar o ecodesign à reciclagem, aumentar a eficácia da mesma – reduzindo a perda de materiais -, e de se promover o upcycling, ou seja, “obter através da reciclagem um produo que tenha maior valor ou qualidade e menos impactos ambientais, como transformar pneus em solas de botas”.
Novos modelos de negócio ligados à economia circular

O responsável da CCDR-LVT apontou alguns dos negócios que promovem a economia circular, que estão divididos em quatro vertentes:

– “Vender serviços em vez de produtos”: como exemplifica, vender iluminação em vez de lâmpadas, como faz a Philips, vender filmes e séries como a netflix ou atualizações para telemóveis, como o Iphone Upgrade Program.

– “Maior durabilidade dos produtos”: produtos concebidos para durar e para serem facilmente reparados ou atualizados, em vez de se estar constantemente a mudar, repara-se.

– “Produtor-consumidor”: o produtor consome o que produz, como por exemplo o Ikea, com a produção de energias renováveis, e que tem, até, o objetivo de produzir mais energia do que a que consome.

– “Sociedade da partilha”: um modelo económico em que bens ou serviços são partilhados entre indivíduos, com ou sem custo, usando a internet, o que já é implementado com algumas empresas como a Uber, Airbnb, BMW, Chic by Choice, Re-food e Zero Desperdício.