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Águas do Tejo Atlântico: “A ambição é clara: sermos a empresa de saneamento com menor pegada carbónica em Portugal”

por Inês Gromicho
18 de Março, 2026
em Advisor, Destaque_Newsletter, Entrevistas, Home
Tempo de leitura: 9 minutos
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A Ambiente Magazine entrevistou Nuno Brôco, presidente do Conselho de Administração e da Comissão Executiva da Águas do Tejo Atlântico, que nos falou sobre a implementação da Estratégia 2023-2025.

Nuno Brôco

Qual foi o resultado da implementação da Estratégia 2023-2025 na Águas do Tejo Atlântico, considerando as prioridades do triénio num contexto de crescentes pressões climáticas?

A implementação da estratégia Inspirados pelo Futuro na Tejo Atlântico foi uma jornada de transformação estruturada, focada na missão da empresa, nas ambições coletivas e orientada pelos objetivos a que nos propusemos. Foi um trabalho iniciado em 2023, com a auscultação dos nossos acionistas, parceiros, trabalhadores e sociedade civil, matéria com a qual definimos uma estratégia para cumprir com os objetivos de serviço público enquadrados no contrato de concessão ao abrigo do qual gerimos, mas com uma ambição adicional de acrescentar valor, de liderar algumas áreas do saneamento em Portugal e, em última análise, causarmos um impacto positivo na sociedade em que nos inserimos.

Definimos 186 ações sustentadas em nove pilares estratégicos: Eficácia, Eficiência, Propósito, Resiliência, Digitalização, Parcerias Sustentáveis, Economia Circular, Descarbonização e “Nós Tejo Atlântico” que constitui a fundação desta estratégia. No final do triénio, a taxa de implementação esse plano de ação foi de 69%, sendo que a maioria das ações se encontram implementadas ou em fase avançada de execução, com impacto interno direto na robustez operacional e na maturidade organizacional, mas também no contexto externo.

Num contexto de crescentes pressões climáticas e instabilidade geopolítica deste novo normal, reforçámos a autonomia energética, acelerámos a digitalização, estruturámos a nossa gestão de ativos e consolidámos uma cultura de maior responsabilização e monitorização do nosso desempenho enquanto organização. Hoje, a empresa está mais preparada, mais alinhada internamente e, acreditamos com maior capacidade de adaptação a contextos extremos como sejam os eventos decorrentes das alterações climáticas, sem nunca perdermos a consciência de que este é um caminho de melhoria continua e cíclica.

Quais as principais transformações tecnológicas para se prepararam nesta estratégia 23-25 e que espera ver implementadas no sistema de saneamento, seja ao nível da digitalização, monitorização remota ou eficiência energética?

No plano tecnológico, o triénio foi marcado por uma aceleração da digitalização das infraestruturas e dos processos. Identificámos um desfasamento entre o crescimento físico dos ativos e a maturidade digital da organização e atuámos nesse sentido. Estamos em fase de conclusão da fase I da nossa telegestão, com impactos muito relevantes na forma como gerimos os nossos ativos, expandimos sistemas de monitorização remota, estruturámos a gestão de dados e de informação e consolidámos ferramentas de Business Intelligence para suporte à decisão.

A aposta em IoT e na análise de dados permitiu melhorar a monitorização da qualidade do tratamento, antecipar ocorrências e otimizar consumos energéticos e reagentes, com impacto visível na nossa eficiência.

No atual contexto, não podemos falar de digitalização sem considerar a Cibersegurança e, neste campo realizámos um trabalho invisível no contexto externo da empresa, mas de enorme abrangência e que nos permite encarar esta dimensão maior tranquilidade.

A escassez hídrica (apesar das calamidades e eventos extremos deste início de 2026) tem vindo a ganhar relevância no país. Qual será o papel da Tejo Atlântico na expansão da reutilização de água (ApR) até 2026, e que obstáculos ainda precisam de ser ultrapassados?

A escassez hídrica dos últimos anos reforçou a consciência global da necessidade da reutilização de água. A Águas do Tejo Atlântico tem no seu ADN a apetência pelo fomento da economia circular com os produtos que gerimos, e assumimos a reutilização de água residual tratada como vetor estratégico. Queremos consolidar o crescimento sustentado da produção e adução desta origem alternativa de água, produzida em segurança e de acordo com a legislação com a qualidade necessária para diferentes usos não potáveis, promovendo novas parcerias municipais, industriais e agrícolas e salvaguardando o capital natural do território.

Demonstrámos com diversos projetos de reutilização de água que o desafio na circularidade deste recurso já não é tecnológico, nem sequer de preço do recurso, sabendo que a distancia entre a produção e a utilização é o principal condicionante nesta matéria. Claramente que o País necessita de ter uma maior capacidade de planeamento e de visão de longo prazo, bem como agilidade de ação para atingir os objetivos de reutilização de água recentemente anunciados na estratégia água que une. Diria que nesta matéria o país não está a conseguir ganhar a escala necessária baseada nos excelentes exemplos de reutilização já concretizados em várias zonas do nosso território.

A empresa tem defendido a mobilização da água residual tratada para usos urbanos, industriais ou agrícolas. Que metas concretas foram já atingidas?

Trabalhámos a reutilização por duas vias: parcerias e criação de mercado. Desenvolvemos a marca registada água+, como instrumento de “democratização” da reutilização. Em 2025, produzimos cerca de 3 milhões de m³ de água+ para usos não potáveis — lavagem urbana, rega de espaços verdes, campos de golfe e utilizações industriais, sendo que a maior parte ainda é para utilizações internas. Aliás, neste caso, a Tejo Atlântico, de toda a água que utiliza no seu processo, rega de espaços verdes, preparação e reagentes e usos diversos, 92% é água reutilizada, sendo os restantes 8% apenas para fins potáveis e afins.

Este volume de água residual exportado aumentou 2,3 vezes face ao volume exportado em 2022, o que é bastante significativo do ponto de vista de crescimento, mas ainda muito aquém da capacidade e do potencial instalado. A meta não é apenas aumentar produção, mas integrar estruturalmente esta solução nos modelos urbanos e industriais, reduzindo pressão sobre recursos hídricos naturais.

Num contexto de alterações climáticas, fenómenos extremos e aumento populacional nas zonas urbanas, que investimentos estruturantes foram e estão a decorrer para garantir resiliência do sistema?

A resiliência foi tratada como pilar de crescimento no âmbito da nossa estratégia e passou por muito mais do que a realização e investimento, destacando os processos de gestão de ativos com base no trinómio desempenho/risco/custo, os planos de contingência que desenvolvemos, o Plano de Adaptação às Alterações Climáticas que concluímos já em 2025 ou a segurança da informação e na gestão do conhecimento, reconhecendo que resiliência não é apenas física, mas também organizacional.

Ao nível de investimentos podemos destacar várias intervenções como seja a construção da bacia antipoluição de Campolide, integrada com o PGDL e com o subsistema de alcântara que terá a sua conclusão durante o ano 2026, as diversas intervenções de reabilitação de coletores, incluindo obras de controlo de caudais pluviais, mas também o reforço da capacidade de tratamento das nossas instalações.

A inovação tem sido um pilar da operação. Pode destacar projetos-chave de investigação ou parcerias que deverão ganhar escala?

A inovação foi promovida durante este ciclo estratégico como prática estruturada, essencial à eficiência, resiliência e motivação na nossa empresa. Destaco deste mandato a continuidade do evento anual “Caminho da Inovação”, que já é reconhecido nacionalmente com um dos momentos do setor da água e, que em 2025 teve como tema “Desafiar o Óbvio”, reunindo especialistas nacionais e internacionais para debater soluções transformadoras no setor da água.

Estamos conscientes de que a Inovação é, cada vez mais, um processo partilhado, em que as parcerias são fundamentais ao seu sucesso e, nesse sentido, desenvolvemos um novo modelo de governo da nossa inovação sustentada no Living Lab Água-Mãe, que está implementado e em plena atividade da qual teremos notícias muito interessantes de vários dos seus sucessos durante o ano 2026. É através do Living Lab que queremos fazer crescer parcerias nacionais e internacionais, com projetos sempre focados na aplicação e na solução, que sejam implementados nas nossas operações e dessa forma contribuam para os objetivos da Tejo Atlântico.

Em termos de sustentabilidade, qual foi a evolução nos indicadores ambientais e energéticos?

A Tejo Atlântico tem como principal fonte de energia renovável o biogás que produz na digestão anaeróbia de lamas, e na qual continua a aposta para aumentar a nossa autonomia energética. Durante o período de vigência da estratégia inspirados pelo futuro, atingimos a marca histórica de 25% de autonomia energética com recursos renováveis e endógenos e temos em construção ou em fase de concurso vários investimentos como sejam a hidrólise de lamas na ETAR de Frielas (a primeira instalação deste tipo a ser construída em Portugal), a construção de 17 centrais solares em diferentes ETAR do sistema ou a otimização das linhas de produção e purificação de biogás no sistema, em simultâneo com o trabalho em curso relativo à redução e consumos, que nos permite perspetivar entrar na nova década com uma autonomia energética acima dos 45%.

A ambição é clara: sermos a empresa de saneamento com menor pegada carbónica em Portugal, alinhada com os compromissos nacionais e europeus de neutralidade climática. A redução da dependência de combustíveis fósseis é simultaneamente ambiental e económica.

Como está a empresa a preparar-se para responder às novas exigências regulatórias europeias, nomeadamente as relacionadas com micropoluentes e qualidade da água, no horizonte 2026?

A Tejo Atlântico consciente de que embora ainda estejamos em fase de transposição sa DARU para o direito nacional, e face ao tipo de intervenções que são expectáveis e à celeridade possível de incutir nos investimentos necessários, já iniciou o seu processo de preparação dos vários cenários possíveis em função do processo de transposição.

Estamos neste momento em fase de contratação de uma consultadoria que nos permita identificar e quantificar cenários, por forma a informar o processo de decisão sobre esta matéria, que se afigura complexa do ponto de vista regulatória e tarifária.

Do ponto de vista do relacionamento com os municípios e com a comunidade, que mudanças foram consolidadas para reforçar a literacia hídrica e o envolvimento dos cidadãos?

Esta é uma área em que investimos muito esforço da nossa equipa de educação ambiental, em particular através de parcerias com municípios, escolas e associações com vista ao reforço da literacia hídrica da comunidade em que nos inserimos. Desenvolvemos ações de educação ambiental que, em 2025, abrangeram milhares de alunos nos 23 municípios servidos, promovemos visitas técnicas, formação de professores e campanhas de sensibilização.

Estamos perfeitamente convictos que este trabalho de educação ambiental junto dos cidadãos mais jovens é um investimento de longo prazo do qual colheremos retorno num futuro não próximo ao contribuirmos para uma sociedade mais informada, consciente e confiante no valor da água e no serviço que prestamos. Apenas com uma comunidade informada e consciente podemos discutir assuntos como sustentabilidade económica de um serviço essencial como aquele que gerimos.

De forma global, quais os principais desafios que considera para o setor para 2026?

O nosso setor tem um horizonte de curto prazo verdadeiramente desafiante.

Tendo presente a realidade geopolítica atual, destaco a necessidade de se assumir o setor da água e saneamento verdadeiramente como setor crítico para a segurança e soberania nacional, reforçando a sua resiliência aos vários níveis. Não podemos esquecer que a guerra que temos dentro da europa continua a ter como um dos alvos preferenciais os setores críticos do país alvo de ataque (energia, água, transportes).

A nível regulatório, destaco o processo de transposição da DARU que se encontra em curso e que irá moldar o futuro do saneamento na europa nos próximos anos e ao qual o nosso país tem de dedicar a devida atenção para que o processo seja feito ao abrigo de uma visão holística dos impactos.

A nível dos recursos disponíveis para continuarmos a cumprir com a nossa missão, destaco a necessidade de evoluirmos a forma como gerimos o nosso capital humano. A europa depara-se com um envelhecimento da sua população, ao qual o setor da água não é alheio, a uma menor atração do setor da água face a setores mais atrativos, e com maior capacidade de retribuição do trabalho, e simultaneamente a uma maior mobilidade de pessoas dentro da europa, dando preferência a países da europa central do norte onde os salários são mais elevados. A consequência deste quadro é a saída de profissionais do setor da água (reforma ou simplesmente por melhores condições contratuais), com a consequente perda de conhecimento e uma escassez em quantidade e qualidade de um mercado de empreiteiros, consultores e projetistas que possam complementar as competências que as entidades gestoras possuem.

Estes e muitos outros desafios coexistem com a crescente pressão sobre o setor para reagir de forma rápida a eventos extremos resultantes das alterações climáticas, para ser mais inovador, eficiente e concretizador.

*Esta entrevista foi publicada na edição 115 da Ambiente Magazine
Etiquetas: Águas do Tejo AtlânticoentrevistaNuno Brôco
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