#Apemetalks: “Apoio financeiro do Estado deve ter contrapartidas verdes”

#Apemetalks: “Apoio financeiro do Estado deve ter contrapartidas verdes”

Atingir a neutralidade carbónica significa “mudar um conjunto de comportamentos, práticas e perceção do impacto das mesmas”. Quem o diz é Sofia Santos, especialista em finanças sustentáveis e climáticas da SistemicSphere, que não tem dúvidas sobre aquilo que terá de ser exigido às empresas.

A responsável, que falava no último webinar dos ciclos promovidos pela Apemeta (Associação Portuguesa de Empresas de Tecnologias Ambientais) sobre o tema “O Green Recovery e as Tecnologias Ambientais”, refere que, em matérias ambientais, é fulcral “antecipar uma outra forma de gestão” e que o “apoio financeiro do Estado deve ter contrapartidas verdes”. Caso contrário, “já perdemos um pouco esta batalha”. No entanto, a responsável evidencia aquele que tem sido o trabalho da Comissão Europeia (CE) ao longo da pandemia, notando que, a “partir de 2021, o sistema financeiro terá que reportar  como serão incluídos os sistemas de sustentabilidade nos seus portfólios”.  E sendo o sistema financeiro aquele que alavanca os investimentos, Sofia Santos acredita que o “processo de sustentabilidade acelere um pouco mais”. Por outro lado, a responsável afirma que as exigências sobre as empresas, em termos de “regulamentação, vão aumentar”, referindo que a diretiva já renovada vai também “obrigar as grandes empresas a reportarem as suas práticas de sustentabilidade”. Portanto, uma empresa que lhe faça sentido contribuir para os objetivos ambientais terá de incluir “novas tecnologias”, de forma a “minimizar os impactos ambientais nas outras áreas”, refere, acrescentando que o “setor financeiro começa a entrar de forma obrigada”, visto que será “induzido a estar mais disponível para financiar investimentos em projetos que sejam ambientalmente sustentáveis”. 

Já sobre os pacotes de recuperação económica, Sofia Santos refere que todos devem ter algumas contrapartidas verdes, “nem que seja a simples exigência de qualquer empresa ser obrigada a reportar anualmente de como está a contribuir para a neutralidade carbónica”. Para a responsável, a obrigatoriedade do “report” deveria ser algo “genérico”, o que implicaria “mais conhecimento às empresas sobre os verdadeiros impactos ambientais” e perceber que, “se nada fizermos, a Covid-19 foi apenas a primavera: teremos invernos bastante mais duros”.

“A escassez da água vai ser um problema emergente”

Por seu turno, Sofia Figueiredo, responsável de projetos integrados da Veolia, considera que “acelerar as ambições políticas ambientais” é a melhor forma de contribuir para este processo de retoma. E a crise da Covid-19 veio confirmar que o “nosso instinto de sobrevivência” soube de forma “muito rápida adaptar-se a uma crise que ninguém esperava”, sendo esta uma oportunidade para “agir e contribuirmos para a evolução da economia”. Além disso, a pandemia veio também trazer outra realidade: “Não estávamos a respeitar a questão dos recursos”. E a questão da gestão da água é motivo para a engenheira sublinhar que “estamos muito aquém” daquilo que é preciso fazer. Embora a legislação europeia estimule a “reutilização das águas residuais”, em Portugal “fomos pouco ambiciosos”, visto que só “promovemos a reutilização de água para apenas 20%” das regas e lavagens. “Temos de pensar em muito mais”, considera a responsável, sublinhando que a “escassez de água vai ser um problema emergente”. Sendo Portugal um país tão dependente da agricultura, “não entendo o porquê da nossa ambição não ir mais além destes 20%”, refere, considerando que a meta deveria ser ainda mais objetiva e a “potabilidade” como algo a desejar: “Temos uma imensidão de mar e de água e podemos fazer muito dela”. Para a responsável, os investimentos devem ser centrados em soluções para “transformar a água para consumo”, até porque, à “medida que se vai investindo, a tecnologia vai evoluindo”, originando “novos empregos e de maior qualidade”. 

Sofia Santos não tem dúvidas de que as “medidas ambientais” devem fazer parte da retoma económica, acreditando que a Covid-19 veio ensinar que as “parcerias existem”, quer públicas quer privadas: “Toda a gente tem um contributo”.