As alterações climáticas na perspetiva da Ciência, das Empresas e dos Jovens

As alterações climáticas na perspetiva da Ciência, das Empresas e dos Jovens

O Business Council for Sustainable Development (BCSD) Portugal e a HBO Portugal juntaram-se para o visionamento do documentário ambiental – produzido pelo ator e ativista Leonardo DiCaprio – “Ice on Fire”, na Fundação Calouste Gulbenkian. Seguiu-se uma conversa, moderada por João Wengorovius Meneses, secretário geral do BCSD Portugal, sobre as alterações climáticas com um membro da Ciência, um representante das Empresas e uma jovem que é “voz” das gerações futuras.

O secretário do BCSD Portugal recorda que se estima que em 2050 existam 10 mil milhões de pessoas no Planeta Terra, todas elas ambicionando alcançar uma boa qualidade de vida, e interroga se será possível, dados os desafios ambientais que se avizinham. Francisca Salema, estudante do Ensino Secundário e organizadora da Greve Climática Estudantil em Portugal, afirma que estamos já a assistir a uma “crise de refugiados” e que “se nós temos tantos refugiados agora, e vemos quão má é a qualidade de vida dessas pessoas, acho que a situação se vai agravar ao longo dos anos”.

António Martins da Costa, membro do board da EDP e responsável pela Direção de Sustentabilidade do Grupo EDP, revela-se mais otimista: “É difícil mas acho que a Humanidade tem capacidade de chegar lá se tiver vontade e meios para o fazer.”

Segundo Gonçalo Vieira, professor no IGOT e coordenador do Programa Polar Português, “o problema é talvez mais grave do que a questão climática. É uma questão de superpopulação na Terra e de grande peso da utilização dos recursos”.

O cientista alerta que “é essencial que nos convençamos que não podemos viver da forma como estamos a viver”, sobretudo as sociedades ocidentais, pois “temos muita gente a sair da pobreza e que tem todo o direito de o fazer”. O responsável da EDP concorda e reflete: “Como é que vamos explicar a sociedades que viveram sempre com um nível de vida muito inferior que não se vão industrializar da forma como nós fizemos porque isso vai prejudicar o ambiente?”.

Gonçalo Vieira observa que “quem vai hoje à Ásia ou a África percebe que não é sustentável o que está a acontecer, as cidades estão a crescer a um ritmo incrível, e quem vai sofrer verdadeiramente com as alterações climáticas nem somos nós”.

Ambos os oradores acreditam que os países em vias de desenvolvimento devem ter a possibilidade de crescer de forma sustentável através da “transferência de riqueza e conhecimento” dos países desenvolvidos. António Martins da Costa revela que, nos últimos 18 anos, entre os países da OCDE registou-se um decréscimo de 8% nas emissões anuais de CO2, enquanto que nos países em desenvolvimento as emissões duplicaram.

Medidas de combate à crise climática

A organizadora da Greve Climática Estudantil avança que 71% das alterações climáticas são causadas por 100 empresas que “estão a destruir o Planeta e a ganhar lucro”. Na sua opinião, os hábitos individuais não têm tanto impacto e, dada a urgência do problema, há que “direcionar a nossa energia” para lutar contra as prática menos amigas do ambiente das grandes empresas e votar em partidos mais ecologistas.

António Martins da Costa sustenta que “incentivos e desincentivos têm que ser dados pelo poder público para todos os agentes, sejam cidadãos comuns ou empresas”. No caso das empresas, por exemplo, hoje em dia “já há um custo para quem emite CO2” na área da energia. Contudo, o representante da EDP frisa que “a energia é apenas um dos emissores”, além dos transportes e indústria, e que “o preço é baixo e não desmotivador suficiente”.

Já Gonçalo Vieira acrescenta mudanças na alimentação e na mobilidade para combater as alterações climáticas. O professor explica que “nós temos de comer mas andamos a comer de forma extremamente pesada ao nível dos ecossistemas e da emissão de CO2” e que “as deslocações em trabalho atingiram um nível inconcebível” com os constantes fluxos aéreos.

Energia verde e o social responsable investment

Sobre o trabalho desenvolvido pela EDP, a respeito do meio ambiente, António Martins da Costa afirma que “estamos comprometidos com a história que já temos, nomeadamente, toda a aposta na energia renovável e na eficiência energética”.

O membro do board da EDP diz ser fundamental, no setor da energia, proceder à descarbonização através da aposta nas energias renováveis e da eletrificação do consumo e adoptar uma atitude de eficiência energética, dando o exemplo dos atuais edifícios que “não foram construídos para serem energicamente eficientes”.

A EDP está a “construir cada vez mais energia eólica onshore, estamos a fazer agora uma entrada muito forte na eólica offshore e estamos também a entrar no solar fotovoltaico, que acreditamos que será uma das grandes soluções”, enumera António Martins da Costa. A EDP compromete-se ainda a descomissionar as suas “centrais [termoelétricas de Sines e do Pego] mais antigas e emissoras de CO2 até 2030”.

O responsável frisa que a EDP foi a primeira empresa portuguesa a emitir obrigações verdes e desvenda que “o setor financeiro está a fazer o grande esforço e exercício de aproximação” às questões ambientais: “Estão dispostos pura e simplesmente a fazer aquilo a que se chama o social responsable investment, isto é, apenas investir nos negócios e atividades que são socialmente responsáveis e ecologicamente respeitadoras do Ambiente.”

Greve Climática Estudantil

O BCSD Portugal também quis ouvir os jovens e, por isso, o convite endereçado a Francisca Salema para representar “a inspiração e as futuras gerações”. Questionada sobre a Greve Climática Estudantil, que tem proliferado um pouco por todo o Mundo, Francisca Salema considera que “todas as greves são importantes no sentido de que é importante a população manifestar-se sobre assuntos que sente tão verdadeiramente e tão proximamente como as alterações climáticas”.

A diferença é que nesta greve participam jovens que sentem que lhes estão “a roubar o futuro” na medida em que os problemas ambientais “estão a fazer com que o nosso futuro fique cada vez pior e que as nossas condições de vida sejam piores do que as dos nossos pais e avós”.

Francisca Salema garante: “Nós estamos numa situação que nunca foi vista na História da Humanidade em que a nossa própria existência está em risco”, comparando a crise climática à guerra e bombas atómicas. “Pode tornar-se pior do que qualquer um desses desastres.” As alterações climáticas estão aí e o que sobressai é a “urgência do assunto” pelo que “tem de haver uma chamada de atenção agora.”

Rita Inácio. Este artigo foi publicado na edição 81 da Ambiente Magazine.