BCSD: O papel fundamental das empresas na transição para um modelo de desenvolvimento sustentável e regenerativo 

BCSD: O papel fundamental das empresas na transição para um modelo de desenvolvimento sustentável e regenerativo 

O act4nature Portugal foi lançado, em 2019, pelo Business Council for Sustainable Development (BCSD) Portugal e tem como objetivo mobilizar as empresas a proteger, promover e restaurar a biodiversidade. Esta iniciativa surgiu em França, em 2018, pela organização Entreprises pour l’Environnement (EpE), parceira do BCSD Portugal através da Rede Global do World Business Council for Sustainable Development (WBCSD)

À Ambiente Magazine, João Wengorovius Meneses, secretário-geral BCSD Portugal, refere que o lançamento do act4nature Portugal integra-se nos “compromissos assumidos pelo BCSD Portugal” em 2019, ao “integrar a coligação Business for Nature”, e que tem como objetivo “envolver as empresas em compromissos que contribuam para reverter a perda de biodiversidade a nível global”. Segundo o responsável, as empresas aderentes comprometem-se com um conjunto de princípios comuns e com um conjunto de compromissos individuais que terão de implementar.

Diversos estudos científicos têm alertado para a perda de biodiversidade no planeta a um ritmo sem precedentes, aproximando-se rapidamente de um ponto sem retorno. Foi com base nestes alertas que surgiu a necessidade de criar o act4nature Portugal, evidenciado o papel decisivo que as empresas podem ter na “transição para um modelo de desenvolvimento sustentável, idealmente regenerativo”, sendo que é do interesse de cada uma a “preservação dos ecossistemas e dos recursos naturais, desde logo porque mais de metade do PIB mundial deles depende diretamente”, refere. Além disso, é também “uma exigência crescente por parte dos seus stakeholders”, sejam “reguladores, clientes, investidores ou colaboradores”. E as empresas que “não incorporem os princípios ESG ao longo das suas cadeias de valor, serão severamente penalizadas em termos de competitividade e licença para operar”, sustenta.

Ainda com base em mais dados, João Wengorovius Meneses lembra que a Avaliação Global, realizada pelo Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services (IPBES) sobre Biodiversidade e Serviços de Ecossistema, publicada em maio de 2019, evidencia que “os humanos estão a alterar os ecossistemas da Terra de forma dramática e a um ritmo sem precedentes, com cerca de um milhão de espécies animais e vegetais em risco de extinção”.

“Há um longo caminho que as empresas terão de trilhar”

De que forma podem as empresas fazer a diferença em matérias de biodiversidade? Segundo o secretário-geral BCSD Portugal, “mais de metade do PIB mundial depende diretamente de recursos naturais”, ou seja, da “ação direta” de cada um. “Uns mais, outros menos, todos os bens de grande consumo incorporam capital natural”, afirma, dando como exemplo as “casas, carros, telemóveis, computadores, alimentação, medicamentos ou roupa”, dos quais “não seria possível imaginar a economia e os nossos estilos de vida atuais sem uma forte presença dos ativos naturais”. Além disso, acrescenta, a “natureza também presta serviços essenciais”, tais como a “regulação da temperatura terrestre, a fotossíntese e a purificação do ar e da água”, sem os quais “não haveria vida na Terra” e, obviamente, “num planeta morto ou moribundo, não haveria empregos nem economia”.

É certo que a “maior transformação da década tem de ocorrer ao nível dos comportamentos de cada um”, afirma o responsável, dando nota da necessidade de “consumir menos e melhor”, tanto produtos como serviços. No entanto, para o responsável, cabe às empresas disponibilizar soluções: “Há um longo caminho que terão de trilhar, de inovação para a sustentabilidade”, no sentido de, por exemplo, tornar os “modelos de negócio muito mais circulares”, disponibilizarem “soluções assentes no usufruto e não na posse”, acelerarem a “transição para a bioeconomia”, e “incorporarem as várias dimensões ESG nos seus modelos de negócio e cadeias de valor”. E o primeiro passo passa por “identificar e compreender as suas dependências do capital natural e dos serviços dos ecossistemas”, de modo a que “possam passar a integrar e a reconhecer esses elementos em todas as suas decisões, das mais estratégicas às mais operacionais e quotidianas”, reforça.

A adesão ao act4nature Portugal não tem custos associados e pode ser feita por qualquer empresa, associada ou não do BCSD Portugal, de qualquer dimensão ou setor de atividade. O projeto, lembra João Wengorovius Meneses, deverá estar ativo até 2030, algo que é visto como uma mais-valia: por um lado, “muito mais empresas se deverão juntar ao grupo de 17 empresas iniciais até 2030” e, por outro lado, “as 17 empresas iniciais terão de rever os seus compromissos individuais de dois em dois anos, devendo aumentar a ambição dos mesmos em cada dois anos, ao longo da década”.

“São necessárias ações e compromissos tanto de-cima-para-baixo, como de-baixo-para-cima”

Portugal foi um dos países pioneiros no que diz respeito à dimensão climática, com o compromisso de ser um país neutro em carbono até 2050. E o Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050 assim como o Plano nacional Energia e Clima 2030 são um bom exemplo no desafio da emergência climática. O mesmo não aconteceu em matérias de biodiversidade: “Não terá tido a mesma centralidade nas políticas públicas nos últimos anos”, afirma João Wengorovius Meneses. Mas tal “priorização já foi dada”, refere, destacando que “já há cada vez mais várias iniciativas em curso no domínio da biodiversidade”. Aliás, recorda o responsável, com a aprovação da Estratégia de Biodiversidade 2030 da União Europeia e a sua integração como um dos 10 pilares do Pacto Ecológico Europeu, a par de outros pilares tais como o Novo Plano de Ação para a Economia Circular e a Estratégia do Prado para o Prato, a “União Europeia dá sinais muito fortes (e financiamento) para que a biodiversidade ocupe o lugar que merece em cada um dos seus países membros”. João Wengorovius Meneses acredita mesmo que no BCSD Portugal, há uma grande expectativa de que “Portugal irá à COP 15 na Convenção sobre a Diversidade Biológica, agora remarcada para 2021, com avanços neste domínio”.

Relativamente ao papel dos líderes políticos em matérias de biodiversidade, o secretário-geral do BCSD Portugal não tem dúvidas de que, no que diz respeito à transição para a sustentabilidade e, em particular, no domínio da biodiversidade, são necessárias ações e compromissos tanto de-cima-para-baixo, como de-baixo-para-cima. E de-cima-para-baixo, é fundamental que o “setor privado (as empresas), o setor público (os Estados), a academia (Universidades e Centros de Investigação) e a sociedade civil (as ONG) trabalhem articuladamente” no sentido de “informar e educar as pessoas”, proporcionando-lhes “soluções e alternativas” que possibilitem uma “mudança efetiva de estilos de vida e de opções de consumo” e, por vezes, “acelerando essa transição através de incentivos e penalizações”. Já de-baixo-para-cima, são necessárias “mudanças comportamentais em todos e cada cidadão do mundo”, sustenta.

Já sobre a pandemia da Covid-19, João Wengorovius Meneses é perentório: “É uma prova eloquente da nossa dependência dos sistemas naturais e do nível de stress em que estes se encontram”. Tratando-se de um vírus que, de um momento para o outro, muda e põe à prova tudo, o responsável afirma que a “capacidade de reação coletiva foi imediata e solidária”, apesar do “esforço e do sacrifício” a que obrigou. Mas uma coisa é certa: “Se o conseguimos na resposta a um vírus, temos de ser capazes na reação aos grandes desafios do século, entre os quais o das alterações climáticas e o da perda dramática de biodiversidade”, sustenta. E se a pandemia tem vindo a “acelerar a tomada de consciência coletiva” e, desse modo, a “transição para um novo modelo de desenvolvimento sustentável”, que também “trará alguns sacrifícios, sobretudo na fase de transição e adaptação”, o responsável avalia-a como uma oportunidade. Mas se “regressarmos ao antigo normal, foi uma oportunidade perdida”, vinca.

O BCSD Portugal sabe que em 2019 se consumiram, a nível mundial, 100 mil milhões de toneladas de recursos naturais, a maioria dos quais não renováveis ou com ciclos longos de renovação e que, segundo o último Circularity Gap Report, a Humanidade foi circular em apenas 8,6%. Esta é uma realidade bem presente e da qual a associação está bem consciente até porque “as mudanças sistémicas e culturais implicam tempo, tempos excessivos muitas vezes, quase geológicos”.  Mesmo assim, sabendo que o tempo é cada vez mais escasso para o cumprimento das metas e que os limites da biosfera estão em sério perigo de entrar numa zona sem retorno, o futuro é encarado com otimismo: “Estamos, sobretudo, concentrados na urgência da ação, sabendo que só poderemos fazer o que está ao nosso alcance e confiando na ação coletiva da Humanidade e na resiliência e capacidade regenerativa do planeta”.

O BCSD Portugal é uma associação sem fins lucrativos que agrega e representa mais de 100 empresas de referência em Portugal, ativamente comprometidas com a transição para a sustentabilidade. Desde a sua génese, em 2001, que o BCSD Portugal integra a Rede Global do World Business Council for Sustainable Development (WBCSD). A sua criação partiu da convicção de um conjunto de empresários portugueses de que a sustentabilidade, a par da transformação digital, seriam os dois maiores vetores de transformação das sociedades e das economias, isto é, dos estilos de vida das pessoas e dos modelos de negócio das empresas, ao longo do século XXI.

A saber… 

As principais etapas do act4nature Portugal até à data:·           

  • Adaptou-se o act4nature internacional à realidade portuguesa;
  • Constituiu-se o Advisory Board e o Steering Committee do act4nature Portugal, dos quais fazem parte vários e ilustres representantes da comunidade científica, da sociedade civil, da administração pública e do setor privado;
  • Fez-se um pré-lançamento, no dia 22 de maio (Dia Internacional da Biodiversidade), e o lançamento, no dia 25 de setembro, já com as 17 empresas subscritoras iniciais.

As etapas para adesão ao act4nature Portugal:

  • Familiarização com os compromissos já existentes através da brochura do act4nature internacional;
  • Identificação dos impactos, diretos e indiretos, da empresa no planeta, dos recursos naturais em que o seu modelo de negócio assenta, e da sua dependência de serviços de ecossistemas, bem como preparação de um breve plano de ação para a biodiversidade;
  • Estabelecer compromissos individuais SMART para a empresa, isto é, Specific, Measurable, Achievable, Relevante e Time-bound (Específicos, Mensuráveis, Alcançáveis, Relevantes e Delimitados no tempo);
  • Assinatura dos 10 compromissos comuns  pelo CEO da empresa;
  • Preencher o template com os compromissos individuais da empresa e enviá-lo por email para act4natureportugal@bcsdportugal.org;
  • A equipa do act4nature Portugal irá rever os compromissos, recorrendo, se necessário, ao apoio do Advisory Board;
  • Os compromissos assumidos pelas empresas no âmbito do act4nature Portugal são publicados no site do BCSD Portugal e a sua implementação acompanhada.
Cristiana Macedo