Esta foi a conclusão de um painel de debate que decorreu na quarta-feira, 20 de maio, em Lisboa, promovido pela NBI (Natural Business Intelligence) e pelo Instituto LIFE. Reunindo representantes da banca, seguros, indústria florestal e instituições brasileiras, o painel defendeu que a biodiversidade deixou de ser apenas um tema ambiental e passou a assumir um papel estratégico na gestão de risco, no financiamento e na competitividade empresarial.
Um dos temas centrais foi a emergência dos créditos de biodiversidade como possível nova classe de ativos financeiros. Embora o mercado ainda seja considerado embrionário, várias organizações já começaram a estruturar metodologias, sistemas de monitorização e mecanismos de certificação.
Heraldo Neves, Diretor Administrativo do BRDE – Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul, do Brasil, destacou que a instituição já desenvolve projetos-piloto ligados ao crédito de biodiversidade no bioma Mata Atlântica. Segundo o orador, o banco criou o programa “Banco Verde” e destinou cerca de dois milhões de reais para apoiar pequenas reservas privadas de conservação no sul do Brasil.
“O crédito da biodiversidade é um movimento de mercado importante, e quem sabe que um dia a gente possa ter isso como um ativo certificado”, afirmou. O orador acrescentou, contudo, que ainda existe um vazio regulatório: “a legislação brasileira e os pronunciamentos contabilísticos ainda não estão a organizar esse tipo de ativo.”
Outro caso apresentando foi o da Itaipu Binacional, responsável pela maior central hidroelétrica da América Latina. Luís Rodrigues da Silva explicou que a organização administra cerca de 100 mil hectares de ativos ambientais e utiliza há mais de uma década a metodologia LIFE para medir o impacto das suas ações de conservação.
Segundo o orador, a empresa passou a olhar para os créditos de biodiversidade como alternativa ao mercado de carbono, sobretudo porque as suas florestas já existiam antes do Protocolo de Quioto, o que limitou a geração de créditos de carbono tradicionais.
A empresa já utiliza indicadores ambientais para orientar decisões internas e selecionar projetos de conservação. O próximo passo, segundo o responsável, será transformar essas métricas em créditos negociáveis, “e talvez até emitir os nossos primeiros créditos”.
Fidelidade quer integrar biodiversidade na avaliação de risco
A discussão avançou também para o setor dos seguros, onde Henrique Silva, responsável de sustentabilidade Fidelidade, defendeu que a biodiversidade terá impacto crescente tanto na avaliação de riscos como nas estratégias de investimento das seguradoras.
O responsável explicou que o setor enfrenta um desafio duplo: compreender os riscos associados à degradação ambiental e, ao mesmo tempo, avaliar o potencial dos créditos de biodiversidade como ativos financeiros de longo prazo.
Como exemplo, citou a dependência da indústria farmacêutica de ecossistemas como a Amazónia. “Qual é que é o risco que isto traz para nós, se estivermos a segurar uma farmacêutica?”, questionou.
O responsável defendeu ainda que as seguradoras poderão usar instrumentos de pricing para incentivar práticas sustentáveis – “posso beneficiar quem for certificado”.
Também na sua gestão de negócio a The Navigator Company integra a biodiversidade. Sendo uma empresa ligada à indústria florestal, a Diretora de Sustentabilidade, Paula Guimarães, comentou que, ao longo de duas décadas, a empresa construiu um sistema contínuo de monitorização ecológica.
Atualmente, 12% dos 110 mil hectares geridos pela empresa em Portugal são áreas administradas com objetivos explícitos de conservação. A organização identificou 52 tipos diferentes de habitats naturais e mais de 1.460 espécies de fauna e flora.
Segundo a representante da Navigator, a biodiversidade passou a ser um elemento estratégico para a própria produtividade e resiliência do negócio. “Preservar a natureza, conseguir manter o mosaico [ecológico] e perceber os sinais que a natureza nos dá é absolutamente essencial para o sucesso do negócio”, afirmou.
A empresa está também a desenvolver metodologias experimentais para medir ganhos de biodiversidade, incluindo técnicas de eDNA e análises genómicas. O objetivo é criar modelos robustos e credíveis para futuros sistemas de créditos de biodiversidade.
Banca portuguesa acelera adaptação à agenda da biodiversidade
Também Filipa Saldanha, Diretora de Sustentabilidade do Crédito Agrícola, explicou que a biodiversidade deixou de ser apenas uma preocupação reputacional e passou a integrar diretamente a gestão prudencial do setor bancário: “a perda de biodiversidade para nós não é um chavão, não é uma abstração macroeconómica, é a exposição da nossa carteira de crédito”.
A responsável destacou o impacto crescente da regulação europeia e das exigências da Autoridade Bancária Europeia (EBA), que começam a obrigar os bancos a incorporar métricas de biodiversidade, água e solo nos seus planos de transição prudencial.
Segundo a própria, o setor financeiro português ainda está longe da maturidade necessária para trabalhar diretamente com créditos de biodiversidade, mas já começou a integrar métricas ambientais em instrumentos existentes, como Green Loans e Sustainability-Linked Loans.
O Crédito Agrícola já estruturou categorias específicas de financiamento ligadas à agricultura regenerativa, agricultura climate-smart e inovação tecnológica para adaptação ambiental.
Ao longo do debate, os participantes concordaram que o mercado de biodiversidade ainda enfrenta obstáculos significativos, incluindo dificuldades metodológicas, ausência de padrões globais consolidados, desafios regulatórios e receios de greenwashing.








































