Portugal pode reduzir significativamente as emissões de gases com efeito de estufa no setor dos transportes até 2030, mas o sucesso dessa transição dependerá de decisões políticas e investimento em tecnologias de baixo carbono. A conclusão é de um novo estudo desenvolvido pela Plataforma para os Combustíveis de Baixo Carbono (PCBC), em colaboração com a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, o Instituto Politécnico de Leiria e o Instituto Politécnico de Setúbal.
Atualmente, o setor dos transportes representa cerca de 25% das emissões de gases com efeito de estufa em Portugal e continua fortemente dependente de combustíveis fósseis, responsáveis por cerca de 80% do consumo energético do setor. Esta realidade coloca o país sob pressão para cumprir as metas europeias, que exigem que 29% da energia usada nos transportes seja de origem renovável até 2030.
Biocombustíveis e biometano ganham protagonismo
O estudo destaca os combustíveis de baixo carbono, como biodiesel, hidrogénio verde, combustíveis sintéticos e biometano, como soluções essenciais à eletrificação. Apesar do crescimento dos veículos elétricos, os investigadores sublinham que os motores de combustão continuarão dominantes, sobretudo nos transportes pesados.
Nesse contexto, os biocombustíveis líquidos e gasosos surgem como alternativa, em particular o biometano que apresenta o maior potencial de redução de emissões, seguido do HVO e o biodiesel avançado.
A análise prevê até 2030 três cenários. No mais ambicioso, Portugal poderia atingir 39,5% de energias renováveis nos transportes, superando largamente as metas europeias. Já os cenários mais conservadores ficam aquém dos objetivos.
Mesmo assim, os ganhos ambientais são claros: as emissões evitadas podem atingir cerca de 5,7 milhões de toneladas de CO2 equivalente em 2030, praticamente o dobro dos níveis atuais.
Um dos pontos mais positivos identificados é a abundância de biorresíduos no país, que podem ser convertidos em combustíveis renováveis. Segundo o estudo, o potencial disponível é até seis vezes superior às necessidades projetadas.
No entanto, nem todos os recursos acompanham essa tendência. Matérias-primas como óleos alimentares usados e gorduras animais são insuficientes para sustentar os cenários mais ambiciosos, cobrindo apenas cerca de um terço das necessidades.
Além disso, fatores como a disponibilidade de água para produzir hidrogénio verde e a dependência de importações continuam a representar desafios relevantes.
Outro obstáculo identificado é a idade da frota automóvel nacional. Em média, os veículos ligeiros têm mais de 13 anos e os pesados ultrapassam os 15 anos. No transporte pesado, quase 100% dos veículos ainda dependem de gasóleo.
Mesmo com o crescimento dos veículos elétricos, o estudo prevê que, em 2030, cerca de 90% dos camiões continuarão a utilizar motores de combustão, reforçando a necessidade de alternativas sustentáveis compatíveis com a infraestrutura atual.
Políticas públicas serão decisivas
Os investigadores defendem que a transição energética no setor dos transportes é tecnicamente viável em Portugal, mas exigirá medidas concretas. Entre as principais recomendações estão o reforço da recolha de resíduos, incentivos à produção de combustíveis avançados e maior estabilidade regulatória para atrair investimento.
A complementaridade entre eletrificação e combustíveis de baixo carbono é apontada como essencial para garantir uma transição eficaz e socialmente justa. Sem essa abordagem integrada, conclui o estudo, será difícil cumprir as metas climáticas nacionais e europeias.






































