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Covid-19: Impulsionadora de soluções inteligentes para as cidades?

Que a Covid-19 trouxe muitos desafios, já não é novidade. Passados dois anos, verifica-se que a pandemia foi uma grande impulsionadora de muitos projetos que estavam “dentro da gaveta”. No caso das cidades, assiste-se a um acelerar de soluções inteligentes e, ao mesmo tempo, a um conjunto de novas tendências que marcarão os territórios e a forma de estar nos mesmos.

Filipe Araújo

Rumando à Invicta, Filipe Araújo, vice-presidente da Câmara Municipal do Porto, confirma que as necessidades impostas pela pandemia aceleraram algumas das soluções inteligentes previstas para implementação. A “submissão e a tramitação de todos os processos administrativos e ocorrências à distância na Câmara Municipal do Porto” é um bom exemplo disso. Se algumas das soluções pensadas e concretizadas em contexto pandémico vão continuar no médio e longo-prazo, Filipe Araújo acredita que algumas das mudanças, forçadas pelas circunstâncias, possibilitaram experimentar fazer as mesmas atividades de uma forma diferente: “Alterou-se profundamente a interação com o Gabinete do Munícipe (GM) e hoje a larga maioria dos contactos é feito através da linha telefónica e pelos canais digitais, subsistindo apenas uma minoria de pessoas que procura o serviço presencial”. Depois de se “quebrar resistências”, conclui-se que “os assuntos são resolvidos com a mesma qualidade e celeridade, evitando-se deslocações desnecessárias”. Portanto, “sim: (a Covid-19) ajudou a acelerar projetos de digitalização de serviços e alterou profundamente comportamentos dos munícipes”, precisa.

Fazendo uma paragem em Bragança, o autarca Hernâni Dias refere que a cidade é conhecida por investir em soluções “smart” e, mesmo antes da pandemia, já se verificava tal preocupação. Ainda assim, durante a “era Covid-19”, destaca-se a criação de alguns projetos, como a implementação do “No Paper”, com vista à “desmaterialização e tramitação dos processos urbanísticos em suporte digital”, evitando, assim, o “gasto desnecessário de papel”, ou a criação do “Cartão do Munícipe” que oferece aos cidadãos a vantagem de “aceder a diversos serviços sem a necessidade de troca de numerário e bilhetes”. Muito em breve, o município vai ainda dispor de uma “plataforma de atendimento online”, com o objetivo de “prestar a todos os cidadãos um atendimento personalizado, seguro, confidencial e eficaz”, sem necessidade de deslocação ao Balcão Único de Atendimento. O autarca acredita que as soluções pensadas em contexto pandémico vão permanecer, até porque era algo que já estava pensado: “A Covid-19 apenas veio acelerar a sua implementação”.

Bruno Santos

Culminando no Seixal, Bruno Santos, vereador com o Pelouro do Desporto, Habitação, Ambiente e Fiscalização, reconhece que o surgimento da Covid-19 obrigou as entidades públicas a uma “adaptação rápida às novas circunstâncias”, garantindo uma “resposta eficaz às necessidades” dos cidadãos. No que concerne aos municípios, claramente, esse foi o primeiro teste de resistência: “Foi determinante o facto de a Câmara Municipal do Seixal já ter um percurso de digitalização de processos, de implementação de procedimentos baseados em fluxos de trabalho bem definidos e desmaterializados”, o que permitiu assegurar a “continuidade na resposta” aos cidadãos, refere. Bruno Santos, acredita que, em alguns casos, a pandemia surgiu como uma “oportunidade” para tornar o território mais preparado para futuros desafios e por isso, algumas soluções irão, certamente, continuar, designadamente as que concernem aos “espaços públicos enquanto centros de vida social e de prevenção de doenças, em contacto, sempre que possível, com a natureza”.

[blockquote style=”2″]Cidades estão a acelerar as suas iniciativas de “smart”[/blockquote]

Quem corrobora e confirma com a ideia de que a Covid-19 foi e continua a ser uma grande impulsionadora de soluções inteligentes é a consultora Deloitte: “As cidades tiveram que se reinventar para responder a novos paradigmas e tendências”. E a verdade é que “65% das cidades reconhecem que a transformação digital é crucial para o futuro”, afirma Miguel Eiras Antunes, partner da Deloitte, citando os resultados de um estudo. Para a consultora, as novas soluções, pensadas em tempos pandémicos, vão permanecer no dia-a-dia, até porque “mostraram ser melhores para os cidadãos, para as empresas e para o ambiente”. E os modelos híbridos de trabalho são um ótimo exemplo: “Mesmo podendo retornar aos escritórios, muitas empresas já adotaram modelos mais flexíveis ou remotos”. O mesmo acontece com a “crescente digitalização de serviços e a utilização de dados e de inteligência artificial” que trouxeram consigo “soluções mais eficientes, seguras e cómodas”, estando esta tendência em constante evolução.  “As cidades estão a acelerar as suas iniciativas de digitalização, de recolha de dados e de gestão holística e integral de todos os recursos”, afirma o responsável.

[blockquote style=”2″]“Cidade dos 15 minutos”[/blockquote]

Para Filipe Araújo, o Porto faz juz ao conceito de “cidade dos 15 minutos”: “A cidade é relativamente pequena em área, muito densa e os serviços básicos associados ao dia-a-dia distam a menos de 15 minutos das habitações”. No rumo a este desígnio, estão a ser feitos “alguns investimentos adicionais nos modos suaves que permitam vencer algumas diferenças de cota mais acentuadas em algumas zonas”, como por exemplo “o uso de escadas rolantes e elevadores” ou na “mobilidade suave e nos transportes”.

Hernâni Dias

Também Bragança afirma-se como tal, sendo já vários os exemplos que provam a aposta do município em projetos com vista a “incentivar a descarbonização, os modos de mobilidade suave e a mobilidade de todos os cidadãos”, como a “beneficiação de passeios, que permitem a mobilidade com maior conforto e da segurança de peões”, a “criação de passadeiras inteligentes”, o “serviço de bicicletas elétricas de uso partilhado, em zona urbana e rural”, ou o “aumento da extensão das ciclovias já existentes que contam, já, com 22 quilómetros, no total”, afirma Hernâni Dias.

Olhando para o conceito “cidade dos 15 minutos”, Bruno Santos acredita que o Seixal se integra, de igual forma, nesta visão: “Em termos de funções urbanas primárias, consegue proporcionar a grande parte da população uma distância até, ou inferior, a 15 minutos a pé ou de bicicleta (modos suaves) para a realização deste tipo de atividades”. No domínio da mobilidade sustentável, esta visão assenta-se no Plano Municipal de rede ciclável cuja implementação está em curso: “Vamos continuar a investir em equipamentos de proximidade e num alargamento da oferta de transportes públicos para podermos servir melhor as nossas populações”.

[blockquote style=”2″]Cidades portuguesas ainda não conseguiram alcançar o desígnio de “smart”[/blockquote]

Miguel Eiras Antunes

Mesmo que haja uma ambição clara e comprometida por parte de muitas cidades portuguesas em serem “smart”, a verdade é que o conceito obriga a um processo contínuo e integrado, pelo que, no entender da Deloitte, Portugal ainda não conseguiu alcançar esse desígnio. Das várias cidades com que a consultora tem trabalhado, destaca-se Lisboa (com projetos focados na mobilidade e redução da pegada de carbono), Porto (focado na economia circular e transição energética) e Cascais (apostando no desenvolvimento tecnológico para uma gestão eficiente dos serviços que presta): “Não são casos únicos, mas são bons exemplos de transformação integrada”. Na sequência do recente estudo “Urban Future with a Purpose” da Deloitte, foram identificadas 12 tendências que vão moldar o futuro dos ecossistemas urbanos e traçar o caminho para que estes sejam mais sustentáveis, resilientes e prósperos: “Já é possível observar algumas dessas tendências na prática, pois as cidades têm enfrentado de forma contínua os desafios em todo o mundo e são sensíveis ao contexto em que vivemos”. A “cidade dos 15 minutos” é uma dessas tendências com mais impacto imediato e transformador: “São cidades que tendem a ser projetadas para que a maioria dos serviços esteja a 15 minutos a pé ou de bicicleta, criando uma nova abordagem de vizinhança, promovendo a economia local, maior qualidade de vida, e mais tempo livre e, consequentemente, menos poluição e mais saúde”. Por parte de várias cidades, há a ambição de seguirem por esse caminho, mas ainda há algum trabalho de planeamento urbano e sustentável pela frente: “No geral, vemos que existe já uma grande oferta ao nível do comércio e da generalidade dos serviços e uma aposta crescente na mobilidade suave, mas falta ainda garantir maior acesso a saúde, educação e trabalho com maior proximidade”.

 

Este artigo foi incluído na edição 92 da Ambiente Magazine.