A transição climática exige ação concreta e o financiamento verde assume-se como peça central para alinhar economia e sustentabilidade. Entidades como a GRACE – Empresas Responsáveis e a BCSD Portugal sublinham o papel das empresas na integração de práticas responsáveis e na antecipação regulatória. Do lado financeiro, Crédito Agrícola e Santander Portugal destacam o crescimento de instrumentos que incentivam investimentos sustentáveis. Já consultoras como a Plan4Sustain e a impact partners reforçam a necessidade de preparação estratégica das empresas para captar estes recursos. Em conjunto, estas perspetivas revelam um ecossistema em evolução, onde ambição e capacitação caminham lado a lado.
A transição para uma economia mais sustentável deixou de ser apenas uma ambição política para se tornar uma prioridade estratégica no tecido empresarial. Num contexto marcado pela urgência climática e por metas cada vez mais exigentes, o financiamento verde emerge como um dos principais motores desta transformação.
No entanto, o acesso a financiamento verde não é automático. Exige preparação, conhecimento técnico e capacidade de demonstrar impacto mensurável. Desde a definição de métricas claras até à implementação de planos de transição credíveis, as organizações enfrentam o desafio de alinhar ambição com execução, num cenário onde o escrutínio é crescente e os critérios são cada vez mais rigorosos.

Começando pelo lado financeiro, Filipa Saldanha, Diretora de Sustentabilidade do Crédito Agrícola, explica que a classificação de projetos elegíveis para financiamento verde “assenta numa abordagem pragmática e progressiva, adaptada à realidade do tecido empresarial português”, mas que os “critérios variam em função da tipologia de operação e da dimensão do cliente”. No crédito verde, privilegia-se prova concreta, como certificações energéticas ou investimento em soluções sustentáveis, como energia solar e mobilidade elétrica. Já nas grandes empresas, utilizam-se indicadores de redução de emissões e consumo de energia, validados por entidades independentes – “neste âmbito, a Taxonomia Ambiental da UE constitui uma referência estruturante, integrada numa lógica de melhor esforço, à medida que a qualidade da informação reportada pelas empresas o permite”.
Já a robustez do processo em si “depende da recolha e validação de dados e de mecanismos internos de governação ESG, as quais asseguram consistência entre gestão de riscos, financiamento e reporte, garantindo credibilidade e rigor na classificação dos projetos sustentáveis”.
No Crédito Agrícola, o financiamento sustentável surge através de uma oferta diversificada de produtos, como o EcoCrédito para os particulares, o leasing e linhas de financiamento protocoladas com garantia para microempresas e PME, e a concessão de Green Loans para as grandes empresas.
No caso das pequenas e médias empresas, um dos principais desafios à concessão de financiamento verde é a “a limitada capacidade técnica e financeira dessas entidades para estruturar projetos verdes elegíveis, bem como a falta de informação sobre os benefícios e requisitos deste tipo de financiamento”, afirma Filipa Saldanha, acrescentando que “adicionalmente, existem obstáculos relacionados com custos iniciais elevados e incerteza regulatória, o que pode atrasar decisões de investimento”.
Todavia, para responder a estes desafios, o Crédito Agrícola tem apostado na “criação de condições não financeiras que permitam às empresas avançar nesta jornada”: isso passa por iniciativas de capacitação e acompanhamento próximo e personalizado, como programas de aceleração setorial, guias práticos para a elaboração de relatórios de sustentabilidade, ações de demonstração no terreno e formações especializadas sobre como recolher e reportar os dados ESG solicitados pela banca.
Já no que diz respeito às emissões de obrigações sustentáveis, as mesmas permitem à instituição bancária “captar fundos junto de investidores institucionais, direcionados especificamente para o financiamento de projetos com benefícios ambientais e sociais”. “este framework foi desenvolvido com base nas melhores práticas de mercado e nas orientações regulatórias aplicáveis, mas também tendo em conta a capacidade efetiva do banco para originar e acompanhar este tipo de financiamento”, evidencia a Diretora de Sustentabilidade.
Desta forma, o objetivo do Crédito Agrícola passa por dar “continuidade ao compromisso assumido no seu Plano de Transição Net Zero, anunciado em 2023, que estabelece metas claras de redução de emissões, tanto ao nível das operações internas, como em setores-chave da sua carteira de crédito, incluindo imobiliário, turismo, agricultura, energia, transportes e águas e resíduos”.

Desta mesma ótica partilha o Santander Portugal. Cristina Melo Antunes, responsável da Área de Sustentabilidade, começa por explicar que “mais do que uma estratégia de crescimento em volumes de financiamento sustentável, trata-se de incorporar fatores ambientais, sociais e de governação nas decisões estratégicas e de financiamento, garantindo a criação de valor no longo prazo”. Assim, o “Santander pretende atuar como um parceiro ativo”, não só na atribuição de soluções financeiras adequadas, mas também na “ melhor compreensão das oportunidades e dos riscos associadas à transição climática”.
Neste momento, a instituição bancária disponibiliza um conjunto alargado de soluções financeiras sustentáveis, incluindo financiamentos com utilização específica de fundos destinados a apoiar projetos verdes e/ou sociais, e, instrumentos como os sustainability-linked loans, que associam as condições de financiamento ao cumprimento de objetivos de desempenho de sustentabilidade das empresas. Mas é importante perceber que “nem todos os investimentos de transição se enquadram de imediato em classificações formais de «sustentável», mas podem ser determinantes para preparar o futuro, melhorar a eficiência e reduzir riscos, reforçando a sua competitividade”, alerta Cristina Melo Antunes.
À semelhança do Crédito Agrícola, “a classificação dos projetos no Santander em Portugal tem como principal referência a Taxonomia Europeia, que funciona como o enquadramento central para a identificação de atividades económicas sustentáveis”. Complementarmente, o Santander desenvolveu metodologias internas, como o Santander Finance & Investment Classification System (SFICS), inspirado na Taxonomia Europeia, que permitem uma avaliação estruturada e comparável das operações nas diferentes geografias onde está presente.
Além disso, o banco oferece iniciativas como a Santander Open Academy, uma plataforma de aprendizagem online, gratuita e acessível a qualquer pessoa, ou os programas de capacitação desenvolvidos em parceria com o Center for Sustainable Finance da Universidade Católica Portuguesa, que reforçam uma formação certificada em áreas críticas para a transição climática.
Para Cristina Melo Antunes, “o setor bancário tem um papel determinante na aceleração da transição climática, não apenas como financiador, mas sobretudo pela sua proximidade aos clientes”. “É nessa relação de proximidade que os bancos podem fazer a diferença, ajudando as empresas a compreender os riscos ambientais e climáticos, a integrá-los nos seus processos de decisão e a traduzi-los em escolhas concretas de investimento”.
Mas “o setor financeiro não gera, por si só, a procura por investimento sustentável, mas pode desempenhar um papel fundamental na sua mobilização”, acredita a responsável, que aponta alguns desafios ao financiamento verde como a disponibilidade, qualidade e comparabilidade dos dados não financeiros, que são essenciais para avaliar riscos e impacto, e a capacidade de transformar a sustentabilidade num verdadeiro foco de gestão e decisão de negócio.
Empresas na linha da frente da sustentabilidade e da responsabilidade corporativa

Daniela Lima, Gestora de Conhecimento e Formação do BCSD Portugal, sublinha que o financiamento verde é essencial para acelerar a transição das empresas para modelos mais sustentáveis. Para cumprir metas como as do Pacto Ecológico Europeu, defende, é necessária “uma mobilização massiva de capital” não só para empresas já sustentáveis, mas também para aquelas que estão em processo de transição.
A responsável destaca que estes instrumentos são decisivos para passar da intenção à prática. “A sustentabilidade não vive apenas de ambição e compromisso: é crucial concretizar”, afirma, explicando que o financiamento cria condições económicas mais favoráveis para inovar, implementar soluções e melhorar o desempenho ambiental das empresas.
Além disso, o financiamento sustentável reforça a ligação entre sustentabilidade e resultados financeiros. Como explica, em instrumentos como os “sustainability-linked loans”, “o custo do financiamento […] pode baixar ou aumentar” consoante o cumprimento de objetivos ambientais, incentivando um compromisso mais efetivo por parte das empresas.
Ainda assim, persistem obstáculos, sobretudo para as PME. Entre os principais, Daniela Lima aponta o “desconhecimento sobre as opções de financiamento disponíveis” e a falta de recursos e conhecimento técnico para responder às exigências, nomeadamente na produção de dados ESG fiáveis. Neste contexto, considera essencial “simplificar e desburocratizar estes processos” para facilitar o acesso ao capital.
Para apoiar esta transição, o BCSD Portugal promove iniciativas que aproximam empresas e financiamento sustentável, ajudando-as a alinhar estratégias com critérios ESG. Ao mesmo tempo, destaca o papel das políticas europeias na credibilização do mercado, sublinhando que “a comparabilidade e a credibilidade […] são componentes essenciais” para garantir que o investimento favorece atividades verdadeiramente sustentáveis.

Já Cláudia Teixeira de Almeida, membro da Direção do GRACE – Empresas Responsáveis e também Diretora de Sustentabilidade do Banco BPI, explica que o financiamento verde se refere a operações de crédito destinadas a projetos com impacto ambiental positivo, desde a descarbonização à proteção da biodiversidade. No contexto empresarial, sublinha, está diretamente ligado à competitividade e resiliência, permitindo às empresas responder “ao risco de transição e riscos operacionais num contexto regulatório e de mercado” cada vez mais exigente.
“O setor bancário desempenha um papel fundamental na orientação dos fluxos de financiamento” para uma economia de baixo carbono, afirma, apontando instrumentos como a definição de critérios de risco climático ou a bonificação de taxas como formas concretas de incentivar projetos sustentáveis.
No que diz respeito às soluções disponíveis, refere que praticamente todos os instrumentos financeiros podem ser mobilizados para fins sustentáveis, desde obrigações verdes a “sustainability-linked loans” ou empréstimos tradicionais direcionados a projetos ambientais. Esta diversidade permite adaptar o financiamento às diferentes realidades empresariais, sendo “especialmente relevante para PME”, que apresentam níveis distintos de maturidade ESG.
O financiamento verde surge também como um acelerador da execução das estratégias ESG. Segundo Cláudia Teixeira de Almeida, permite “transformar compromissos em investimento concreto”, contribuindo para a redução de emissões, aumento da eficiência energética e reforço da competitividade. Ao mesmo tempo, potencia o acesso a capital mais favorável e promove inovação e modernização dos processos empresariais.
Apesar das oportunidades, persistem desafios relevantes, sobretudo para empresas de menor dimensão. Entre os principais obstáculos estão a “capacidade técnica limitada”, a dificuldade em cumprir critérios da Taxonomia Europeia e a falta de dados ESG estruturados. Ainda assim, a responsável sublinha a importância de simplificar processos e reforçar o apoio técnico, de forma a tornar o financiamento sustentável mais acessível e eficaz.
Consultoria prepara empresas para aceder a financiamento verde
Mas o acesso ao financiamento sustentável, por vezes, pode precisar mais do que apenas chegar junto de um banco e questionar. Algumas dúvidas teimam a permanecer e é aí que podem entrar as empresas de consultoria, essencialmente as especializadas em sustentabilidade e ESG, como é o caso da impact partners.

Segundo Joana Bonifácio Andrade, consultora especializada em sustentabilidade corporativa com mais de 15 anos de experiência em projetos nacionais e internacionais, “uma estratégia de sustentabilidade bem estruturada, espelhada em critérios ESG, reduz a perceção de risco dos financiadores, o que se reflete diretamente no custo de capital”. É por isso que na impact partners, “trabalhamos diariamente com empresas que estão a perceber, muitas vezes pela primeira vez, que a sustentabilidade não é apenas uma questão de valores ou reputação, mas também de acesso a recursos e financiamento”.
Por exemplo, a quantificação da pegada de carbono “tornou-se um indicador essencial na avaliação de risco por parte de investidores e instituições financeiras”, visto que as empresas que tenham uma pegada de carbono mais alta poderão estar expostas a ricos de transição energética e a uma maior pressão regulatória, além de impactos na procura dos seus serviços.
“Na prática, as empresas que tenham dados robustos e rastreáveis e estratégias de descarbonização credíveis, tendem a beneficiar de melhores condições de financiamento, enquanto a ausência dessa informação é muitas vezes vista como fator de risco acrescido”, explica Joana Bonifácio Andrade, acrescentando que “dada a procura, na impact partners desenvolvemos ferramentas setoriais que permitem às empresas quantificar e reportar as suas emissões de GEE de acordo com metodologias reconhecidas, como o GHG Protocol e a norma ISO 14064-1”.
E a Taxonomia Europeia é uma das áreas que esta consultoria mais apoia as empresas, para entender este sistema de classificação comum, Para a responsável, “não basta ter boas intenções. É necessário demonstrar o alinhamento através de critérios objetivos e dados verificáveis, porque é isso que determina, na prática, a elegibilidade para o financiamento e a confiança dos investidores”.
Também os Relatórios de Sustentabilidade são um ponto crucial: “é efetivamente um instrumento de gestão que transforma dados em decisão”, considera Joana Bonifácio Andrade, pois “para os investidores interessados em impacto positivo, estes relatórios acabam por ser frequentemente o primeiro ponto de contacto”.
No caso da Plan4Sustain, outra empresa de consultoria especializada em sustentabilidade, a mesma pode ajudar a “criar a ponte entre a ambição estratégica da empresa e os requisitos concretos do financiador. Isso começa por identificar onde estão as oportunidades com maior potencial e perceber quais têm melhor enquadramento em avisos, linhas de garantia ou instrumentos europeus”, explicita Vítor Ferreira. Depois, é essencial estruturar o projeto: diagnóstico ESG, roteiro de sustentabilidade, inventário de emissões, definição de KPIs, quantificação de impacto e tradução do investimento para uma linguagem financeira e regulatória compreensível para quem decide o financiamento.

E o primeiro desafio começa logo na qualidade da informação: “muitas empresas têm boas ideias, mas não têm dados robustos sobre consumos, emissões, baseline e impacto esperado”. O segundo é traduzir um projeto técnico numa lógica financeira clara, com CAPEX, OPEX, retorno, redução de emissões e indicadores de acompanhamento. O terceiro é o alinhamento com critérios específicos de elegibilidade, incluindo enquadramento territorial, maturidade do investimento, calendário dos avisos e, em muitos casos, coerência com a Taxonomia Europeia. Finalmente, há um desafio interno de governação: sustentabilidade, operação, finanças e gestão de topo nem sempre falam a mesma linguagem, e isso fragiliza a candidatura. “É por isso que tantas empresas perdem oportunidades, não por falta de mérito, mas por falta de estruturação”, frisa o responsável.
Por isso é que o reporte ESG desempenha um papel central, pois, quando bem feito, “consistência à narrativa da empresa. Não basta dizer que se quer investir em sustentabilidade”.
“Na prática, a medição da pegada e os inventários de emissões deixam de ser apenas ferramentas de diagnóstico e passam a ser instrumentos de elegibilidade, priorização e negociação financeira. É precisamente nesta frente que a Plan4Sustain atua, com serviços de medição da pegada de carbono, Avaliação do Ciclo de Vida (ACV), indicadores e monitorização de dados de sustentabilidade”, afirma Vítor Ferreira.
No caso das PME, neste momento, “os instrumentos mais relevantes são, por um lado, os sistemas de incentivos do Portugal 2030 orientados para eficiência energética e descarbonização e, por outro, linhas de dívida e garantia com enfoque sustentável, ligadas ao Banco Português de Fomento e ao ecossistema InvestEU”. “Hoje, até a própria Comissão Europeia reconhece que o reporte voluntário de sustentabilidade pode facilitar o acesso das PME a financiamento sustentável”, sustenta o responsável.








































