Descoberta nova espécie de mamífero em Portugal

Descoberta nova espécie de mamífero em Portugal

A presença da espécie rato-das-neves (Chionomys nivalis), uma espécie adaptada ao ambiente montanhoso e que só habita locais de elevada altitude, foi agora confirmada em Portugal. Uma equipa de cientistas portugueses capturou-o na Serra de Montesinho e revelou que a população portuguesa de ratos-das-neves tem características genéticas que a distingue das restantes populações da Península Ibérica.

Os investigadores do Centro de Investigação e de Tecnologias Agroambientais e Biológicas (CITAB) da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO) da Universidade do Porto, apresentaram a sua descoberta num artigo científico, publicado na revista Italian Journal of Zoology, disponível em http://goo.gl/Nl9UBS.

O Chionomys nivalis foi detetado pela primeira vez, em Portugal, no Verão de 2014, pelas câmaras do fotógrafo de vida selvagem Gonçalo Rosa no âmbito de um trabalho fotográfico de algumas espécies de mamíferos presentes em Portugal. Em Lama Grande, uma das zonas mais altas da Serra de Montesinho, Gonçalo Rosa deixou as suas máquinas fotográficas preparadas com um dispositivo que dispara assim que deteta movimento e diferenças de temperatura, uma técnica usada para fotografar espécies difíceis de observar. A verificação das fotografias tiradas durante uma noite trouxe-lhe uma grande surpresa: em várias aparecia um rato com uns grandes bigodes brancos e uma grande cauda (que chega aos sete centímetros) e que não se parecia com nenhuma espécie que ele conhecia. Era pardo, com tons entre cinzento e branco, e o corpo, excluindo a cauda, teria entre dez e doze centímetros.

“Numa manhã, ao verificar as imagens de uma câmara que tinha colocado debaixo de uma grande pedra de granito, descobri que um animal havia ativado a célula. O roedor fotografado não parecia ser de nenhuma espécie que eu conhecia”, conta Gonçalo Rosa.

A surpresa levou o fotógrafo a enviar as imagens para Hélia Vale Gonçalves e Paulo Barros,  para os especialistas em micromamíferos do Laboratório de Ecologia Aplicada, inserido no CITAB, da UTAD, Hélia Vale Gonçalves e Paulo Barros, que confirmaram de imediato que se tratava de uma nova espécie, em Portugal. “Instalámos armadilhas específicas no local e conseguimos capturar dois animais: um macho e uma fêmea. Foram registadas as medidas biométricas (peso, comprimento da orelha, cauda, pata posterior e corpo) e recolhidas amostras para análise genética. Os animais foram libertados de seguida no local de captura”, revela Hélia Vale Gonçalves. As amostras dos dois indivíduos seguiram para análise genética no CIBIO-InBIO e os resultados obtidos permitiram verificar que são geneticamente próximos, mas diferentes das populações já estudadas do centro de Espanha.

“O rato-das-neves tem uma distribuição fragmentada na Europa, pois encontra-se restrito a zonas montanhosas, e as suas populações apresentam uma diferenciação genética considerável ao nível mitocondrial”, refere Joana Paupério. A investigadora do CIBIO-InBIO salienta, ainda, que “a população detetada em Portugal está localizada no limite da área de distribuição, mas é geneticamente próxima das restantes populações ibéricas. As populações espanholas estão classificadas como quase ameaçadas, pelo que a descoberta desta população em Portugal tem elevada relevância para a conservação deste roedor”.

“Esta espécie não é uma praga: concentra-se exclusivamente em regiões montanhosas e é bastante sensível a alterações do habitat. Além disso, como todos os roedores, tem um papel importante na disseminação de sementes”, explica, também, Hélia Vale Gonçalves, especialista em micromamíferos, do CITAB.

Os investigadores salientam ainda que, agora, deverão ser conduzidos “censos regionais rigorosos da distribuição dos micromamíferos para a efetiva conservação desta espécie”.

O Chionomys nivalis vive apenas nas regiões mais elevadas das montanhas, existindo desde o Turquemenistão até à Península Ibérica, sabendo-se da sua existência desde 1842.