É preciso reforçar “responsabilidade individual” de todos para atingir objetivos

É preciso reforçar “responsabilidade individual” de todos para atingir objetivos

“Um percurso que nos orgulha”. Ao longo de 16 anos de atividade, a Associação de Gestão de Resíduos “Electrão” tem atravessado por diversas fases. Desde a sua composição à estruturação de todo um sistema “preparado mais do que nunca para responder às ambições ambientais que são de todos” e que trata e valoriza mais de 400 mil toneladas de resíduos por ano, a “Electrão” quer continuar a fazer parte da solução, rumo a uma economia circular. Numa conversa com a Ambiente Magazine, Pedro Nazareth, diretor-geral da “Electrão”, percorreu a história da associação e falou ainda sobre o futuro do setor.

No longínquo ano de 2005, os sistemas de responsabilidade alargada do produtor ainda estavam numa fase muito embrionária de implementação. É neste contexto que surge o “Electrão – Associação de Gestão de Resíduos”, que inclui “um conjunto de empresas do setor elétrico e eletrónico”.

A primeira fase de implementação arranca em 2006 com a atribuição da licença para reciclagem de elétricos, seguida a atribuição de licença para pilhas, em 2008. Isto consubstanciou-se “no estabelecimento da rede de recolha, triagem e tratamento e reciclagem através da contratação com diferentes agentes económicos”, ao mesmo tempo que, “na vertente comercial da atividade, foi estabelecida a relação com as empresas responsáveis pela colocação de produtos elétricos e pilhas no mercado português”. Apenas em 2014, começa a segunda fase de implementação, através de uma “profunda reforma do modelo logístico da recolha destes resíduos, de expansão da rede de locais de recolha e de priorização das campanhas de comunicação dirigidas à recolha”. Mais rápido foi a entrada da última fase, iniciada em 2017, com a associação a assumir-se como “uma entidade ao serviço das empresas na implementação e gestão de diferentes sistemas de reciclagem e fim de vida. Alicerçado na defesa da sustentabilidade económica e ambiental destes sistemas e do respetivo conhecimento acumulado o Electrão passa atuar numa lógica multifluxo de resíduos que lhe permite explorar as diferentes sinergias operacionais”. Pedro Nazareth acrescenta também que esta fase coincidiu com a atribuição de uma licença à empresa para o sistema de reciclagem de embalagens: “É um momento de desenvolvimento de maior valor na gestão de resíduos para as empresas suas clientes que, numa lógica de economia circular, passam a contar com um apoio mais comprometido do Electrão para o apoio à gestão de fim de vida dos seus produtos, componentes e respetivas embalagens”.

Ao longo destas três fases de implementação do Electrão, a empresa assumiu um “papel determinante” em todo o sistema que está “preparado mais do que nunca para  responder às ambições ambientais”. Para o gestor, o Electrão contribuiu “para uma muito maior transparência dos três sistemas de reciclagem em que participamos, aumentado a rede de locais de recolha de elétricos e pilhas usadas a nível nacional e também aumentado as quantidades diretamente recolhidas e recicladas destes resíduos”, além do “crescimento da base de empresas nossas aderentes e o seu maior envolvimento nos sistemas de fim de vida”. Em termos de comunicação, a associação investiu mais de 20 milhões de euros em iniciativas: “A Escola Electrão, o Quartel Electrão, o Transformar, a Academia Electrão, o Electrão empresas são apenas algumas das nossas campanhas de bandeira dirigida a determinados públicos-alvo”, exemplifica. Mas o Electrão não para, desafiando-se a si “e aos nossos parceiros desta área a reformular ou a encontrar uma nova campanha, uma nova iniciativa, um novo projeto que efetivamente faça a diferença e provoque a desejada mudança de comportamento. Temos o dever e o trabalho acrescido de explicar, de detalhar, de discernir e simplificar as questões para mobilizar as pessoas”, justifica.

Um dos projetos recentes da empresa foi o “Movimento Faz Pelo Planeta by Electrão”, cujo objetivo era encontrar indivíduos que “abdicaram do seu conforto em prol das boas práticas ambientais e que se mantêm no anonimato sem pedir nada em troca. Queremos dar-lhes tempo de antena para que sejam inspiração para outros”, sublinha o diretor-geral. Estes indivíduos podem ser pessoas dentro da comunidade, designados como “Big Changers”, ou nas empresas, “onde há sempre alguém que se destaca fazendo a diferença e impulsionando boas práticas ambientais”, designados por “Corporate Changers”. As inscrições no site oficial do movimento (www.fazpeloplaneta.pt) ainda estão a decorrer, mas o balanço é muito positivo. Pedro Nazareth atenta que o impacto da iniciativa se deve “muito graças ao trabalho dos influenciadores mais conhecidos nestas áreas que se associaram a este projeto”.

No entanto, nem tudo foi bom. O país tem metas a cumprir, mas mantém uma “permanente incapacidade” para “combater e reduzir o flagelo ambiental associado às práticas de recolha e processamento do mercado paralelo de elétricos e pilhas usadas”. Questionado sobre que lições e aprendizagens têm sido retiradas ao longo destes 16 anos, Pedro Nazareth considera a urgência de um “entendimento comum” entre todos os “agentes económicos dos diferentes sistemas de reciclagem” como “a maior” de todas. Este entendimento vai implicar “concessões entre as diferentes partes e a procura direta desse terreno comum, mas não entregará este à idiossincrasia dos processos legislativos”.

Precisamos do envolvimento de todos

Avaliando a taxa de reciclabilidade no país, o gestor considera que existem incumprimentos, apesar do “progresso muito expressivo dos nossos resultados” no sistema de reciclagem de elétricos e pilhas usadas. No que se refere a este, “a recolha promovida pelo mercado paralelo é muito mais expressiva do que a recolha conjunta das entidades gestoras. Os resultados do sistema de reciclagem de pilhas usadas acabam em grande medida por serem também consequência deste mercado, que não manifesta preocupações de recolha seletiva ou separação de quaisquer frações”, sustenta. É, aliás, o mercado paralelo que, em conjunto com a “falta de mobilização para a separação e correto encaminhamento para reciclagem” fazem com os resultados fiquem aquém do necessário. A isto, junta-se ainda um terceiro fator conjuntural de “elevado consumo em mercado novo (e não de substituição) de determinados equipamentos elétricos e baterias”. Pedro Nazareth ressalva que este não é um problema ambiental por si só, mas vai agravar “fortemente a taxa de recolha e reciclagem, ampliando o resultado insuficiente do país”.

Apesar de tudo, é possível melhorar, reforçando a “responsabilidade individual de outros agentes do sistema e de fiscalização do mercado paralelo” e se esse reforço fosse, de facto, efetivo. “Quando maior for a liberdade de atuação e em particular de responsabilidade operacional, maior será a capacidade de intervenção do Electrão nos sistemas de reciclagem em que participa”, justiça o diretor-geral, acrescentando que a empresa tem feito a sua parte: “Temos combatido a atuação do mercado paralelo com um grande investimento nos meios de contentorização que temos feito, no controlo de qualidade dos elétricos e pilhas usadas que recolhemos e no desenvolvimento da nossa rede de locais de recolha que hoje ascende a mais seis mil pontos no pais”. Qualquer pessoa pode ficar a conhecer o local de recolha mais conveniente através do site www.ondereciclar.pt. “Para continuar a recolher e a reciclar cada vez mais e melhor, como é o nosso lema, precisamos do envolvimento de todos”, apela.

Como perspetiva o setor dos resíduos nos próximos 10 anos?

Acho particularmente importante no quadro dos próximos 10 anos, salientar o papel das entidades gestoras de responsabilidade alargada do produtor no desenvolvimento do sector e dos diferentes sistemas de fim de vida.

Desde logo numa intervenção cada vez mais ativa no desenvolvimento e melhoria das redes de locais de recolha facilitando o acesso e a utilização junto dos consumidores e promovendo o aumento da recolha seletiva tão necessário aos objetivos ambientais nacionais.

Mas também como garante para os consumidores e para as empresas que estes sistemas de reciclagem são custo-eficazes, sobretudo num quadro futuro em que o crescente aumento dos gastos com reciclagem irá impactar fortemente o consumo e as diferentes atividades económicas de suporte.

Perspetivamos também continuar o desenvolvimento da proposta de valor específica para as empresas nossas aderentes, constituindo-nos como um verdadeiro parceiro da transição destas para modelos económicos circulares.

Num papel catalítico da aproximação dos sistemas de fim de vida e da tecnologia de reciclagem com as cadeias de conceção e produção de produtos e embalagens. Ou mesmo num papel de apoio à extensão da fase de uso de determinados produtos ou componentes.

Por último, ainda neste papel charneira entre a cadeia de consumo e de fim de vida de produtos, o Electrão irá continuar a participar no estabelecimento e gestão de novos sistemas de responsabilidade alargada do produtor explorando as diferentes sinergias das atividades de fim de vida. Apoiando as empresas de diferentes sectores de atividade económica neste processo de correção de externalidades e de internalização dos gastos de fim de vida no preço dos produtos que consumimos.

É neste papel e neste modelo económico e ambiental de consumo mais circular e mais justo que nos revemos e onde pensamos que conseguimos inovar e fazer a diferença, enquanto organização.

Cristiana Macedo