#EconomiaCircular: Mudatuga quer transformar pessoas comuns em ninjas da compostagem

#EconomiaCircular: Mudatuga quer transformar pessoas comuns em ninjas da compostagem

A Economia Circular está, hoje, subjacente em muitas empresas. Produtos sustentáveis, amigos do ambiente e com um ciclo de vida longo são, cada vez mais, uma opção. Há também quem ponha em prática estes conceitos e desenvolva os seus próprios produtos. Com o objetivo de dar “voz” a projetos de cariz sustentável, a Ambiente Magazine irá, todas as semanas, apresentar algumas iniciativas aos nossos leitores e dar a conhecer o que se faz em Portugal nesta área. Esta semana, partilhamos o projeto “Mudatuga”.

 

Trata-se de uma startup de impacto sócio-ambiental que surgiu em 2020: “A nossa missão é transformar pessoas comuns em ninjas da compostagem, e fazemos isso através da educação ambiental, criação de comunidade e fornecimento de insumos para a compostagem doméstica e comunitária”, diz Carolina Bianchi, CEO & Co-founder da Mudatuga. É ambição desta startup levar a compostagem para o máximo de lares portugueses que conseguirem: “Acreditamos que uma verdadeira transição para a economia circular precisa do envolvimento popular para ter sucesso”. Neste momento, a equipa da Mudatuga está a finalizar o processo de incubação na incubadora do Instituto Pedro Nunes, em Coimbra, e a preparar o kick-off oficial da empresa.

No que diz respeito aos valores ambientais, o objetivo maior da Mudatuga é “acabar com a deposição de biorresíduos em aterros sanitários”, o que, geralmente, acontece porque não foram separados na fonte geradora: “Quanto mais as pessoas separarem os resíduos orgânicos ainda em suas cozinhas, maior a probabilidade de ser valorizado e transformado em adubo”, explica a responsável, acrescentando que “a separação na fonte é a premissa básica do nosso trabalho”. E por isso, continua Carolina Bianchi, “a educação ambiental de forma descontraída e o envolvimento das pessoas na solução deste problema ambiental é tão importante para a equipa”. Quando se opta por fazer a  “compostagem doméstica e comunitária”,  abandonando o “modelo de recolha indiferenciada porta-a-porta de resíduos domésticos urbanos”, a redução do impacto ambiental é tremenda: “São milhares de toneladas de equivalentes de carbono que deixam de ser lançadas à atmosfera anualmente, e ainda com a integração do composto na agricultura contribui na captação de CO2 do ar” atenta.  Mas as vantagens ambientais na abordagem da Mudatuga não se ficam por aqui: “Temos como foco a mudança de comportamento das pessoas, criando-se um impacto em cadeia”. Isto é, explica a fundadora, quando alguém adota um hábito mais sustentável, “é mais provável que se abra para testar novas ideias, novos produtos, procurar empresas mais responsáveis e questionar o status quo atual” em termos de sustentabilidade e economia circular: “Queremos ajudar toda a gente a ser capaz de aceder a dados e informações para que sejam capazes de reivindicar mudanças ao nível sistémico”.

Quanto a balanços, Carolina Bianchi adianta que já foi possível formar uma centena de pessoas em workshops, com as mais diversas parcerias: “O nosso alcance nas redes sociais e a participação em eventos contribuiu muito para que chegássemos a mais pessoas e criássemos mais impacto”. Além disso, o facto de terem sido uma das satrtups vencedoras do Climate Launchpad Portugal 2021, ajudou na visibilidade: “Tudo isso mostrou-nos que de facto havia um espaço a ser ocupado no advocacy pela valorização dos biorresíduos, e um projeto que coloca a transformação das pessoas em primeiro lugar tem resultado e gerado frutos”.

Para o futuro, o desejo é lançar o “primeiro compostor Bokashi feito em Portugal e adaptado à nossa realidade”, revela Carolina Bianchi, destacando o diferencial que têm em “oferecer toda a formação, apoio e comunidade para garantir que a jornada como ninja da compostagem de toda a gente” seja bem-sucedida. Para tal desígnio, estão a investir toda a energia no desenvolvimento do material – 100% reciclado e circular – e a procurar parcerias para a concretização do produto e a sua disponibilização em larga escala: “Ainda existe um longo caminho a ser trilhado aí, mas paralelamente continuaremos a oferecer os serviços e produtos voltados à educação ambiental”.

Maior parte das pessoas ainda não está a enxergar a gravidade da crise climática

Olhando à economia circular como um todo, a fundadora da Mudatuga acredita que Portugal está atrasado em algumas matérias: “Em vários países europeus, a compostagem doméstica e comunitária é muito mais difundida, e os negócios sustentáveis e zero waste já têm uma fatia maior de mercado”. A isto acresce que, também, “as taxas de deposição em aterro e desperdício de orgânicos já é mais reduzida” noutros lados da Europa. Apesar disso, Carolina Bianchi acredita que a consciência já foi despertada e está cada vez mais a chegar ao público: “Existem alguns nomes da sustentabilidade que a têm difundido pelas redes sociais, e temos muito gosto em ver como o público quer consumir conteúdos assim relevantes”.  Ainda assim, há muito espaço para “mudanças de comportamento” em Portugal: “Vai depender muito de melhorarmos a forma como a comunicação social passa a mensagem da economia circular, isto é, não podemos mais pensar que é algo apenas para defensores do ambiente ou para cumprir metas europeias”. Esta é uma “questão de sobrevivência humana” a curto e médio prazo: “Acho que a maior parte das pessoas ainda não está a enxergar a gravidade da crise climática que estamos a viver”.

Na opinião de Carolina Bianchi falta ainda “coragem” ao país: “Fazer uma transição rápida e eficaz para um modelo de economia circular não é uma decisão política fácil nem popular. É preciso enfrentar todo um sistema que está resistente à mudança, ainda que pareça o contrário”. E nesta matérias, constata a responsável, “há muitas empresas que têm grande influência de mercado a adotarem slogans e campanhas sobre a sustentabilidade”, mas chegam ao “fim do dia e mantêm as mesmas práticas” que degradam o ambiente e que não são socialmente justas: “É a isso que chamamos greenwashing”. No combate ao atual sistema degenerativo e na transição para um sistema regenerativo a compostagem assume um papel central porque impacta diferentes frentes: “geração de novos empregos e de novas tecnologias, educação e transformação social, produção de adubo orgânico para a agricultura e criação de comunidades mais resilientes”. O mais importante é que “os líderes políticos passem a ver esse potencial transformador da compostagem, e não apenas a vejam como mais uma meta europeia a ser cumprida”, afinca.

Quais as perspetivas para o futuro sobre estas matérias?

Graças à Diretiva Europeia 2018/851, vai passar a existir uma homogeneização das leis em termos de valorização de biorresíduos em território europeu. Acredito portanto que a transição para modelos mais sustentáveis de gestão de biorresíduos vai ser acelerado, visto que temos já na nossa legislação portuguesa o Decreto-Lei nº 102-D/2020. Espero que em Portugal a ação política para combater as mudanças climáticas seja executada de forma sistémica, e que não sejam feitas iniciativas pontuais para apenas cumprir metas. Isso é o que fará toda a diferença e poderá colocar o nosso país no centro da liderança dessa transição verde que o mundo precisa urgentemente.