Estudo revela que poluição no ar pode estar a fazer-nos perder inteligência

Estudo revela que poluição no ar pode estar a fazer-nos perder inteligência

Categoria Advisor, Investigação

Já se sabia que a poluição atmosférica tem efeitos nefastos para a saúde, mas uma nova investigação demonstra que também poderá estar a causar degeneração mental. Realizado na China, o estudo verificou que elevados níveis de toxicidade no ar podem provocar um grande retrocesso na inteligência, equivalente a perder um ano de escolaridade. 92% da população mundial é sujeita a ar poluído, segundo a Organização Mundial de Saúde.

De acordo com a Lusa, o estudo surgiu de uma iniciativa conjunta de investigadores da Universidade de Pequim e da Universidade de Yale, nos Estados Unidos e verificou 34 testes de linguagem e 24 testes de aritmética realizados a 20.000 pessoas por toda a China entre 2010 e 2014.

O objetivo da pesquisa era verificar que efeitos é que a poluição do ar tem na inteligência humana, comparando os resultados dos testes com os níveis de poluição causada por dióxido de nitrogénio, por dióxido de enxofre e por partículas com menos de 10 micrómetros de diâmetros. Partículas de maiores dimensões, assim como monóxido de carbono e ozono não foram consideradas.

Publicados na revista científica Proceedings of the national Academy of Sciences, os resultados demonstraram que quanto mais as pessoas foram expostas ao ar poluído, maiores os danos à sua inteligência. Os investigadores repararam que a capacidade de linguagem é mais afetada que a de matemática e que, dadas as diferenças de funcionamento cerebral, os homens são mais afetados que as mulheres.

Outra conclusão foi de que a poluição é incremental para o avanço de doenças degenerativas, como demência e Alzheimer.

Um dos investigadores, Xi Chen, membro da Escola de Saúde Pública de Yale, revela ao Guardian que o “ar poluído pode levar toda a gente a reduzir o seu nível de educação no equivalente a um ano, o que é imenso”. O aumento de 1 miligrama de poluição do ar ao longo de três anos pode significar uma perda cognitiva equivalente a três meses de educação, segundo o académico.

Mas a poluição não afeta só mais os homens que as mulheres. De acordo com Chen, “o efeito é pior para os mais idosos, especialmente para aqueles com mais de 64 anos”, sendo que a perda para este grupo de risco “poderá ser de vários anos de educação”, o que é particularmente perigoso pois “nós tomamos as nossas mais críticas decisões financeiras quando estamos em idade avançada”.

Outros estudos anteriores já tinham feito uma correlação entre a poluição do ar e os danos na capacidade cognitiva dos estudantes, mas esta é a primeira vez que um estudo tem como amostra pessoas de todas as idades e de ambos os géneros.Derrick Ho, investigador da Universidade Politécnica de Hong Kong, diz que estes resultados vão de encontro a pesquisas prévias e que os efeitos nefastos da poluição atmosférica podem ser associados “a stress oxidativo, neuroinflamação e neurodegradação” do cérebro humano.

Para além dos efeitos sobre a inteligência, outros estudos anteriores já deixaram patentes relações entre a poluição do ar e aumento de casos de doença mental em crianças ou a elevada mortalidade para quem já sofre de perturbações do foro psíquico.

Um problema à escala mundial

Apesar da China ter problemas notórios de poluição atmosférica, com os níveis três vezes superiores aos limites estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS), este é um problema de cariz global.

Segundo esta agência das Nações Unidas, 92% da população mundial respira ar pouco seguro, ou seja, nove em cada dez pessoas no mundo, com os maiores níveis de poluição encontrados em países mais pobres, na Ásia, África e Médio Oriente, onde se regista a maior percentagem de mortalidade causada pela poluição, que apresenta níveis cinco vezes superiores ao estabelecido pela OMS.

Os efeitos nefastos destes elevados níveis de toxicidade causam perto de sete milhões de mortes prematuras por ano, sendo a quarta maior causa de mortalidade no mundo. As partículas mais pequenas, particularmente letais, penetram os pulmões e o sistema cardiovascular, propiciando doenças cardíacas, cancro do pulmão, infeções respiratórias, doenças de obstrução pulmonar crónica e casos de AVC. A OMS estima que só em 2016, 4,2 milhões de pessoas morreram devido a poluição aérea.

É por isso que Chen considera que “não há atalhos para resolver isto” e que “os governos têm mesmo de tomar medidas concretas para reduzir a poluição do ar”, até porque não há fronteiras que impeçam a poluição de migrar. Todavia, a OMS reporta que são cada vez mais os países a lutar contra este flagelo e que são já 4300 cidades em 108 a pertencer à sua base de dados de qualidade do ar.

A importância do combate à poluição atmosférica levou a OMS a promover a primeira Conferência Global sobre a Poluição do Ar e Saúde, que se vai realizar entre 30 de outubro e 1 de novembro nas suas instalações em Genebra, na Suíça.