Um estudo liderado por investigadores europeus concluiu que grandes falhas geológicas podem não só orientar a subida do magma, como também impedir que ocorram erupções vulcânicas. A investigação, recentemente publicada na revista Nature Communications, teve como base a crise sismo-vulcânica registada na ilha de São Jorge, nos Açores, em março de 2022.
A equipa, composta por cientistas do Reino Unido, Portugal e Espanha, analisou com elevado detalhe o comportamento do magma no subsolo durante esse episódio. Para isso, recorreu a dados sísmicos de alta precisão, medições de deformação do terreno por satélite e informação geodésica.
Os resultados mostram que o magma ascendeu rapidamente desde profundidades superiores a 20 quilómetros até cerca de 1,6 quilómetros abaixo da superfície, onde acabou por estabilizar sem dar origem a uma erupção.
De acordo com Stephen Hicks, autor principal do estudo e investigador da University College London, “o magma deslocou-se rapidamente através da crosta, mas grande parte do seu percurso foi silencioso”, o que dificulta a previsão de erupções.
Durante o processo, a superfície da ilha elevou-se cerca de seis centímetros, confirmando a intrusão de magma. No entanto, a atividade sísmica mais intensa só ocorreu após o movimento ascendente ter cessado.
Os investigadores identificaram que o magma utilizou a Zona de Falha do Pico do Carvão como principal via de ascensão. Esta estrutura geológica terá desempenhado um papel duplo: por um lado, facilitou a subida do magma; por outro, permitiu a libertação lateral de gases e fluidos, reduzindo a pressão interna e contribuindo para travar a sua progressão.
“A falha funcionou simultaneamente como uma autoestrada e uma fuga”, explicou Pablo J. González, coautor do estudo. “Ajudou o magma a subir, mas também poderá ter evitado uma erupção.”
O estudo revela ainda que este tipo de intrusões pode ocorrer de forma rápida e com poucos sinais prévios, o que representa um desafio para a monitorização e previsão de risco vulcânico.
Para Ricardo Ramalho, também coautor, a investigação demonstra a importância da integração de dados geofísicos terrestres e marinhos para melhorar a deteção e localização de fenómenos subterrâneos, apoiando a tomada de decisões pelas autoridades.
O trabalho resultou de uma colaboração internacional alargada e contou com financiamento de várias entidades, incluindo o Natural Environment Research Council, o European Research Council e a Fundação para a Ciência e a Tecnologia.






































