FCUP aposta na promoção da resiliência climática de culturas agrícolas

No Alentejo, a ocorrência de secas extremas e picos de calor tem provocado quebras avultadas na produção de trigo, de cevada e de grão-de-bico. Perante este cenário, investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP) vão desenvolver, ao longo dos próximos três anos, estratégias sustentáveis para melhorar a resposta destas culturas agrícolas aos efeitos das alterações climáticas.

Este trabalho de investigação decorre no âmbito da 7.ª edição do Programa Promove – O Futuro do Interior, promovida pela Fundação “la Caixa”, que aprovou recentemente dois projetos liderados pela FCUP: o Olive4Cereal e o endoLEGUME.

Aproveitar um resíduo da indústria do azeite para proteger o trigo e a cevada

O projeto Olive4Cereal, financiado na categoria de Projetos Inovadores, pretende valorizar um resíduo da indústria do azeite – o concentrado de águas ruças– águas residuais, de natureza tóxica, resultantes do processamento do bagaço da azeitona.

“Após tratamento deste subproduto, pretendemos formular um bioestimulante sustentável capaz de mitigar os impactos da seca no crescimento e na produtividade dos cereais”, conta Fernanda Fidalgo, docente da FCUP e investigadora do Plant Stress lab (GreenUPorto), responsável pelo projeto.

Esta estratégia poderá ainda contribuir para reduzir a dependência de agroquímicos, associados à degradação dos solos e à contaminação ambiental.

Depois de formulado, o produto será testado pela equipa da FCUP em culturas de trigo e de cevada sob diferentes regimes de irrigação, tanto em condições controladas, como em campo, de forma a testar a sua viabilidade prática.

Do consócio Olive4Cereal fazem ainda parte investigadores da Universidade do Minho e do CEBAL – Centro de Biotecnologia Agrícola e Agro-alimentar do Alentejo, com o apoio da empresa Casa Alta. O projeto conta com um financiamento total de 194 mil euros.

Tornar o grão-de-bico mais resiliente aos efeitos da seca e do calor

Já o projeto endoLEGUME, inserido na categoria Projetos de I&D Mobilizadores, tem como objetivo utilizar as comunidades microbianas das sementes de grão-de-bico para aumentar a resiliência climática desta leguminosa, cuja produção tem sido muito afetada pelos efeitos do calor e da seca.

“No período reprodutivo, temperaturas acima de 32°C aceleram o envelhecimento da planta, aumentam o abortamento floral e reduzem a formação de grão. Por sua vez, a falta de água, além de limitar o crescimento vegetal, pode também comprometer o peso e a qualidade nutricional do grão”, explica Cristiano Soares, docente da FCUP e investigador do Plant Stress lab (GreenUPorto), que lidera este projeto.

Mas o que torna algumas plantas mais tolerantes aos efeitos da seca e do calor do que outras? Sabe-se que certos microrganismos podem ter um papel benéfico na resposta das plantas ao stress ambiental; no entanto, essa relação não está ainda devidamente explorada no caso do grão-de-bico.

Por isso, neste projeto, os investigadores vão caracterizar as comunidades microbianas presentes nas variedades mais tolerantes e identificar os microrganismos mais promissores. A equipa pretende, desta forma, reunir um consórcio microbiano e integra-lo numa formulação a ser aplicada em variedades mais sensíveis aos efeitos da seca e do calor.

A FCUP será responsável pela avaliação da eficácia desta estratégia, através da caracterização da resposta fisiológica das plantas.

Após este trabalho, os resultados serão validados em condições de campo nos terrenos agrícolas do Polo de Elvas do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), uma entidade fortemente ligada ao melhoramento desta cultura em Portugal.

O endoLEGUME tem um financiamento de cerca de 300 mil euros e realiza-se em parceria com o INIAV e com o Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier, da Universidade Nova de Lisboa.