Fibrenamics Green procura dar uma segunda vida aos resíduos industriais

Fibrenamics Green procura dar uma segunda vida aos resíduos industriais

A plataforma Fibrenamics Green, um projeto que procura dar uma segunda vida aos resíduos industriais, esteve entre os 25 finalistas dos prémios REGIOSTARS 2020 da Comissão Europeia, tendo concorrido na categoria “Crescimento Sustentável: Economia Circular para uma Europa Verde”.  

À Ambiente Magazine, Raul Fangueiro, coordenador da plataforma e professor Universidade do Minho, conta que a Fibrenamics Green surgiu em 2016 como uma “plataforma colaborativa”, tendo no seu ADN, a “valorização de resíduos industriais”, transformando-os em “produtos de elevado valor acrescentado” por via da “incorporação de conhecimento técnico-científico e de design”. Atualmente, segundo o responsável, a plataforma “integra mais de 100 parceiros industriais” que “formam cadeias de valorização de resíduos”, numa “verdadeira simbiose industrial”.

Quanto ao papel Universidade do Minho, o coordenador diz que, através da Fibrenamics e do Centro de Valorização de Resíduos de Guimarães, a faculdade assume um “papel de liderança” em todo este processo, tendo lançado, numa “primeira fase”, a “ideia de criação da Plataforma Fibrenamics Green à CCDR-N” e, posteriormente, “concretizado o projeto nas suas múltiplas vertentes sob o lema `do resíduo ao produto´”. Efetivamente, tratou-se uma “ideia disruptiva” e, com “forte cariz inovador”, refere Raul Fangueiro, justificando com o facto da plataforma congregar as “competências técnico-científicas” da universidade, as “necessidades e estratégias das empresas” e a “criatividade dos designers e arquitetos”, numa “verdadeira integração interdisciplinar” com vista a “contribuir para um desenvolvimento mais sustentável”. Por outro lado, destaca o coordenador, assumindo a “criatividade como um dos pontos fundamentais na geração de inovação”, foi criado o “Green Think Tank” que é “constituído por mais de 80 designers, artistas e arquitetos” que são “constantemente impelidos a apresentar ideias de produtos inovadores com base em resíduos”.

Metodologia relevante para o meio-ambiente

Do ponto de vista ambiental, Raul Fangueiro declara que a Fibrenamics Green tem como missão “evitar a utilização excessiva de matérias-primas virgens em diversos setores industriais”, normalmente “escassas e limitadas”, substituindo-as por “resíduos oriundos de produtos normalmente descartados no final do seu ciclo de vida” em aterros ou simplesmente incinerados. E dos resíduos industriais que a plataforma pretende dar uma segunda vida, incluem-se, segundo o responsável, as “fibras provenientes de calçado e do vestuário”, a “madeira proveniente da indústria do mobiliário”, os “minerais provenientes da extração mineira”, ou os “plásticos provenientes da indústria automóvel. O facto de “contemplar as premissas da economia circular” faz com que a  Fibrenamics Green se assuma como “uma metodologia relevante” para o meio-ambiente, visto que “utiliza materiais normalmente considerados como “lixo” como “elemento preponderante” em novos produtos.

Desde 2016 até à data, o balanço feito por Raul Fangueiro é bastante positivo. Prova disso é, segundo o responsável, o “número de parceiros envolvidos”, a “constituição do Green Think Tank” com mais de 80 jovens criativos, o “desenvolvimento de diversos produtos inovadores” e a “criação de duas spin-off´s provenientes da plataforma”. A “SlateTec” e a “Givaware” são, para o coordenador, a “prova da pertinência do modelo que foi criado” e que agora é “aplicado de forma generalizada a todos os resíduos”. Para o coordenador, estas spin-off´s, geradas a partir da Fibrenamics Green, vêm colmatar a ideia do passado, onde a “conversão de resíduos em produtos esteve sempre muito associada a projetos autorais”, muitas vezes de “cariz individual”, com um “impacto limitado na economia”. Raul Fangueiro não tem dúvidas de que a “SlateTec” e a “Givaware” são a “demonstração de que é possível criar valor a partir de resíduos” e, dessa forma, “contribuir para a geração de empregos e de rendimentos em novas empresas muito competitivas com elevado grau de inovação”.

12% dos materiais e recursos secundários são reintroduzidos

Quando comparado com outros países, Raul Fangueiro considera que Portugal está no caminho certo: “As empresas estão mobilizadas para trabalhar para a neutralidade climática e a mobilização à volta da Fibrenamics Green é sinónimo disso”. Para o responsável, é notória a “consciência social” face à “necessidade de mudança”, no entanto, chama atenção para o facto de, numa “economia marcadamente linear” como a de Portugal, em que “apenas 12% dos materiais e recursos secundários são reintroduzidos”, será um “processo lento para alguns setores”.

Não restam dúvidas de que o país tem um “enorme potencial por explorar”, mas a “transição para uma economia circular” traduz-se, segundo o responsável, em “grandes investimentos” para as empresas: “Com um tecido empresarial marcadamente assente em PME esta transformação não será fácil”. No entanto, se o objetivo é “atingir a neutralidade carbónica até 2050” e sendo a economia circular sinónimo de “geração de emprego e competitividade económica”, Raul Fangueiro não tem dúvidas de que a aposta deverá ser essa. E os apoios estão a ser reforçados para o próximo quadro comunitário: “Será um bom incentivo a que mais empresas apostem na reestruturação dos seus modelos de produção”, sustenta.

NOS PRÓXIMOS 30 ANOS… 

A mudança de paradigma nas políticas em matéria de resíduos está a acentuar-se. Os resíduos deixaram de ser considerados como saídas do sistema económico para passaram a ser parte do ciclo socioeconómico. Temos políticas europeias concertadas para a adoção de modelos sustentáveis na indústria e isso deixa-me confiante no futuro e numa sociedade mais respeitadora do ambiente, mais digital e resiliente. Será um caminho longo a percorrer, mas acredito que em 10 anos as mudanças já serão notórias até porque, como sabemos, não há ‘Planeta B’ .
Cristiana Macedo