Por Pedro Pimenta, Presidente da Comissão Executiva do ABANCA Portugal
Vivemos um momento em que a incerteza deixou de ser a exceção para se tornar a regra. Em poucos anos sofremos uma acumulação de choques. Passámos por uma pandemia, vivemos uma guerra no espaço europeu e assistimos a um conflito no Médio Oriente cujo desfecho ainda desconhecemos, mas que já está a ter impactos concretos nas nossas economias. Estamos a ser impactados por uma aceleração tecnológica sem precedentes e por uma intensificação dos eventos climáticos extremos. Não se trata apenas de um ciclo mais volátil, trata-se de uma mudança estrutural, onde os riscos deixaram de ser remotos e tornaram-se imediatos, interdependentes e sistémicos.
Entrámos numa nova fase da economia global, marcada por fragmentação geopolítica, reconfiguração das cadeias de valor e crescente instrumentalização da política económica. Ao mesmo tempo, a inteligência artificial começa a transformar, de forma acelerada, a forma como produzimos, decidimos e gerimos risco, forma de trabalhar e produtividade.
Neste contexto, a sustentabilidade deixou de ser um tema setorial para se tornar um eixo central da economia, das finanças e da própria geopolítica. Mas essa centralidade traz uma exigência nova. Hoje, o verdadeiro debate sobre finanças sustentáveis já não é regulatório, é financeiro. A questão passou a ser como financiar a transformação da economia.
A transição climática e a transição digital exigem níveis de investimento sem precedentes. O Relatório Draghi sobre a competitividade europeia é claro: a Europa não falha por falta de ambição, falha se não conseguir financiar eficazmente a sua própria transformação.
A banca continua a ser o principal canal de financiamento da economia real, sobretudo em países como Portugal. É através dela que muitas empresas, em particular PME, acedem ao capital necessário para investir, inovar e adaptar-se. Mas o desafio hoje é diferente: já não se trata apenas de financiar projetos “verdes” ou atividades já maduras. O desafio é financiar processos de transição, o que implica risco e incerteza. A banca tem, por isso, de assumir um papel mais exigente: acompanhar trajetórias, e não apenas estados finais.
Entramos agora numa lógica de transition finance, menos centrada em classificar o que já é sustentável e mais orientada para financiar atividades e empresas cuja dupla transição digital e ecológica é indispensável.
Para economias como a portuguesa, esta mudança é decisiva. A transição não se faz excluindo setores, faz-se transformando-os. Neste contexto, os instrumentos regulatórios deixam de ser apenas técnicos, passam a ter uma dimensão económica e geopolítica. Quem define standards define, em larga medida, quem tem acesso ao capital.
Em Portugal, o setor bancário tem vindo a incorporar critérios de sustentabilidade na gestão de risco e decisão de crédito, incluindo a avaliação de riscos climáticos e de transição. No caso do ABANCA Portugal, este caminho tem passado pelo desenvolvimento de instrumentos de acompanhamento ESG, pela utilização de modelos digitais para identificação de riscos físicos e pelo apoio às empresas no seu processo de adaptação às novas exigências.
Não se trata apenas de cumprir metas ambientais ou adaptar modelos de negócio. Trata-se de redefinir a forma como financiamos o crescimento.
A este desafio junta-se uma nova realidade: a convergência de riscos. O risco geopolítico, o risco climático e o risco tecnológico cruzam-se hoje de forma inédita. A inteligência artificial oferece ferramentas poderosas para melhorar a avaliação desses riscos, mas não os elimina, redistribui-os. Sustentabilidade também é isto: garantir que a tecnologia reforça – e não fragiliza – a confiança no sistema financeiro.
É por isso que a questão essencial não é se vamos fazer a transição, é quem a vai financiar e com que capacidade de visão, escala e responsabilidade.
Aproveitemos estas disrupções e desafios para melhorar a nossa capacidade de redistribuir poupanças em créditos sustentáveis, para adaptar os serviços oferecidos pelo sistema financeiro à real necessidade das empresas e particulares num mundo em transformação, sabendo que estamos a viver momentos desafiantes, mas ao mesmo tempo extraordinários. A nossa pegada terá um forte impacto no futuro. Que seja sustentável!








































