Há lugares que carregam história — e há lugares que insistem em fazer futuro. A ETAR de Frielas pertence claramente à segunda categoria. 60 anos depois de ter sido palco de uma revolução silenciosa no saneamento em Portugal, volta agora a posicionar-se na linha da frente com a aposta na hidrólise térmica, um investimento que combina tecnologia, eficiência e visão estratégica.
A verdade é que o local de Frielas foi um local inovador, há 60 anos, ao acolher a primeira estação de tratamento de águas residuais com lamas ativadas no país. Hoje, esse legado não é apenas memória — é uma responsabilidade. E também uma oportunidade. O responsável interveio durante a recente apresentação da empreitada de construção da instalação da hidrólise térmica e assinatura do contrato de empreitada da fábrica de água de Frielas.
A nova empreitada, adjudicada por 28,7 milhões de euros, pretende transformar profundamente a forma como são tratadas as lamas produzidas pelo sistema. Num contexto em que a Tejo Atlântico gera cerca de 160 mil toneladas por ano, a pressão económica e ambiental tornou-se evidente. Em 2018 houve uma pequena revolução do mercado, com aumentos significativos nos custos de valorização, expondo a vulnerabilidade de um modelo excessivamente dependente do exterior.
A resposta surge agora sob a forma de um sistema de hidrólise térmica — uma tecnologia madura na Europa, mas ainda inédita em Portugal à escala prevista. O objetivo é claro: reduzir volumes, melhorar a qualidade das lamas e, sobretudo, fechar ciclos.
Mas o impacto vai além do tratamento de resíduos. A nova unidade permitirá à ETAR de Frielas tornar-se energeticamente excedentária, produzindo cerca de 21 GWh por ano. Numa altura em que a segurança energética ganha peso estratégico, este dado não é menor.
Há ainda ganhos menos visíveis, mas igualmente relevantes: a redução significativa do transporte de lamas — menos 400 mil quilómetros por ano — e a produção de fertilizantes orgânicos seguros, contribuindo para diminuir a dependência de insumos externos.
Frielas reafirma, assim, o seu papel como laboratório vivo de inovação no setor da água. Não por acaso, volta a ser pioneira: não apenas pela introdução da hidrólise térmica, mas também pela aposta em tecnologias complementares como o tratamento por anammox, igualmente inovador no contexto nacional.
Num tempo em que as infraestruturas públicas são frequentemente vistas como estáticas, Frielas prova o contrário. Evolui, adapta-se e antecipa. E, ao fazê-lo, mostra que o futuro do saneamento não passa apenas por tratar resíduos — passa por transformá-los em recursos, energia e valor.
Sessenta anos depois, o ciclo reinventa-se. E Frielas continua a dar o exemplo.
Como vai funcionar a nova unidade de hidrólise térmica de Frielas
A apresentação da empreitada de construção da unidade de hidrólise térmica da ETAR de Frielas — momento que culminou com a assinatura do contrato da futura fábrica de água — marcou um ponto de viragem na evolução desta infraestrutura. Foi nesse contexto que Nuno Broco detalhou o funcionamento de um sistema que introduz uma nova lógica no tratamento de lamas em Portugal.
O projeto assenta numa reorganização profunda do processo existente. A instalação passará a integrar uma linha dedicada à receção de lamas externas, com origem em unidades como Alcântara e Alverca, que serão descarregadas, armazenadas e sujeitas a um pré-tratamento até aqui inexistente. Esta etapa permite uniformizar características e preparar o material para o tratamento seguinte.
O coração da operação será a hidrólise térmica. Através da combinação de temperatura e pressão, a matéria orgânica é desestruturada, tornando-se mais facilmente degradável. Como foi sublinhado durante a apresentação, trata-se de “degradar muito mais rapidamente a matéria orgânica”, potenciando o desempenho dos digestores anaeróbios já instalados.
Esta otimização traduz-se numa produção reforçada de biogás e numa maior eficiência global do sistema. A jusante, a desidratação será também intensificada, permitindo reduzir em cerca de metade o volume final de lamas.
Entre os aspetos mais relevantes apresentados está ainda a integração de um sistema de tratamento de escorrências por anammox — o primeiro a ser implementado no país — evidenciando a aposta numa abordagem tecnologicamente avançada e integrada.
Com capacidade para tratar cerca de 73 mil toneladas de lamas por ano, esta unidade não é apenas um complemento: é uma peça central numa nova arquitetura de tratamento, mais eficiente, mais compacta e alinhada com os desafios atuais do setor.
De Nereda a Anammox: Frielas como laboratório de inovação no saneamento
A sessão de apresentação da empreitada em Frielas não foi apenas um momento contratual — foi também um exercício de memória e de projeção. Ao revisitar-se a história da instalação, somos recordados que “o local de Frielas foi um local inovador, há 60 anos”.
Essa narrativa não é meramente simbólica. Ao longo das décadas, Frielas consolidou-se como espaço de teste e adoção de soluções pioneiras: desde as primeiras lamas ativadas com digestão anaeróbia, à introdução de biofiltração, passando pela implementação da tecnologia Nereda e pela produção de biometano.
A nova empreitada inscreve-se nessa trajetória. A hidrólise térmica, agora apresentada como próximo passo, não surge isolada, mas como evolução de um modelo que privilegia a integração de tecnologias. A par desta, o destaque dado ao processo anammox — ainda pouco disseminado em Portugal — reforça o posicionamento da instalação como referência técnica.
Durante o evento, ficou claro que esta aposta não responde apenas a necessidades internas. Existe uma expectativa explícita de replicação destas soluções noutras infraestruturas do Grupo Águas de Portugal, o que transforma Frielas num verdadeiro laboratório operacional.
A própria abertura da instalação a visitas técnicas de outras utilities, referida na intervenção, evidencia este papel. Mais do que operar, Frielas ensina — e aprende — num ciclo contínuo de inovação aplicada.
Num setor frequentemente associado à invisibilidade, este tipo de infraestrutura ganha aqui visibilidade estratégica: como espaço onde se testam respostas concretas para desafios ambientais, energéticos e operacionais cada vez mais exigentes.
O custo invisível das lamas e a resposta estratégica da Tejo Atlântico
A assinatura do contrato da empreitada em Frielas trouxe para o centro da discussão um tema muitas vezes ausente do debate público: o custo real da gestão de lamas.
A Tejo Atlântico produz cerca de 160 mil toneladas de lamas por ano. Um volume que, num modelo assente em outsourcing, representa um encargo significativo e crescente.
O ponto de rutura surgiu em 2018, quando o mercado registou aumentos abruptos nos preços de transporte e valorização. Como foi recordado, tratou-se de “uma pequena revolução do mercado”, que expôs a fragilidade de um sistema dependente de operadores externos.
Foi neste contexto que o Grupo Águas de Portugal estruturou o seu Plano de Lamas, assumindo a necessidade de internalizar parte do processo e recuperar controlo sobre esta componente crítica. A unidade de hidrólise térmica de Frielas materializa essa estratégia.
Ao reduzir o volume de lamas em cerca de 50% e melhorar a sua qualidade, o sistema permite diminuir custos operacionais e mitigar riscos futuros. Mas os benefícios não se esgotam na dimensão económica.
Um dos dados mais relevantes apresentados prende-se com a redução do transporte: menos 400 mil quilómetros por ano. Uma alteração com impacto direto nas emissões, na logística e na pressão sobre o território.
A dimensão energética reforça esta mudança. A futura capacidade de produção — estimada em 21 GWh anuais — permitirá não só a autossuficiência da instalação, mas também a geração de excedentes, abrindo novas possibilidades de valorização.
No essencial, o que foi apresentado em Frielas é mais do que uma obra: é uma mudança de paradigma. Um movimento de antecipação, que procura estabilizar custos, aumentar resiliência e alinhar o setor com os princípios da economia circular.
E, como ficou claro ao longo da sessão, trata-se de um caminho que não termina aqui — mas que, mais uma vez, começa em Frielas.









































