Futuro do Hidrogénio em Portugal “requer estímulo da procura, políticas justas, custos competitivos e regulação pragmática”

No momento em que se corre contra o tempo para travar a crise climática, o hidrogénio ganhou o estatuto de promessa energética, sendo visto como o “elo que faltava” na transição para uma economia neutra em carbono. Porém, aproveitar o potencial do hidrogénio exige grandes investimentos e há barreiras a ultrapassar.

 

Na realidade europeia, o hidrogénio já é uma das soluções colocadas no centro da transição energética, de forma a reduzir a dependência dos combustíveis fósseis (que são importados) e a sustentar a competitividade industrial, que tem sido um grande desafio para a Europa nos últimos anos. Em Portugal, a ambição não foge à regra, mas o caminho para a neutralidade carbónica padece de oportunidades reais e de condições regulatórias complexas.

Assim, nesta reportagem, a Ambiente Magazine ouve dois atores da fileira do hidrogénio em Portugal – Hychem e Repsol – e a APREN (Associação Portuguesa de Energias Renováveis), para entender em que ponto está o nosso país na produção e utilização deste gás renovável no contexto de descarbonização.

Vítor Coelho, Administrador Executivo e Chief Commercial & Business Development Officer da HyChem, começa exatamente por dizer que o “hidrogénio será uma fonte de energia limpa incontornável na substituição de combustíveis fósseis em diversas áreas”, visto que “contrariamente a outros gases renováveis de origem bio, a combustão do hidrogénio não gera CO2, apenas H2 e O2. Ou seja, a combustão do hidrogénio não contribui para o efeito de estufa e consequentemente não contribui para o aquecimento global e para as alterações climáticas”. Desta forma, prevê-se que o H2 será o mais “apropriado para descarbonizar as indústrias emissoras de CO2 e os meios de transporte”.

Vítor Coelho

Considerando que o “hidrogénio verde representa uma oportunidade que o país não pode desperdiçar”, o responsável da Hychem exemplifica onde poderá ser aplicado eficientemente: na mobilidade terrestre, de passageiros e de mercadorias, funcionando como combustível que produz energia elétrica; na indústria da defesa, por ser mais silencioso e com menor assinatura térmica; nas operações logísticas portuárias e aeroportuárias; na produção de e-SAF’s para a aviação e para o transporte marítimo; e noutros usos industriais que ainda hoje usam combustíveis fósseis. Além disso, o hidrogénio tem o potencial de armazenamento, podendo ser a fonte renovável de eleição para situações como ilhas, locais remotos ou pouco acessíveis.

No caso da Hychem, no mercado há mais de 80 anos, tem uma capacidade de produção de 1.700 toneladas/ano de hidrogénio verde e tem em curso projetos de expansão dessa capacidade, além de dominar todas as fases até à comercialização.

Esta empresa “posiciona-se na descarbonização de vários setores hard-to-abate e o seu parque industrial serve de test-bed a sectores ou tecnologias associadas ao hidrogénio, como motores, eletrolisadores transportes e, mesmo, processos biotecnológicos em que o hidrogénio é uma das matérias-primas. A HyChem produz também hidrogénio verde para consumo próprio (na sua caldeira de geração de vapor) e para fornecimento aos seus clientes”, explica Vítor Coelho, acrescentando que a empresa “concorreu ao concurso do CURg de injeção de hidrogénio na rede de distribuição de gás natural e ganhou 50% do volume total em concurso, aspeto muito relevante no seu desenvolvimento futuro. Nesse contexto contribuirá para descarbonizar cerca de 30 GWh de energia por ano, durante 10 anos, dando exemplo da forma como, numa transição progressiva, é possível dar passos firmes rumo à neutralidade carbónica”.

A Hychem ainda tem em curso projetos de investimento como o H2Hub, que contempla, entre outras ações, a construção de 8,5 Km de rede para ligar as unidades de produção, compressão e armazenamento de hidrogénio da HyChem, na Póvoa de Santa Iria, à rede nacional de gás. Uma vez construída essa rede, a distribuição de hidrogénio, em mistura com o gás natural, terá início já em 2028 – “terá um impacto direto junto de quase meio milhão de clientes domésticos e cerca de 1300 clientes industriais. Estando ligados à rede de gás, estes consumidores conseguirão descarbonizar parte dos seus consumos de energia sem necessidade de substituírem os seus equipamentos”, evidencia o responsável.

A empresa opera neste momento a adaptação e comissionamento de um motor marítimo Mitsubishi para funcionamento dual a diesel e hidrogénio e um projeto PRR aprovado para a construção de uma fábrica de eletrolisadores.

Por sua vez, a Repsol tem apostado em Portugal e Espanha para a produção de hidrogénio, por considerar que ambos os países “dispõem de condições particularmente favoráveis” para este efeito, “graças à qualidade dos seus recursos solares e eólicos e ao enquadramento político que impulsiona a transição energética”.

Segundo Maria Isabel Rodriguez, Diretora de Hidrogénio da Repsol, o H2 é “um vetor energético versátil, que pode ser utilizado como combustível, como matéria-prima industrial ou como forma de armazenar eletricidade produzida a partir de fontes renováveis”, além de poder ter um “impacto decisivo na descarbonização de setores que, pela sua natureza, apresentam emissões elevadas e poucas alternativas tecnológicas”, como a siderurgia, a química, os fertilizantes e o cimento.

Maria Isabel Rodriguez

Contudo, “o verdadeiro potencial do hidrogénio vai além da simples substituição do hidrogénio cinzento nos processos atuais”: “para que o hidrogénio concretize todo o seu potencial transformador, é imprescindível fomentar o aparecimento de novos mercados de consumo. A criação destes mercados permitirá ampliar a procura, diversificar aplicações e maximizar o impacto do hidrogénio na transição energética, contribuindo para a autonomia estratégica, a segurança de abastecimento e a competitividade industrial da Europa”, refere a Diretora de H2 da Repsol.

Atualmente, esta empresa tem o objetivo de alcançar entre 700 e 1 200 MW equivalentes de hidrogénio renovável até 2030, sendo que em Espanha já possui eletrolisador de 2,5 MW em operação desde 2024, localizado na refinaria da Petronor, em Bilbao, e está a desenvolver outro de 10 MW no porto de Bilbao, que fornecerá hidrogénio a uma unidade demonstradora de e-fuels que a Repsol está a desenvolver no mesmo local, em parceria com a Saudi Aramco. Em Cartagena, a empresa aprovou recentemente a construção do seu primeiro grande eletrolisador de 100 MW, reconhecido pela Comissão Europeia como Projeto Importante de Interesse Comum Europeu (IPCEI). Estão também em fase avançada de engenharia outros dois projetos de grande escala: um eletrolisador de 100 MW no complexo industrial da Petronor (Bilbao) e outro de 150 MW no complexo industrial de Tarragona.

Já em Portugal, a Repsol está igualmente a construir uma unidade de produção de hidrogénio por eletrólise no Complexo Industrial de Sines. Este eletrolisador terá uma capacidade de 4 MW e permitirá produzir cerca de 600 toneladas de hidrogénio renovável por ano, num investimento de 15 milhões de euros. A construção começou no primeiro semestre de 2025 e a entrada em funcionamento está prevista para o primeiro trimestre de 2026 – “após suprir as necessidades internas do complexo, o hidrogénio produzido criará oportunidades adicionais de comercialização”, explica Maria Isabel Rodriguez.

Na perspetiva da APREN, enquanto associação do setor energético, o H2 “contribuirá ainda para a segurança de abastecimento e para a independência energética de Portugal, visto que o país tem recursos renováveis que lhe permitem produzir energia limpa localmente e gerar hidrogénio para uso interno direto ou através da sua incorporação em combustíveis renováveis de origem não biológica”.

O Presidente Pedro Amaral Jorge afirma também que o hidrogénio verde pode ser uma “ferramenta chave para descarbonizar setores industriais onde a substituição do hidrogénio cinzento por hidrogénio de origem renovável permite reduzir emissões substanciais, como na produção de aço, amónia e fertilizantes”, refere.

Pedro Amaral Jorge

No que diz respeito ao armazenamento e transporte de hidrogénio verde, tudo depende de soluções adaptadas ao seu destino e escala. O Presidente da APREN esclarece que “para custas distâncias, o H2 comprimido pode ser adequado, enquanto para grandes volumes e exportação tende a ser mais eficiente convertê-lo em derivados como amónia ou metanol, que são mais fáceis e seguros de transportar. A reutilização e adaptação de infraestruturas existentes, como gasodutos, sempre que tecnicamente viável, pode reduzir significativamente os custos e acelerar a implementação”.

“É igualmente crucial implementar normas robustas de segurança, certificação e monitorização, assegurando que o desenvolvimento do setor decorre com confiança pública. A integração do hidrogénio como solução de armazenamento sazonal de grande escala também pode contribuir para a estabilidade do sistema elétrico e para uma maior integração de renováveis no consumo final de energia”, comenta ainda Pedro Amaral Jorge.

Os desafios tecnológicos e económicos à produção de H2

Para a APREN, o custo dos eletrolisadores e o custo da eletricidade renovável dedicada que permanecem determinantes para tornar o hidrogénio verde verdadeiramente competitivo face às alternativas fósseis, são dois dos grandes desafios que este vetor enfrenta. Mesmo assim, é “essencial aumentar a escala dos projetos, assegurar fatores elevados de utilização dos eletrolisadores e garantir acesso a financiamento adequado num contexto em que muitos projetos ainda não atingiram decisão final de investimento”.

Igualmente, “a inexistência de infraestruturas de transporte, distribuição e armazenamento devidamente planificadas representa um entrave ao desenvolvimento do setor”, a par da pouca estabilidade regulatória, que depende de “regras claras de certificação, definição de mercado e coordenação com as estratégias europeias”.

Vítor Coelho da Hychem acredita que os desafios são muito mais económicos do que tecnológicos, passando pelo de custo de energia elétrica para as empresas em Portugal vis-à-vis as congéneres europeias, e pela necessidade de estímulos para a criação de um mercado de H2.

“Portugal tem dos custos de energia mais elevados da Europa, apesar de ser tão rico em fontes de energia renovável, designadamente solar, hídrica e eólica. A verdade é que as indústrias portuguesas têm um custo desproporcionado nas tarifas de acesso e não beneficiam de ajudas de estado ou dos apoios tarifários decorrentes da energia nuclear, como acontece na França, Alemanha, Espanha, ou seja, não há um levelled playing field na Europa no custo da energia, o que prejudicará a produção de hidrogénio competitivo em Portugal”.

Posto isto, “urge dar condições de competitividade ao setor”, sendo que a transição limpa através do hidrogénio verde “requer estímulo da procura, políticas justas, custos competitivos e regulação pragmática”.

Repsol

Já na visão da Repsol, “a regulação continua incompleta e complexa, especialmente no que diz respeito aos critérios de adicionalidade, correlação temporal e certificação – elementos essenciais para garantir previsibilidade aos investidores”. “É igualmente necessário harmonizar as normas entre os diferentes Estados-Membros, de modo a assegurar condições equivalentes de concorrência”, acrescenta Maria Isabel Rodriguez, concordando ainda com a questão dos custos elevados, essencialmente os associados ao investimento em eletrolisadores e infraestruturas.

Para que Portugal não fique para trás e não desistas de projetos de H2 verde, a Diretor de Hidrogénio da Repsol considera fundamental a “coordenação e harmonização normativa a nível europeu, para evitar a fragmentação do mercado e reforçar a competitividade do setor”. “a crescente competitividade internacional, especialmente em regiões com custos energéticos mais baixos, torna ainda mais relevante assegurar condições de investimento estáveis e competitivas na Europa”.

“Precisamos de políticas públicas consistentes”

No que toca ao papel dos Governos e das políticas públicas na promoção de uma economia baseada em hidrogénio verde, Vítor Coelho começa por frisar que “Precisamos de medidas que apoiem tanto o CAPEX de investimento — para os promotores, os utilizadores da indústria e os operadores de transporte — como também o OPEX, para que a adoção do hidrogénio possa competir com os combustíveis fósseis. A procura tem de ser estimulada, de modo a que os acordos de off-take se tornem possíveis, os investidores ganhem confiança e os projetos avancem”. “Precisamos de políticas públicas consistentes”, afirma, exemplificando que “para a injeção de hidrogénio, a HyChem tem de pagar o custo total de um gasoduto de 10 km de extensão, enquanto os promotores de gás natural pagariam apenas metade. Se formos sérios quanto aos gases renováveis, devemos promover uma rede dedicada ao hidrogénio e reduzir as suas barreiras logísticas”.

Maria Isabel Rodriguez acrescenta que os Governos têm o poder de criar um “enquadramento regulatório claro, estável e harmonizado ao nível europeu, que ofereça previsibilidade aos investidores e assegure condições de concorrência justas entre países e entre diferentes vetores energéticos”. “As políticas públicas devem também permitir alguma flexibilidade no cumprimento de objetivos, reconhecendo as diferentes tecnologias e facilitando uma transição gradual e realista”.

No que diz respeito ao apoio financeiro público, a responsável da Repsol vê este como crucial para compensar os custos iniciais elevados dos projetos.

Por fim, Pedro Amaral Jorge acredita que “os Governos têm um papel central na criação das condições de mercado para o desenvolvimento do hidrogénio verde, nomeadamente através de quadros regulatórios estáveis, previsíveis e alinhados com a estratégia climática europeia”. “São essenciais mecanismos que reduzam o risco dos projetos, como concursos, contratos por diferença, garantias públicas ou financiamentos de âmbito europeu. A definição de leilões para a expansão de energias renováveis é igualmente determinante para assegurar o fornecimento de eletricidade renovável a preços competitivos, condição crítica para a produção de hidrogénio”.

O Presidente da APREN conclui, dizendo que “é igualmente importante planear antecipadamente as infraestruturas de transporte, armazenamento e exportação, integrando o desenvolvimento do hidrogénio verde com a expansão das renováveis e com uma estratégia industrial de longo prazo”.

*Este artigo foi publicado na edição 114 da Ambiente Magazine