Green Talks: alterações climáticas, petróleo e Donald Trump

Green Talks: alterações climáticas, petróleo e Donald Trump

Na passada quarta-feira, dia 23 de novembro, a Associação de Estudantes do ISCTE organizou a 1ª edição da iniciativa Green Talks, que dinamizou um dia para os estudantes dedicado à problemática das alterações climáticas.

Após a exibição do documentário “Before the Flood”, de Leonardo DiCaprio, e da sessão de abertura que contou com a presença do ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandes, organizou-se uma mesa redonda com a presença de Madalena Martins, representante da Quercus desde 2004, João Camargo, investigador de alterações climáticas, e José Luís Ferreira, jurista e deputado português pelo Partido Ecologista “Os Verdes” (PEV).

O objetivo era analisar as alterações climáticas passando em revista a COP22 que aconteceu durante este mês em Marraquexe, Marrocos, e discutir os pressupostos do Acordo de Paris, alcançado em dezembro de 2015. Ressalve-se que este acordo vinculativo pretende assegurar que o aumento da temperatura média global fique abaixo dos 2ºC, prosseguindo-se o esforço para que se limite até apenas 1,5ºC.

“Rescaldo de Marraquexe”

Madalena Martins, da Quercus, aproveitou a ocasião para remeter uma mensagem alternativa em que alertava para o facto do planeta Terra ser “o único que temos, o único que temos que cuidar”.

Num “rescaldo de Marraquexe”, e numa breve apresentação, a ambientalista contestou os 15 contratos de concessão elaborados pelo Governo que visam a exploração de petróleo ao longo da costa portuguesa e distribuiu alguns postais contra esta ação, que posteriormente serão entregues ao Primeiro-Ministro, António Costa.

Seguiu-se João Camargo, investigador e ativista para as alterações climáticas, que apresentou uma retrospetiva da COP22, a que deu o título “O fim das ilusões”. Para este ativista, que esteve presente em Marraquexe, a COP22 manteve “o espírito negocial da COP21” e teve poucos avanços à maioria das propostas, nomeadamente em relação aos “fundos e combustíveis fósseis”.

Mais do que isso, e no “18º mês que é o mais quente mês seguido”, o ativista alertava para a necessidade de “mobilização e mudança de hábitos e consumos”.

“Não são precisos mais espectadores, mas sim mais ativistas”, assinalou referindo que em Portugal também “já existe um campo de batalha para as alterações climáticas”.

Por outro lado, João Carmargo não deixou de fora a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos que “cai como uma bomba” e que, no seu entender, “deita esta COP abaixo”. Mais do que isso, o ativista mostrou sempre relutância em relação aos resultados positivos que se possam alcançar. “(A COP) existe há 22 anos e nunca se conseguiu reduzir as emissões”, finalizou.

“Já existe um campo de batalha para as alterações climáticas”

Por fim, tomou da palavra José Luís Ferreira, jurista e deputado português pelo Partido Ecologista “Os Verdes” (PEV).“Todos temos presentes os impactos deste fenómeno, cada vez mais frequentes, como as cheias, as ondas de calor, os fogos florestais, as secas e que acabam por nos mostrar a vulnerabilidade dos ecossistemas às alterações climáticas e é por isso que se torna urgente tomar medidas sérias e efetivas para evitar o pior e garantir o nosso futuro coletivo”, declarou.

Por essa necessidade, o deputado considera que embora esta COP tenha trazido “pouco de novo”, estão a ser dados passos importantes, sobretudo com o Acordo de Paris, que entrou em vigor no dia 4 de novembro e que “já foi ratificado por mais de 100 países, incluindo Portugal e os EUA”.

“Interessa agora materializar o Acordo de Paris, para que possa sair do papel”, alertou, tendo em conta a necessidade dos diversos esforços diplomáticos entre países. Em relação às eleições norte-americanas e às declarações de Donald Trump, o deputado destacou a carta de intenções que foi elaborada durante a COP e “que se for entendida como um recado à próxima administração americana pode ser um ponto positivo”.

Na perpestiva do PEV, José Luís Ferreira declarou que se deve “exigir firmeza por parte dos restantes países do mundo e pressões diplomáticas sobre os EUA, que são o maior emissor de gases com efeito de estufa per capita”, alertando para o efeito dominó sobre outros países que a saída dos EUA do acordo poderia traduzir.

“Nós sabemos que nenhum país pode ficar de fora, até porque nenhum está imune às alterações climáticas. É por isso necessário um esforço urgente e temos que acreditar que esta eleição não vai derrubar este caminho assente na mudança de paradigma”, acrescentou.

Por fim e em relação a Portugal, o deputado insistiu no abandono aos “projetos de prospeção de petróleo, ao investimento sério nos transportes públicos”, juntamente com uma “aposta nas energias renováveis e na promoção da eficiência energética” que só assim poderão fazer “cumprir os acordos estabelecidos”.