Por Joaquim Teodósio, coordenador do LIFE SOS Pygargus
Manter o tartaranhão‑caçador é manter paisagens vivas, agricultura ativa e comunidades rurais dinâmicas. A conservação desta ave ameaçada depende diretamente da continuidade de práticas agrícolas sustentáveis e da valorização do papel das comunidades rurais como gestores do território.
Com início em 2024 e final previsto em 2030, o projeto LIFE SOS Pygargus, cofinanciado pelo programa LIFE da União Europeia, está a implementar ações concretas para travar o desaparecimento do tartaranhão‑caçador em Portugal e Espanha. Através da promoção do cultivo de cereais de sequeiro, da gestão sustentável da paisagem e da compatibilização das atividades humanas com a conservação da natureza, o projeto quer demonstrar que é possível produzir e conservar em simultâneo. Mais do que proteger uma espécie ameaçada, o LIFE SOS Pygargus está a promover um modelo de desenvolvimento rural equilibrado, assente em paisagens rurais diversificadas e resilientes.
O tartaranhão‑caçador (Circus pygargus) é uma ave migradora que se reproduz na Península Ibérica durante a primavera e o verão, dependendo de áreas abertas, nomeadamente campos de cereais e mosaicos de matos. Nas últimas décadas, o abandono das áreas rurais e a redução acentuada da área de cereal levaram a um declínio alarmante da espécie. Em apenas 15 anos, a população diminuiu cerca de 80% em Portugal, restando pouco mais de 200 casais reprodutores, concentrados sobretudo no Alentejo e em Trás‑os‑Montes, onde a agricultura cerealífera ainda mantém alguma expressão. Esta espécie que se alimenta de pequenos animais que podem ser prejudiciais para as atividades agrícolas (ratos, insetos, etc.) enfrenta um risco elevado de extinção no nosso país.
A resposta do LIFE SOS Pygargus assenta numa abordagem territorial e colaborativa. Entre abril e agosto, o projeto desenvolve uma campanha intensiva de localização, monitorização e proteção de ninhos, articulando‑se diretamente com agricultores, pastores e outros gestores do território. Sempre que necessário e possível, são ajustadas práticas e a altura das intervenções, promovendo soluções simples que permitem reduzir a mortalidade das crias e aumentar o sucesso reprodutor sem comprometer a atividade produtiva. Estas ações provam que pequenas adaptações podem gerar grandes benefícios para a biodiversidade.
O impacto do projeto vai além da conservação do tartaranhão‑caçador. Ao valorizar os agricultores e outros gestores do território como aliados essenciais, o LIFE SOS Pygargus reforça a importância de paisagens rurais multifuncionais, capazes de conciliar produção e retorno económico, biodiversidade e serviços dos ecossistemas, contribuindo também para a adaptação às alterações climáticas e qualidade de vida das populações.
Persistem desafios significativos, como a intensificação agrícola e alteração das culturas, o abandono das terras e a instabilidade económica do setor. O futuro passa por consolidar redes locais de cooperação, integrar estas abordagens nas políticas agrícolas e garantir valorização e reconhecimento para quem mantém boas práticas. O LIFE SOS Pygargus deixa uma mensagem clara: conservar a natureza é investir no território, nas pessoas e no futuro do mundo rural.O projeto LIFE SOS Pygargus – Ações urgentes de conservação das populações de tartaranhão‑caçador em Portugal e Espanha é cofinanciado em 75% pelo programa LIFE da União Europeia e implementado por um consórcio de 18 parceiros ibéricos, coordenado pela Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural.







































