Lipor: “A opção pela recolha porta-à-porta é o caminho”

Lipor: “A opção pela recolha porta-à-porta é o caminho”

Categoria Advisor, Entrevistas

Com seis municípios associados, a Lipor – Serviço Intermunicipalizado de Gestão de Resíduos do Grande Porto comemora, este ano, o seu 35º aniversário. Aproveitando o pretexto, Fernando Leite, administrador delegado da Lipor, desde 1999, falou à Ambiente Magazine na continuidade das 10ª Jornadas Técnicas Internacionais de Resíduos, que tiveram lugar no Porto. Num momento desafiante para o setor dos resíduos, com um desempenho abaixo das metas definidas pela União Europeia, o profissional refletiu sobre a marca que a Lipor pretende deixar em Portugal em temas que dedicou toda a sua existência.

Dizia a Dra. Isabel Nogueira, durante as 10ª Jornadas Técnicas Internacionais dos Resíduos, que a Lipor encara os resíduos como recursos. É essa a chave do vosso trabalho?

É com certeza. Para a Lipor o resíduo é um recurso, deve ser aproveitado conforme o seu potencial, e devemos minimizar a deposição em aterro sanitário. No caso da Lipor, apenas 1% dos nossos resíduos são confinados no Aterro Sanitário da Maia. O Sistema de Gestão Integrado de Resíduos da Lipor, dá resposta plena quer ao nível da triagem/ reciclagem, quer ao nível da valorização orgânica, quer mesmo pela valorização energética. Neste caso, para os resíduos que não são separados na origem, aparecendo-nos misturados e com uma qualidade muito má quer para reciclar como para compostar.

A que é que a estratégia dos 3M veio responder?

A nossa Estratégia 3M, de baixo carbono, tem sido muito importante no foco que colocamos em quase neutralizar a deposição de  resíduos em Aterro Sanitário, que é o equipamento com maior emissão de gases de efeito de estufa. Ao potenciarmos crescentemente a reciclagem e a compostagem, estamos a melhorar a nossa pegada carbónica.

Em concreto, quais as vossas apostas?

Quem se deter na análise das nossas operações de investimento para o período 2014/2020 confere que as nossas apostas são as recolhas seletivas, e nestas o porta-à-porta assume um papel preponderante, possibilitando maior quantidade de recicláveis e matéria orgânica para adequada valorização, diminuindo a entrada de resíduos na valorização energética. Em termos de investimentos, só no período 2016/2018 são cerca de cinco milhões de euros de investimentos. Entretanto estimamos que para 2018/ 2020 mais do que duplicarão, ou seja chegaremos aos 12 milhões de euros.

Este ano, quanto é que a Lipor reduziu em emissões face a 2016?

A Estratégia LIPOR 3M foi definida em 2008 e tomamos como baseline para toda a nossa estratégia o cálculo da nossa pegada carbónica no ano 2006. Os objetivos Lipor passam por reduzir a nossas emissões de GEE em 12% em 2012 e conseguimos, 16% em 2016 e conseguimos, e os dados previsionais para 2017 são tranquilizadores, esperando nós atingir uma redução de 20% em 2020.

Como é que encara a gestão de recursos em Portugal?

A gestão de recursos em Portugal, e vendo as estatísticas da Agência Portuguesa do Ambiente, não são animadoras, pois persiste um elevado confinamento de resíduos em aterro – cerca de 55% entre a deposição direta e indireta. Ou seja, após pré-tratamento nas unidades de Tratamento Mecânico Bio
ológico. Com estes dados, não podemos dizer que um resíduo é um recurso.

A imprensa avançou recentemente que, desde janeiro, foram destruídos quase 260 ecopontos no Grande Porto. A que é que se deve este número? Como é que podemos resolver situações como estas?

É efetivamente preocupante a destruição de ecopontos na região, sendo, aliás, uma situação comum noutras regiões do nosso País. Há, possivelmente, uma atração pelo espetáculo do fogo, sendo de lamentar esta situação. Estamos a estudar medidas dissuasoras, sendo que a opção pela recolha porta-à-porta pode permitir fazer diminuir estes lamentáveis episódios.

Há quem entenda que não é através de ecopontos que se resolve esta questão. Qual é a sua opinião?

A opção pela recolha porta-à-porta é o caminho e, no nosso caso, o exemplo da Maia responde cabalmente às dúvidas, alcançando-se per capita de cerca de 70Kg por habitante/ano nas três frações – embalagens, papel/cartão e vidro – quase inatingível quando nos baseamos na recolha por ecopontos.

A Lipor tem desenvolvido vários projetos de sensibilização. Algum que considere merecer destaque?

Para além de diferentes programas e iniciativas, como as visitas acompanhadas às instalações fabris, aos sábados verdes destinados a famílias, também com visitas, temos o programa do Parque Aventura e o Trilho Ecológico do Rio Tinto, para fruição pela população. Já o Geração+ é um programa destinado a ascolas, IPSS, empresas e entidades similares, onde trabalhamos uma metodologia de melhoria contínua em domínios ambientais, energéticos, de promoção da biodiversidade, entre outros. Uma simples consulta no nosso website (www.lipor.pt) mostra a imensa oferta nesta área que a Lipor oferece.

O que é que pode funcionar como um incentivo para os cidadãos?

A questão afetiva começa a perder terreno para incentivos mais tangíveis e daí também a Lipor estar a evoluir nesse sentido, sendo o nosso Ecoshop, um cartão de pontos, uma resposta de premiação a quem entrega materiais valorizáveis nos Ecocentros. Os pontos acumulados dão direito a descontos vários em mais de 100 entidades comerciais que beneficiam os aderentes.

Considera possível atingirmos a meta de 50% de reciclagem em 2020?

Com o atual estado de mobilização dos cidadãos parece-me difícil crescermos muito mais do que estamos a crescer atualmente e que é um crescimento muito moderado. São necessárias iniciativas disruptivas na sensibilização, na deposição e na recolha de materiais para reciclagem. É fundamental intensificar a recolha porta-à-porta, é fundamental que os produtores não domésticos sejam servidos com recolhas específicas de resíduos. Só assim poderemos aumentar quantidades.

*Este artigo foi publicado na Ambiente Magazine 76.