Durante o XVI Encontro Nacional de Gestão de Resíduos, organizado pela APEMETA, nesta quinta-feira, 16 de abril, Rosa Vazquez, responsável de desenvolvimento de atividade do Electrão, em representação do Mobilão (Associação de Gestão de Resíduos de Móveis e Colchões), confirmou que esta nova entidade gestora quer assumir um papel central na organização e valorização de um fluxo de resíduos ainda pouco estruturado em Portugal.
“Estamos a candidatar-nos para assumir a gestão do sistema de resíduos de mobiliário e colchões, num contexto em que há metas muito exigentes para a recolha e reciclagem”, explicou.
Assim, a criação do Mobilão surge no seguimento de novas exigências legais, que estabelecem objetivos progressivos para a recolha e reciclagem destes materiais. Entre as metas definidas está a recolha de 25% dos resíduos no curto prazo (2026), e de 40% em 2030, com 90% desses a terem de ser reencaminhados para reciclagem.
Segundo Rosa Vazquez, o processo de constituição da associação foi longo e envolveu vários produtores do setor, incluindo empresas como Electrão, IKEA, Leroy Merlin, Colunex e EMMA. “Foi uma verdadeira maratona, desde o envolvimento inicial dos produtores até à formalização da associação e submissão do pedido de licenciamento” – este que ainda não foi emitido pelas autoridades competentes.
400 mil toneladas colocadas no mercado todos os anos
De acordo com as estimativas apresentadas, cerca de 400 mil toneladas de mobiliário e colchões são colocadas anualmente no mercado português, sendo 96% mobiliário e apenas 4% colchões. No entanto, o grande desafio está no fim de vida destes produtos.
Dados do Relatório Anual de Resíduos Urbanos (RARU) indicam que mais de 200 mil toneladas de resíduos volumosos, onde se incluem móveis e colchões, são recolhidas anualmente. Ainda assim, a forma como estes resíduos são classificados e reportados varia significativamente entre sistemas de gestão.
“Verificámos que não há uniformidade na classificação dos resíduos entre diferentes entidades, o que dificulta uma análise rigorosa e o planeamento do sistema”, alertou a responsável.
A análise realizada pelo Mobilão indica que entre 60% e 70% dos resíduos volumosos correspondem a móveis e colchões, podendo chegar aos 80% em alguns casos. Isto representa um potencial de valorização de cerca de 155 mil toneladas por ano.
Apesar disso, a maior parte destes resíduos ainda não é devidamente separada. “Hoje, a segregação de materiais com valor é mais exceção do que regra. Há um grande potencial por explorar na separação e encaminhamento para reciclagem”, sublinhou Rosa Vazquez.
O modelo proposto pela associação assenta fortemente na rede já existente de recolha municipal, especialmente no chamado circuito de “monstros”. A associação pretende introduzir incentivos para promover a separação dos resíduos por tipo de material — madeira, plástico, metal e colchões — ainda na origem.
“Queremos potenciar o que já existe, mas com mais eficiência, assegurando que os materiais são encaminhados diretamente para reciclagem”, explicou.
Além dos municípios, o sistema deverá envolver operadores de gestão de resíduos, campanhas específicas com empresas e associações e outros canais logísticos.
Capacidade de reciclagem ainda limitada
Apesar do potencial identificado, subsistem desafios importantes, nomeadamente a capacidade instalada de reciclagem em Portugal e a necessidade de melhorar a triagem dos resíduos, que muitas vezes chegam misturados. “A capacidade de reciclagem ainda não é suficiente para os volumes esperados e será necessário investir em melhores processos de separação”, reconheceu.
Ainda assim, Rosa Vazquez destacou que já existem soluções para reciclagem de madeira, metal e plástico, bem como alguma valorização dos colchões, sobretudo da componente metálica.
A responsável defendeu também que o novo enquadramento legal representa uma oportunidade para estruturar o setor e impulsionar a economia circular. Atualmente, uma parte significativa destes resíduos ainda é encaminhada para aterro: “cerca de 60% deste material poderia já ser reciclado. Temos capacidade industrial em várias áreas, mas precisamos de organizar o sistema para aproveitar esse potencial”.






































