Moda sustentável também se faz de cortiça portuguesa

by Rita Inácio | 5 Julho 2019 10:51

Sete empresas portuguesas participaram na feira Neonyt de Berlim, que termino ontem, dedicada à moda sustentável, com propostas que abrangeram o uso da cortiça, do bio couro ou peças de roupa multifuncionais, conta a Lusa.

Mudar o conceito de uma empresa para uma perspetiva mais sustentável não é fácil, reconhece Márcia Nazareth, mas é uma mudança necessária.  É a primeira vez que a Nazareth Collection, que utiliza fotografias como padrões de moda, está presente numa feira internacional. A escolha para a estreia foi a Neonyt de Berlim, uma feira para profissionais, inserida na edição de Verão da Semana da Moda, que celebra dez anos.

“Os produtos que vendemos são os mesmos (…) mudamos o material, mantendo a qualidade de impressão. Agora usamos algodão orgânico, um material mais encorpado, fizemos várias tentativas até que conseguimos que a tinta não ficasse demasiado dura”, explica a criadora da marca que usa, por exemplo, imagens de cidades. “Os materiais tornam o produto mais caro”, assume Márcia Nazareth, considerando “necessária” a mudança. “Começa a ser obrigatório tornarmos as peças sustentáveis”, salienta.

A marca Marita Moreno decidiu começar a percorrer um caminho mais verde há cerca de um ano e meio. A empresa passou por um processo de sustentabilidade que está a correr “muito bem”, assume Pedro Marinho, diretor de vendas.

“Acreditamos que este é o futuro. Temos até uma linha especial de reaproveitamento de todas as peles que temos em armazém, com elas fazemos coleções limitadas”, descreve, mostrando as carteiras e calçado feitos com cortiça, microfibras, borracha, madeira e bio couro, todos os produtos feitos com base em matérias primas portuguesas.

Grande parte do volume de vendas desta marca portuguesa vai para fora do país e a presença na Neonyt é “incontornável”. “Esta edição está a correr melhor que a última, conseguimos aprender muito, ver os concorrentes e o que está a ser feito de novo. Esta é uma feira que está a crescer e tem muito potencial. As pessoas estão mais abertas, mais preocupadas com a sustentabilidade e mais conscientes”, refere Pedro Marinho.

Ao lado, Daniela Pais, da Elementum, recorda a evolução desta feira que começou com algumas dezenas de marcas e já conta com 170. A designer portuguesa tem estado presente desde o início com a sua linha de roupa multifuncional, em constante mudança, que ajuda as pessoas a consumirem menos.

“Tem havido uma evolução enorme em termos do mundo da moda sustentável. Antes eram muito menos marcas e menos stands, a feira cresceu imenso. Também há mais público, mais procura, as pessoas estão mais alerta para estas questões”, refere a criadora portuguesa.

Para Marlene Oliveira, responsável do departamento internacional do Centro Associativo de Inteligência Têxtil (CENIT), que apoia alguns dos expositores portugueses, a Neonyt é “uma feira inspiradora, com marcas que pensam no futuro do planeta, das comunidades e de novos modelos de consumo que tentam promover junto dos seus clientes”.

“Os expositores beneficiam ainda de conferências onde se discutem estas temáticas e se tenta antecipar soluções para os problemas atuais em torno da poluição e da utilização sustentável dos recursos, por isso é frequente encontrar produtos feitos com plásticos e resíduos resgatados dos oceanos, folhas do ananás, pele dos cogumelos ou cascas de maçãs”, acrescenta Marlene Oliveira, do CENIT.

Helena Silva concorda que a Neonyt é “o sítio para se estar na Europa no que diz respeito à moda sustentável”. Para a responsável da Vintage for a Cause, uma startup do Porto apoiada pela Fundação Calouste Gulbenkian, a feira tem servido para fazer contactos e dar a conhecer o que a marca faz, não só a potenciais clientes, mas também a estudantes.

“Recolhemos o desperdício têxtil de fábricas, convidamos estilistas, designers a criar edições limitadas de peças únicas, originais, que são feitas à mão por costureiras com mais de 50 anos (…) Com as receitas de venda destas peças, criamos programas de inclusão social”, explica. Com um primeiro dia “muito bom”, Helena Silva espera consolidar os contactos e fechar negócios.

A Neonyt, que mostra vestuário, calçado e acessórios que aliam a moda à sustentabilidade, é organizada pela Messe Frankfurt e termina hoje. Durante os três dias marcaram presença sete empresas portuguesas: a Elementum, a Nae Vegan, a Nazareth Collection, a Steelgroung, a Marita Moreno, a Ultrashoes e a Vintage for a Cause.

Source URL: https://www.ambientemagazine.com/moda-sustentavel-tambem-se-faz-de-cortica-portuguesa/