NextLap estimula a criação de calçado português feito com materiais derivados da reciclagem de pneus em fim de vida

by Cristiana Macedo | 9 Junho 2021 14:48

No âmbito do programa NextLap, gerido pela consultora de inovação colaborativa Beta-i e promovido pela entidade gestora portuguesa Valorpneu e a recicladora multinacional de origem dinamarquesa Genan, nove empresas associadas à cadeia de valor do setor e cinco empreendedores portugueses começaram a desenvolver em conjunto seis projetos focados em dar uma segunda vida a materiais derivados da reciclagem de pneus em fim de vida e promover um mercado mais circular.

A Decathlon, ao lado dos parceiros de inovação Rubberlink e Tintex são responsáveis por dois destes projetos-piloto, que consistem em “protótipos de calçado fabricado com materiais de pneus descartados”, lê-se num comunicado.

O NextLap é um programa no qual a Beta-i aplica a sua metodologia colaborativa, orientada ao desenvolvimento de pilotos e novos projetos entre empresas, startups e demais parceiros de inovação, com o objetivo de acelerar a transformação de modelos de negócio, produtos e serviços. Além da Valorpneu e Genan, o programa contou com o envolvimento da Decathlon Portugal, das Infraestruturas de Portugal, das empresas de construção Grupo Opway e Pragosa, do Cluster Automóvel MOBINOV, da empresa de reciclagem Extruplás, da empresa de calçado Procalçado e da marca de sportswear Houdini.

Durante nove meses, parceiros e empreendedores dedicaram-se à criação de pilotos para tratar e reutilizar os três componentes derivados de pneus em fim de vida: granulado de borracha, fibras têxteis e aço. Neste sentido, “os inovadores da portuguesa Rubberlink criaram uma solução de borracha de pneu desvulcanizada que permitiu à Decathlon Portugal produzir um protótipo de um sapato com uma sola de borracha 100% reciclada”, refere um comunicado divulgado pela Valorpneu. Segundo dados da Genan, em comparação com o uso de matérias- primas virgens para produzir produtos semelhantes, para uma tonelada de pneu que é reciclado, são produzidas menos de 700kg de emissões de carbono.

Já os inovadores da portuguesa Tintex, através dos materiais fornecidos pela recicladora Genan, conseguiram “reaproveitar o pó de borracha derivado do pneu para criar a gáspea de calçado de ginástica que será também testada pelo maior retalhista de produtos desportivos do país”. Segundo a Valorpneu, esta inovação permite “usar o pó de borracha em algo que até agora não tinha sido equacionado”.

A Tintex foi ainda responsável pelo desenvolvimento de uma solução para aproveitar o têxtil derivado do pneu, que permitirá reutilizar um material que tem poucas aplicações económicas e, comparativamente a matérias primas standard feitas com couro, reduzir o consumo total de energia e água na sua produção. Possíveis aplicações para esta solução são os selins das suas bicicletas, entre outros.

Já a Infraestruturas de Portugal poderá vir a apoiar a implementação, em colaboração com os inovadores Pavnext e o parceiro Pragosa, de uma tecnologia para ser colocada nas estradas, coberta com borracha proveniente de pneus reciclados, que tem como objetivo “desacelerar a velocidade dos veículos quando entram nas localidades”, destaca o comunicado. Juntamente com a Opway, a empresa pública tem ainda interesse em “continuar a apoiar a Runcobar na possibilidade de implementação de barreiras acústicas feitas de compostas por borracha derivada de pneu reciclado nas suas linhas ferroviárias, o que permitirá uma diminuição de 30% das emissões de carbono em relação produção de barreiras à base de óleo”.

Segundo Climénia Silva, diretora-geral da Valorpneu, “enquanto entidade gestora de pneus usados em Portugal, a Valorpneu tem vindo a investir de forma permanente em I&D e no desenvolvimento de novas soluções para os derivados de pneus em fim de vida. O NextLap é mais uma aposta neste sentido, com a mais-valia de aliar o conhecimento e a inovação a parceiros da indústria e da distribuição, permitindo assim que as “ideias” saiam do papel e se materializem em projetos concretos. Estamos muito expectantes com esta proximidade ao mercado e confiantes que iremos crescer junto das empresas que se associaram ao programa NextLap, no sentido de diversificarmos as aplicações e soluções para os pneus em fim de vida e estarmos na linha da frente de um futuro mais sustentável e responsável.”

José Carvalho, diretor de Business Innovation da Genan, explica que “a Genan está sempre na vanguarda da procura de novas soluções para o aproveitamento das matérias-primas secundárias provenientes dos pneus em fim de vida, fabricadas nas suas unidades de reciclagem. Com grande entusiasmo, os profissionais do departamento de Inovação e Suporte Técnico de Vendas descobrem tendências, reconhecem as necessidades e respondem em conformidade. Os objetivos do projeto Next Lap eram reunir inovadores e indústrias e impulsionar a entrada de novas soluções nos circuitos comerciais. O primeiro objetivo foi efetivamente alcançado e, com a criação dos protótipos, será possível avaliar todas as propriedades inerentes a fim de possibilitar a transição para a produção em massa.”

Para Pedro Rocha Vieira, cofundador e CEO da Beta-i, “é com bastante satisfação que chegamos ao fim de um programa de inovação colaborativa com projetos tangíveis, prontos a serem desenvolvidos e implementados no mercado real, e com outros em desenvolvimento. Esta é mais uma prova da colaboração como motor da inovação – sendo que, graças à nossa metodologia, nos foi possível modular todos os interesses associados aos desafios do NextLap para criar benefícios reais ao ambiente e ao negócio dos nossos clientes e parceiros”.

De destacar que, anualmente, em Portugal são geradas em média 80 mil toneladas de pneus em fim de vida, sendo encaminhadas para reciclagem cerca de 60% e para produção energética os restantes 40%. Segundo um estudo promovido pela Valorpneu sobre o impacto da gestão de pneus usados em Portugal, por cada tonelada de pneus recuperados, é evitada a emissão de 1,3 toneladas de CO2 (emissões de gases com efeito estufa) e poupadas 37283 MJ de energia, contribuindo com uma redução significativa para os riscos ambientais. O sistema evita cerca de 45 milhões de euros de importações e contribui com cerca de 78 milhões de euros para o PIB nacional, gerando riqueza, bem como alavanca a criação de emprego com cerca de 970 empregos diretos e 1000 indiretos e induzidos.

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