Nova espécie de anfíbio com 150 milhões de anos descoberta na Lourinhã

Uma equipa internacional de investigadores identificou uma nova espécie de anfíbio do Jurássico Superior a partir de fósseis com cerca de 150 milhões de anos encontrados na região da Lourinhã. A espécie, batizada Nabia civiscientrix, foi descrita por cientistas da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisboa (NOVA FCT) e do Museu da Lourinhã, em colaboração com instituições de Espanha e do Reino Unido.

A descoberta resulta da análise de mais de 400 ossos fósseis recolhidos na Formação da Lourinhã, muitos deles através de um projeto de Ciência Cidadã que envolveu a comunidade local e visitantes do Parque dos Dinossauros da Lourinhã e do Museu da Lourinhã. O estudo foi publicado no Journal of Systematic Palaeontology.

“Alexandre Guillaume encontrou muitos deles, com a ajuda do projeto Citizen Science que realizou no Parque dos Dinossauros de Lourinhã e no Museu da Lourinhã”, explica Miguel Moreno-Azanza, professor da Universidade de Saragoça. Segundo o investigador, embora alguns ossos fossem facilmente reconhecíveis, como os frontais ou as mandíbulas, o verdadeiro avanço surgiu quando foram identificados elementos raramente preservados. “Mais tarde, ele percebeu que tínhamos uma visão muito mais completa da anatomia com ossos raramente encontrados, como os quadrados ou os ilíacos”.

A investigação comparou ainda os fósseis da Lourinhã com material proveniente dos leitos de Guimarota, também em Portugal e da mesma idade geológica. “O material de Guimarota é conhecido há muito tempo”, explica Alexandre Guillaume, investigador da NOVA FCT. “Sabíamos que era uma nova espécie, que sempre foi considerada como tal por outros paleontólogos. Mas o nosso estudo anterior sobre a parte frontal desafiou a atribuição original ao género Celtedens. Por isso, tivemos de aprofundar a investigação.”

Essa análise mais aprofundada levou à descrição não só de uma nova espécie, mas também de um novo género. Nabia civiscientrix é atualmente o albanerpetontídeo mais antigo identificado na Península Ibérica e um dos mais antigos conhecidos a nível mundial. “Esta nova espécie destaca a herpetofauna presente na Lourinhã durante o Jurássico Superior, há 150 milhões de anos”, sublinha Alexandre Guillaume.

Embora a Lourinhã seja amplamente conhecida pelos seus dinossauros, como o Lourinhanosaurus, o Miragaia ou o Hesperonyx, esta descoberta revela uma diversidade menos visível de pequenos vertebrados que partilhavam o mesmo ecossistema. Entre eles estavam os albanerpetontídeos, um grupo extinto de lissanfíbios que se assemelhavam a pequenas salamandras, com menos de cinco centímetros de comprimento, língua balística semelhante à dos camaleões, pele seca e escamosa, garras queratinizadas e pálpebras.

Alguns dos fósseis mais bem preservados foram enviados para Londres, onde foram analisados através de microtomografia computorizada. Este processo permitiu criar modelos tridimensionais detalhados dos ossos, essenciais para rever a anatomia deste grupo enigmático. “Até recentemente, os estudos concentravam-se geralmente num conjunto limitado de ossos facilmente reconhecíveis”, lamenta Alexandre Guillaume, explicando que a falta de material completo dificultava comparações entre espécies.

Com base no novo material e na análise de espécimes de várias partes do mundo, os investigadores propuseram também um conjunto atualizado de características morfológicas que servirá de base para futuros estudos. “Convido todos a olharem mais atentamente para estes pequenos ossos, muitas vezes ignorados, para que possamos compreender melhor, em conjunto, o que eram estes pequenos anfíbios. Este é apenas o primeiro passo”, conclui o investigador.