“O Futuro tem V de Volta”: Sistema de Depósito e Reembolso arranca a 10 de abril com funcionamento de 2.500 máquinas em todo o país

Esta quarta-feira, 4 de março, foi oficialmente lançada a Volta, a marca do Sistema de Depósito e Reembolso (SDR) para embalagens de bebidas, que pretende recolher 90% das garrafas de plástico e latas até 2029, alinhando o país com os 18 Estados-Membros da União Europeia que já operam modelos semelhantes.

Sob a mensagem “O futuro tem V de Volta”, Leonardo Matias, Presidente do Conselho de Administração da SDR Portugal, confirmou que o sistema arranca oficialmente a 10 de abril, com 2.500 máquinas e 48 quiosques em todo o Portugal Continental e Regiões Autónomas, para dar resposta a um grande desafio: “estamos falar de 2,1 mil milhões de unidades por ano, num país com 10,7 milhões de habitantes e 29 milhões de turistas. É um projeto com uma complexidade poucas vezes vista em Portugal”.

Leonardo Martins e Lia Oliveira, SDR Portugal

A Volta marca também uma mudança estrutural no modelo de gestão de resíduos. “Marcamos, a partir de agora, a transição do modelo linear — produzir, consumir e descartar — para o modelo circular, onde cada embalagem mantém o seu valor e regressa ao ciclo produtivo”, afirmou ainda o responsável.

Além de contribuir para o cumprimento das metas ambientais, o sistema pretende reduzir o lixo nas ruas, praias e rios, diminuir o envio de resíduos para aterro (cerca de 3 milhões de toneladas por ano) e cortar emissões de carbono ao aumentar a incorporação de material reciclado e reduzir o uso de matéria-prima virgem.

“Transformar o resíduo num recurso. Aquilo que hoje é visto como lixo e descartável, afinal é dinheiro”, foi uma das frases mais marcantes da apresentação.

Uma mudança de comportamento nacional

A implementação do sistema implica uma alteração significativa de hábitos. Durante 30 anos, os portugueses habituaram-se a colocar estas embalagens no ecoponto amarelo. Agora, terão de as guardar e devolver. “Estamos a falar de mudar a nossa atitude dos últimos 30 anos”, reconheceu a direção da SDR Portugal. Por isso, a comunicação será massiva e faseada.

A primeira fase é informativa e pedagógica, com lançamento do site oficial e presença nas redes sociais. A partir do dia 10 de abril inicia-se a fase de experimentação, incentivando os cidadãos a testarem as máquinas. A partir de 10 de agosto, quando apenas existirão embalagens com o símbolo Volta, começa a consolidação do hábito.

“Temos que ajudar os cidadãos a fazer essa primeira experiência, uma experiência positiva, para que voltem e repitam”, disse Lia Oliveira, Diretora de Marketing e Comunicação da SDR Portugal, que acrescentou que a campanha será transversal a idades e contextos: “temos que impactar todos e pensar em soluções para todos, porque só assim é possível”.

Como vai funcionar?

Máquina Volta

O sistema é simples: ao comprar uma bebida abrangida pela Volta (até 3 litros), o consumidor paga mais 10 cêntimos por embalagem. Após o consumo, pode devolvê-la num dos mais de 2.500 pontos de recolha previstos em todo o país e recebe esse valor de volta.

O reembolso pode ser feito através de voucher convertido em dinheiro, desconto na loja, crédito digital ou doação a uma instituição. “Este é um tema de que nos orgulhamos muito. Desde o dia 1, o cidadão poderá optar por doar o valor do depósito”, destacou a equipa da SDR Portugal.

Para ser aceite, a embalagem deve ter o símbolo Volta, estar intacta (não espalmada), sem líquidos, com tampa no caso das garrafas, e com código de barras legível.

Após a devolução, as embalagens são inutilizadas na própria máquina, recolhidas por logística dedicada e encaminhadas para centros de contagem e triagem na Grande Lisboa e no Grande Porto, antes de seguirem para reciclagem. A vantagem do circuito exclusivo é a elevada qualidade do material recuperado, permitindo que se volte a integrar no circuito alimentar: “uma garrafa pode voltar a ser uma garrafa. Uma lata pode voltar a ser uma lata”, resumiu Leonardo Matias.

Já as embalagens Volta que sejam adquiridas em cafés, restaurantes, bares, discotecas, unidades hoteleiras e outros estabelecimentos similares podem ainda ser devolvidas nestes locais, mediante apresentação do comprovativo de compra, se solicitado. Estes estabelecimentos só são obrigados a receber as embalagens de bebidas adquiridas e consumidas nos respetivos espaços.

Até 9 de agosto, haverá um período de transição, em que coexistirão no mercado embalagens de bebidas de uso único com e sem símbolo volta. Só às que apresentam o símbolo Volta será cobrado o valor de depósito e apenas estas serão aceites para devolução. Pelo contrário, se a embalagem não estiver identificada com o símbolo volta, não será cobrado o valor de depósito, e, nessa situação, também não será aceite nos Pontos de Recolha – devendo ser reencaminhada pelo consumidor, como até aqui, para o ecoponto amarelo.

A partir de dia 10 de agosto, todas as embalagens de bebidas de uso único inferiores a 3 litros passarão a ter o símbolo Volta e a integrar este Sistema de Depósito e Reembolso.

Uma aliança entre indústria e retalho

O SDR resulta de uma parceria inédita entre produtores e distribuidores de bebidas em Portugal, formalizada após a Lei n.º 69/2018 e reforçada pelas diretivas europeias sobre plásticos de uso único e resíduos de embalagens. “Só com a colaboração de todas estas entidades será possível implementar com sucesso o sistema no nosso país”, afirmou ainda Lia Oliveira.

A ambição é clara: construir “o melhor SDR do mundo” e mobilizar o país para um compromisso coletivo com a sustentabilidade.

Maria da Graça Carvalho e João Manuel Esteves

Ministra do Ambiente destaca valor do investimento privado

Maria da Graça Carvalho marcou presença na apresentação oficial da Volta, ao lado do Secretário de Estado do Ambiente, João Manuel Esteves, e destacou o facto do investimento do SDR ser inteiramente privado, representando 150 milhões de euros.

O Governo reconhece que a área dos resíduos é atualmente o maior desafio da política ambiental nacional, acima da descarbonização, da água ou da biodiversidade. Portugal continua a produzir elevados volumes de resíduos e a reciclar menos do que o desejável, mantendo níveis significativos de deposição em aterro.

Assim, o SDR é encarado pelo Executivo como um potencial ponto de viragem, ao exigir uma participação ativa dos consumidores, que passam a devolver as embalagens em troca do reembolso do valor pago no momento da compra.