Por João Mestre, Diretor de Sustentabilidade do Grupo Fidelidade
Há muito que as alterações climáticas deixaram de ser um risco abstrato reservado a relatórios científicos ou projeções de longo prazo. São hoje uma realidade tangível, que se manifesta em tempestades mais intensas, cheias mais frequentes e incêndios mais devastadores. Estes fenómenos climáticos estão a alterar a forma como avaliamos o risco e como protegemos pessoas, empresas e territórios. Para o setor segurador, esta transformação não é apenas um desafio: é também uma responsabilidade.
As seguradoras estão na linha da frente para a compreensão do risco. A nossa atividade assenta, por natureza, na capacidade de antecipar eventos adversos e proteger quem é afetado pelas suas consequências. Num contexto de alterações climáticas aceleradas, o papel do setor ganha uma nova dimensão: já não basta reagir. É preciso antecipar tendências, promover a prevenção e contribuir para soluções que reforcem a resiliência das comunidades.
Dar resposta a estes desafios exige uma atuação clara em duas dimensões complementares: mitigação e adaptação. A mitigação está associada à redução das emissões e ao contributo para a transição para uma economia de baixo carbono, enquanto a adaptação se centra na preparação de pessoas, empresas e territórios para lidar com impactos que já são inevitáveis.
Na Fidelidade, este compromisso traduz-se numa estratégia concreta. No domínio da mitigação, o Grupo estabeleceu um Transition Plan com metas de descarbonização que abrangem as suas operações, investimentos e subscrição. Paralelamente, temos vindo a promover iniciativas que contribuem para a captura de carbono e para a valorização do território, como o Fundo Florestal “Florestas de Portugal”, que aposta na gestão sustentável da floresta.
Responder às alterações climáticas exige também aprofundar o conhecimento sobre a evolução do risco. No domínio da adaptação, criámos o Impact Center for Climate Change (ICCC), uma iniciativa dedicada ao estudo científico dos riscos climáticos e ao desenvolvimento de conhecimento que possa apoiar empresas, decisores públicos e a sociedade na preparação para estes desafios.
Importa ainda reconhecer que os impactos das alterações climáticas não se limitam aos fenómenos meteorológicos extremos ou aos danos em infraestruturas. As mudanças no clima têm também consequências cada vez mais evidentes na saúde das populações, desde o agravamento de doenças respiratórias e cardiovasculares até ao aumento de riscos associados a ondas de calor ou à propagação de determinadas doenças. Consciente desta realidade, a Multicare, empresa do Grupo Fidelidade, está a aprofundar o estudo das implicações das alterações climáticas na saúde, um tema particularmente relevante para um Grupo com presença em diferentes geografias e contextos climáticos.
Num mundo em rápida transformação, o papel das seguradoras vai, assim, muito além da compensação financeira após um evento adverso. O setor tem também a responsabilidade de antecipar riscos, promover a prevenção e incentivar comportamentos e soluções que reforcem a resiliência das comunidades. Através da análise de risco, da inovação em produtos e serviços e do investimento em conhecimento científico, as seguradoras podem contribuir ativamente para reduzir vulnerabilidades e apoiar uma adaptação mais eficaz da sociedade aos desafios climáticos.
A urgência desta mudança foi bem ilustrada por Ban Ki-moon, ex-Secretário-Geral das Nações Unidas, uma das vozes mais persistentes no apelo à ação climática global: “There is no Plan B because there is no Planet B”.
Não há segunda hipótese, não há caminho alternativo, não há possibilidade de adiar indefinidamente. Antecipar os riscos e agir hoje é a melhor forma de proteger o amanhã.
*Este artigo foi publicado na edição 116 da Ambiente Magazine








































