Por Susana C. Gaspar, codiretora artística da 15.ª edição do Festival Periferias
A natureza não é um cenário estático, embora por vezes pareça uma moldura tranquila para a vida humana. Esta imagem confortável seduz-nos porque alimenta a convicção de que o mundo natural está sob o nosso controlo. No entanto, a realidade atual desmente essa ilusão. Tempestades severas, ondas de calor e chuvas intensas têm marcado os últimos anos, impulsionadas pelo agravamento das alterações climáticas. De facto, nas últimas semanas, Portugal foi um dos países onde o impacto da sociedade na natureza se manifestou com uma intensidade inédita.
O conjunto de fenómenos meteorológicos extremos que atingiu o território nacional no início deste ano provocou inundações generalizadas, dezenas de milhares de ocorrências e elevados prejuízos materiais em diversas regiões. Aliás, janeiro de 2026 foi o segundo mês mais chuvoso desde 2000. Porém, é fundamental perceber que estes episódios não são exceções isoladas. Em Portugal, têm aumentado eventos climáticos fora do padrão histórico, como as duas ondas de calor registadas em junho de 2025, que bateram recordes de temperatura média e máxima em várias estações meteorológicas do continente, com meses significativamente mais quentes e secos do que o normal.
Perante este contexto, cada vez mais artistas têm se dedicado a pensar sobre o lugar da arte face a estes fenómenos. A criação artística possui a capacidade simbólica de traduzir fenómenos complexos em experiências que despertam emoções e memórias. Registos artísticos, sejam visuais, sonoros ou performativos, podem contribuir para uma compreensão mais humana das transformações em curso. A arte não é, por isso, um “luxo dispensável” face à urgência ambiental, mas sim um caminho fundamental como estratégia de ação.
Um exemplo elucidativo são as iniciativas do Climate Change Theatre Action, que são apresentadas em diferentes países de todos os continentes. Em Portugal, as Leituras Encenadas – Ação Teatral Pelo Clima, promovidas pela Companhia de Teatro de Sintra – Chão de Oliva, aproximam dramaturgos e comunidades para refletir sobre esperança, responsabilidade e ação no que toca à crise climática.
Além de consciencializar, a expressão artística pode também provocar desconforto. Pode revelar incoerências entre o discurso político e a ação, denunciar medidas insuficientes ou questionar modelos de desenvolvimento que continuam a ignorar os limites ecológicos. Quando uma obra expõe a fragilidade de uma cidade submersa ou a desolação de uma paisagem destruída, pode despertar-nos da indiferença e obrigar-nos a refletir e agir sobre o que realmente importa.
O papel da arte vai muito além do domínio da contemplação. Quando criadores colaboram com cientistas, educadores e cidadãos, estabelecem pontes entre conhecimento técnico e experiência quotidiana, e dessa articulação nasce uma compreensão mais profunda dos problemas climáticos e uma maior predisposição para agir de forma informada.
Os eventos extremos que Portugal vivenciou no início deste ano constatam que o clima já se tornou protagonista nas nossas vidas. Ignorar esta evidência seria um ato de irresponsabilidade coletiva, e embora a arte não possa resolver, por si só, a crise climática, amplia a nossa capacidade para a compreender e de atuar. Ajuda-nos a encarar aquilo que preferimos evitar e a reconhecer que o futuro do território depende das escolhas que fazemos no presente. A natureza não é um mero cenário, nem a arte um mero adorno: ambas nos despertam.







































