“Os serviços que a biosfera nos presta estão a chegar a um ponto de exaustão”

by Cristiana Macedo | 24 Novembro 2021 16:30

“Quando falamos de crise em matéria de recursos, sejam eles materiais ou de mão-de-obra, [significa que] não existe recurso que seja de prescindir quando falamos numa economia que se desenvolve a nível global. E, portanto, tão escasso é o ouro, a platina ou o lítio, todos eles materiais essenciais na indústria da eletrónica, por exemplo, como é a área da construção ou a borracha”. Este foi o ponto de partida para Inês Costa, secretária de Estado do Ambiente, deixar um alerta: “Hoje, estamos a braços com uma crise conjuntural na área das energias e dos materiais, que temo bem que possa, rapidamente, se desenvolver por uma crise estrutural, se não formos capazes de repensar o modelo de produção e consumo – modelo desenvolvimento económico – sobre o qual assentou o desenvolvimento das nossas sociedades nos últimos 100 anos”.

A governante, que falou esta terça-feira, dia 23 de novembro, na sessão de abertura do 19.º Encontro da Valorpneu, foi clara: “Os serviços que a biosfera nos presta no modo gratuito – sol, água, ar, biodiversidade, ou materiais – estão a chegar a um ponto de exaustão”. E, face a esta realidade, Inês Costa é perentória: “Não é possível repensar um arranque da economia ao nível daquilo que tradicionalmente pensamos ser necessário, sobretudo, alicerçado em incentivos ao consumo: os nossos sistemas – natural e social – já não conseguem responder da mesma forma como responderam no passado”.

Para Inês Costa, entidades como a Valorpneu que estão na “charneira” entre quem produz, usa e descarta, tem necessariamente que se transformar em algo mais do que gestoras de fluxos financeiros ou de materiais: “O investimento em inovação, no qual a Valorpneu foi pioneira, tem que evoluir e têm que se dar mais passos nesta área, nomeadamente do lado de quem produz, de quem usa e de quem pode reutilizar ou reciclar os materiais associados ao produto”. E, reconhecendo que se trata de um trabalho de “inversão de paradigma” para muitas entidades gestoras, uma vez que foram criadas num outro contexto, onde havia produto e o seu crescimento seria expectável, a secretária de Estado do Ambiente afirma que “reinventar essa posição” é um caminho que já outras entidades gestoras europeias estão a tomar. No caso dos pneus, começam a surgir algumas indicações para onde a área pode evoluir, sobretudo, “quando pensamos que é necessário avançar para uma economia mais circular e regenerativa”, acrescenta.

Daquilo que se tem assistido, Inês Costa destaca que, primeiramente, as entidades gestoras tomam a opção de fazer um “levantamento exaustivo das operações de valorização”, à qual se junta a “análise dos perfis de colaboração entre todos os intervenientes no sistema de valor”, no sentido de procurarem soluções em conjunto. E é precisamente nesta última que começa surgir um padrão de dificuldades: “Apesar dos esforços de investimento em I&D, estes não são suficientes para mudar o paradigma no sistema de valor e procurar um verdadeiro pensamento de ciclo de vida de fecho destes materiais”. A isto, acresce a “preocupação dos cidadãos” sobre um potencial de fonte de poluição gerada por estes materiais, como os poluentes químicos ou a libertação de microplásticos.

Partindo deste ponto, Inês Costa refere que se verifica a integração dos princípios de economia circular em todo o sistema, fomentando a retenção de valor e não, apenas, a reciclagem. E aqui têm surgido áreas fundamentais, como o I&D no sentido de assegurar a suficiência e uma retenção de valor dos produtos, tornando-os mais duráveis, reduzindo a quantidade dos mesmos no mercado: “Este investimento deve estar associado a modelos de negócios que se baseiam na durabilidade do produtos e na quantidade que é vendida”.  Outra área passa por “estimular a ligação efetiva e a colaboração entre produtores e recicladores”, além da “melhoria e monitorização constante do sistema”, para “ter uma visão futura do setor” e “novos tipos de metas”.

A secretária de Estado do Ambiente acredita que estas áreas podem ser uma “plataforma para repensar a organização” de forma a que não se veja uma entidade gestora de pneus em fim de vida, mas que seja ela própria um “farol de inovação circular” para estes tipos o de materiais que já enfrenta ameaças ao nível de escassez.

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