No âmbito da 11.ª Conferência Plenária do Conselho Local de Acompanhamento da Ação Climática do Município de Loulé, dedicada ao tema “O caminho de Loulé para a Neutralidade Carbónica”, Paula Teles, CEO da MPT – Mobilidade e Planeamento do Território, participou no painel dedicado à Mobilidade Urbana Sustentável no Município de Loulé, onde apresentou as principais linhas de reflexão associadas ao futuro Plano de Mobilidade Urbana Sustentável do concelho.
Numa intervenção de caráter técnico, mas marcada por uma forte dimensão humana e estratégica, Paula Teles começou por sublinhar que um plano de mobilidade urbana sustentável é, acima de tudo, “um documento técnico de apoio à decisão política”. A responsável defendeu que, depois da habitação, a mobilidade deve ser entendida como um direito essencial, por estar diretamente ligada ao acesso ao trabalho, à família, à comunidade e à vida quotidiana.
“Imaginamos alguém ficar sem mobilidade? Como chega a casa, ao trabalho, à família ou à comunidade?”, questionou, sublinhando que a mobilidade não se resume ao modo de transporte, mas também à acessibilidade e à capacidade de qualquer pessoa se deslocar no território.
A descarbonização foi apontada como um dos maiores desafios do setor, numa altura em que cerca de um terço das emissões para a atmosfera está associado à mobilidade e aos transportes. Para Paula Teles, este dado reforça a urgência de planear de forma integrada, sobretudo em municípios que, como Loulé, têm vindo a assumir um papel relevante na ação climática local.
A CEO da MPT recordou que Loulé foi pioneiro ao aprovar, em 2022, o seu Plano Municipal de Ação Climática, integrando adaptação e mitigação, e considerou que o novo plano de mobilidade deve alinhar-se com essa estratégia, absorvendo também os instrumentos já desenvolvidos em áreas como Vilamoura, Quarteira e o restante litoral.
Durante a intervenção, Paula Teles defendeu uma visão da mobilidade que vai além do tráfego automóvel. “A mobilidade não é só um assunto de carros. É uma forma de termos oportunidades de nos encontrarmos nas ruas, nas praças e de convivermos”, afirmou, destacando que a cidade deve voltar a ser pensada para as pessoas, para o comércio tradicional, para a vivência urbana e para a criação de espaços públicos de qualidade.
Nesse contexto, alertou para os impactos de décadas de planeamento centrado no automóvel e na criação de áreas monofuncionais, defendendo a necessidade de cidades mais próximas, multifuncionais e caminháveis. Loulé, afirmou, tem condições para reforçar os modos suaves e afirmar-se como uma “cidade de 15 minutos”, onde os serviços, o comércio, os equipamentos e os espaços verdes estejam mais próximos dos cidadãos.
A mobilidade escolar foi outro dos temas em destaque. Paula Teles alertou para uma geração que cresceu habituada a deslocar-se no banco de trás do carro dos pais, mesmo em percursos curtos, perdendo autonomia, contacto com a rua e hábitos de mobilidade ativa. Por isso, defendeu a criação de percursos mais seguros, ruas mais silenciosas, passeios mais largos, árvores, bancos, esplanadas e espaços públicos que devolvam confiança às famílias e permitam às crianças caminhar para a escola.
A acessibilidade universal assumiu também um papel central na intervenção. Para Paula Teles, “a mobilidade não pode deixar ninguém para trás”, seja uma criança, uma pessoa idosa ou alguém com mobilidade condicionada. O território, defendeu, deve ser desenhado para todos, garantindo liberdade de deslocação independentemente da idade ou da condição física.
A responsável explicou ainda que o Plano de Mobilidade Urbana Sustentável de Loulé se encontra na primeira fase, dedicada ao diagnóstico, seguindo-se a definição da estratégia e, posteriormente, das ações concretas. Entre os dados já identificados, destacou o aumento da taxa de motorização entre 2011 e 2026, a redução da caminhabilidade e a perda de peso dos transportes públicos.
No transporte coletivo, Paula Teles apontou alguns desafios relevantes, nomeadamente o facto de 24% dos residentes não terem ligação direta ao centro do concelho, a oferta reduzida à noite e aos fins de semana e a fraca articulação entre Quarteira e Vilamoura. Aumentar a atratividade, a frequência, a integração tarifária e reduzir a dependência automóvel serão, por isso, prioridades a considerar.
A intermodalidade foi apresentada como uma peça decisiva para o futuro. Segundo Paula Teles, “é no nó que se decide tudo”, já que a qualidade dos pontos de ligação entre modos de transporte pode determinar se os cidadãos deixam ou não o automóvel para utilizar transporte público, bicicleta ou deslocações a pé. Neste domínio, lembrou que Loulé/Faro integra um dos nós relevantes definidos no âmbito das políticas europeias, o que poderá abrir caminho a financiamento para projetos ligados à descarbonização, transporte público e interfaces intermodais.
O estacionamento, considerado um dos temas mais sensíveis da mobilidade urbana, também fará parte da reflexão do plano. Paula Teles lembrou que uma parte significativa do tráfego automóvel nas cidades está associada à procura de estacionamento, defendendo melhor informação ao cidadão, fiscalização e soluções específicas para residentes. Ao mesmo tempo, alertou para a necessidade de proteger os centros urbanos do tráfego de passagem.
O futuro, concluiu, terá de passar pela redução da pegada ecológica, pela criação de zonas de acesso condicionado automóvel, pelo reforço dos percursos pedonais, pela aposta nas ciclovias, pela redução da sinistralidade rodoviária e por uma visão supramunicipal dos transportes, capaz de articular Loulé, Faro e Olhão.
Paula Teles terminou a sua intervenção defendendo que os engenheiros, arquitetos, geógrafos e planeadores devem deixar de olhar para a mobilidade apenas como tráfego e passar a entendê-la como ecossistema, vida e habitat. “Os centros das cidades têm de ter vida. O principal das cidades são as ruas e, no campo da mobilidade, o principal objetivo é o peão”, afirmou.
Por Inês Gromicho, em Loulé








































