Portugal poderá necessitar de investir cerca de dois mil milhões de euros nas próximas décadas para implementar uma infraestrutura nacional de captura e armazenamento de carbono (CCS), considerada essencial para assegurar a descarbonização dos setores industriais mais difíceis de eletrificar ou substituir tecnologicamente.
A conclusão consta do relatório “Portugal’s Carbon Link – White Paper”, desenvolvido pela Associação Portuguesa de Cimento (ATIC) em colaboração com a Boston Consulting Group (BCG), que defende a CCS como solução estruturante para garantir a neutralidade carbónica da indústria pesada até 2040, num contexto de crescente pressão regulatória europeia.
O reforço do Sistema Europeu de Comércio de Licenças de Emissão (CELE), aliado ao aumento do preço do carbono e à redução progressiva das licenças disponíveis, está a agravar os custos para setores com emissões inevitáveis de CO₂, como o cimenteiro. Segundo o estudo, operar sem recurso à CCS poderá colocar em risco a viabilidade económica de várias unidades industriais nacionais a médio e longo prazo.
Embora reconheça que a implementação da captura e armazenamento de carbono poderá aumentar os custos de produção do cimento entre 60% e 80%, o impacto final nos custos da construção seria limitado, situando-se entre 2% e 4%.
A proposta prevê a criação de uma infraestrutura integrada que inclua cerca de 660 quilómetros de gasodutos em terra e 25 quilómetros offshore, ligando aproximadamente 20 emissores industriais a um local de armazenamento geológico na bacia sedimentar lusitânica.
O relatório estima uma capacidade inicial de armazenamento de 300 milhões de toneladas de CO₂, podendo a bacia lusitânica atingir um potencial total na ordem das três gigatoneladas — suficiente para sustentar a descarbonização industrial durante várias décadas.
O custo estimado da infraestrutura, a desenvolver entre 2027 e 2056, é de dois mil milhões de euros. O transporte e armazenamento deverão representar cerca de 25 euros por tonelada de CO₂, enquanto os custos de captura suportados pelas empresas poderão variar entre 80 e 110 euros por tonelada.
Impacto económico poderá atingir 14 mil milhões até 2065
Para além dos benefícios ambientais, o estudo aponta para um impacto económico direto e indireto de até 14 mil milhões de euros no Produto Interno Bruto até 2065, bem como para a criação de cerca de sete mil empregos diretos.
Os autores defendem que a infraestrutura poderá servir não apenas o setor cimenteiro, mas também outros emissores industriais, reforçando a posição de Portugal na futura economia europeia de baixo carbono.
Carlos Elavai, Managing Director & Partner da BCG em Lisboa, sublinha que “a indústria portuguesa, e em particular a cimenteira, precisa de assegurar uma solução viável de descarbonização até 2040 que garanta a sua competitividade num contexto regulatório cada vez mais exigente”.
Para viabilizar o investimento, o relatório recomenda a adoção de um modelo de Base de Ativos Regulatórios (BAR), que permita assegurar previsibilidade financeira através de tarifas reguladas e uma partilha equilibrada de riscos entre entidades públicas e privadas.
O plano de implementação estrutura-se em três fases principais: validação da viabilidade geológica e técnica; criação de grupos de trabalho multissetoriais e adaptação do quadro jurídico; e desenvolvimento faseado da infraestrutura, incluindo projetos-piloto de captura e injeção de CO₂.
Entre os principais riscos identificados estão a incerteza geológica, os desafios de financiamento, a harmonização regulatória e a aceitação social, sendo recomendada uma estratégia de comunicação transparente e o envolvimento das comunidades locais.
Segundo o relatório, Portugal deverá iniciar ainda este ano os trabalhos de validação geológica, enquadramento regulatório e mobilização de financiamento, numa corrida contra o tempo para garantir a resiliência industrial e cumprir as metas climáticas europeias.





































