Proteger para não perder: o papel dos jardins zoológicos na conservação da vida selvagem

Por Teresa Guedes, diretora do Zoo Santo Inácio

O ritmo das mudanças ambientais naturais aumentou dramaticamente nos últimos tempos. Ora são terramotos e tempestades, ora temperatura a subir e gelo a derreter, muitos têm sido os desafios climáticos a marcar a atualidade. Mas a verdade é que também a alteração provocada pelo homem sofreu acelerações, como a substituição de terrenos selvagens para urbanização ou o cultivo a um ritmo intensivo. O facto é só um e está à vista de todos: todas as causas remetem apenas a um fator: o Homem.

As principais causas de extinção são a degradação e a fragmentação dos habitats naturais. Isto é, a abertura de grandes áreas para implantação de pastagens ou agricultura intensiva, a urbanização, a poluição, os incêndios florestais, a indústria madeireira e mineira e, claro, a caça. Mas, o que acontece depois? Estes fatores reduzem os espaços disponíveis para as espécies e aumentam o isolamento entre as suas populações. A verdade é que, ao diminuir a diversidade genética, abre-se caminho, mais cedo ou mais tarde, à extinção.

Os dados recentes são, no mínimo, alarmantes. Segundo a UICN (União Internacional da Conservação da Natureza), das quase 172 mil espécies monitorizadas, mais de 48.600 encontram-se ameaçadas de extinção e, destas, quase 8 mil correm sério risco de desaparecer. Só em 2025, cerca de 44 espécies foram declaradas extintas, somando-se às 160 que desapareceram na década anterior. Entre os grupos mais ameaçados estão as cigarras (71%), os corais (44%), os anfíbios (41%) e os tubarões e raias (38%). São números que falam por si.

Em Portugal e na Europa, o cenário exige vigilância redobrada. Segundo a Quercus, na Europa, a subida do nível do mar poderá ser até 50% mais acentuada do que a média global. Cerca de 20% das zonas húmidas correm o risco de desaparecer até 2080, arrastando as espécies que delas dependem. Em 2025, arderam no mundo 386 milhões de hectares (2,9% da superfície terrestre). Embora a Europa represente apenas 3% do total, a Península Ibérica foi responsável por quase dois terços da área ardida na União Europeia, com 270 mil hectares em Portugal e 452 mil em Espanha, segundo a Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais. E, como se não bastasse, os ecossistemas mediterrânicos estão entre os mais vulneráveis a uma subida de 2 a 5 °C.

Neste contexto, assinalando o Dia Mundial da Vida Selvagem a 3 de março, os parques zoológicos afirmam-se como agentes ativos para que as espécies não se apaguem nos abismos da extinção. A missão de Conservação é cumprida em várias frentes. Primeiramente, a reprodução, garantindo linhagens genéticas puras e cruzamentos não consanguíneos. Através da EAZA (Associação Europeia de Zoos e Aquários), ocorre a partilha gratuita de animais e a gestão do Programa Europeu de Espécies Ameaçadas (EEP), onde coordenadores reúnem “pares” ou formam bachelor groups (grupos do mesmo sexo) para manutenção da variabilidade genética. É um trabalho técnico, rigoroso e absolutamente essencial.

Há ainda o esforço de Conservação através da Investigação e do aumento de conhecimento sobre habitats e adaptações no backstage dos Zoos. Em 2026, o Zoo Santo Inácio dará um passo vital para a preservação de uma espécie autóctone e endémica da Ilha das Desertas, na Madeira – a Tarântula das Desertas. Com o acolhimento de mais de uma centena destes aracnídeos, o Zoo irá monitorizar, reproduzir e investigar esta espécie portuguesa que esteve bastante ameaçada. O projeto contará com estagiários dedicados ao estudo deste animal, fornecendo conhecimento para que as Tarântulas das Desertas vinguem.

No fundo, toda a vida selvagem está em risco – da pequena formiga à gigante sequoia. E convém não esquecer que se não preservarmos a vida selvagem, a nossa espécie também irá extinguir-se. Ficaremos sem ar para respirar, sem calor para nos aquecer, sem animais e vegetais para nos alimentar. Proteger a biodiversidade não é uma opção simbólica, é já uma questão de sobrevivência.

Este artigo foi escrito no âmbito do Dia Mundial da Vida Selvagem (3 de março).