rePLANT surge para aumentar a resiliência da floresta portuguesa

rePLANT surge para aumentar a resiliência da floresta portuguesa

Numa altura em que é cada vez mais urgente encontrar modelos de desenvolvimento sustentável, o rePLANt surge como sendo a “melhor oportunidade” para redobrar a atenção que é dada à floresta e aos seus agentes. Este projeto nasce, por isso, da necessidade de responder aos desafios da valorização e defesa da floresta, contribuindo para o aumento da biodiversidade e da resiliência da floresta portuguesa. Na prática, concretiza-se através de “novas abordagens e novas tecnologias” e fá-lo uma forma intergeracional, inovadora e multidisciplinar. Quem o diz é Carlos Fonseca, diretor científico e tecnológico do ForestWISE (Laboratório Colaborativo para Gestão Integrada da Floresta e do Fogo), numa entrevista à Ambiente Magazine.

São 20 as entidades do setor florestal que colaboram no projeto: “Todas têm um papel ativo e muito importante nesta colaboração, pois sem elas seria impossível concretizar e implementar as estratégias colaborativas que propomos e que darão origem a novos processos, produtos e serviços, dentro de cada uma das Linhas de Atuação do projeto”. A primeira é, precisamente, a “Gestão da Floresta e do Fogo” e é liderada pela Sonae Arauco Portugal e pelo Instituto Superior de Agronomia. Ambas as entidades, serão responsáveis pela “investigação de espécies florestais mais produtivas e mais adaptadas às alterações climáticas e modelos silvícolas para florestas mais resilientes”, pelo “desenvolvimento de dados de deteção remota de baixo-custo e alta qualidade para planeamento e gestão florestal” e pela “criação condições para a utilização de novas tecnologias para inventário florestal expedito”. A segunda linha, corresponde à “Gestão do Risco” e é liderada pela REN e pela Universidade de Coimbra. Aqui, estão incluídas as “Estratégias inovadoras para utilização de infraestruturas existentes para monitorização da floresta e apoio à decisão em tempo real para proteção de infraestruturas críticas em caso de catástrofe” e as “Estratégias pró-ativas para a gestão de combustível”. Já a terceira linha foca-se na “Economia Circular e Cadeias de Valor” e é liderada pela The Navigator Company e pelo ForestWISE: “Nesta linha de atuação será desenvolvida a exploração e logística florestal sustentável para uma futura economia circular e a mecanização, automatização e robotização de operações florestais”, refere.

Carlos Fonseca

Tratando-se de “projeto de interesse nacional” que junta várias entidades do setor florestal, desde empresas líderes do setor a entidades de Investigação & Inovação (I&I), Carlos Fonseca não tem dúvidas de que o rePLANT vai ter impacto em todo o ecossistema produtivo e empresarial do setor florestal: “Vai melhorar a segurança das populações que vivem em espaços florestais, os sistemas de prevenção e combate aos incêndios, vai reduzir as ameaças à biodiversidade, aumentar a resiliência da floresta e das infraestruturas e a competitividade do setor”. Neste projeto, tal com explica o responsável, serão introduzidos “produtos e serviços inovadores no setor”, que terão um “impacto positivo em toda a cadeia”, nomeadamente, nos “prestadores de serviços e nos produtores florestais”. Será ainda “desenvolvida investigação em espécies mais adaptadas às alterações climáticas” e “novos modelos de gestão florestal sustentável para as principais espécies florestais portuguesas”, acrescenta.

No passado dia 1 de julho decorreram as “I Jornadas Técnicas do rePLANt” nas quais foi possível fazer um ponto de situação e apresentar os primeiros resultados do projeto. De acordo com Carlos Fonseca, no que diz respeito à “Gestão da Floresta e do Fogo”, foi feita uma “primeira abordagem do mapa de ocupação florestal recorrendo a imagens de satélite em tempo-real” e, relativamente às “novas tecnologias para inventário florestal expedito”, foram apresentados os “resultados da análise às aplicações em análise”. Na linha da “Gestão do Risco”, além da apresentação de um “simulador de propagação do fogo na plataforma de apoio à decisão e proteção das infraestruturas da REN”, foi feito um ponto de situação relativamente à “interface para registo de ocorrências de fogo florestal”. Já na linha que trabalha a “Economia Circular e Cadeias de Valor” foi apresentado o “desenvolvimento de equipamentos inovadores para algumas operações florestais, mais adaptadas, eficientes e com menos impactos ambientais”, bem como a “incorporação de tecnologias para recolher dados das máquinas de corte e rechega e, posteriormente, para analisar e partilhar indicadores para uma exploração florestal sustentável”, sucinta.

Explorar novas tecnologias e metodologias para plantar a floresta

O projeto que arrancou em 2020 já começa assim dar frutos e o balanço é extremamente positivo: “Por exemplo, sabemos que aplicando estas novas tecnologias para o conhecimento da floresta, podemos recolher informação e avaliar o estado atual das florestas. Também sabemos que o método convencional de inventário florestal expedito apresenta custos e requer equipamento especializado e conhecimentos técnicos, mas que podemos recorrer (e estamos a testar) a aplicações para telemóvel, acessíveis a qualquer pessoa e que permitem fazer o inventário florestal de uma forma simples e com menores custos”. Mas, há mais: “Sabemos que o simulador de propagação do fogo na plataforma de apoio à decisão e proteção das infraestruturas da REN que estamos a estudar vai permitir uma maior resiliência da floresta e proteger estas mesmas infraestruturas, face ao risco de incêndio florestal”. Paralelamente, e perante a “constatação de que em Portugal os solos ocupados pela floresta não reúnem boas condições para as árvores”, está a ser testada uma “alfaia de mobilização conservativa do solo” que vai permitir a “conservação da matéria orgânica e a retenção de água, favorecendo a infiltração desta no solo”, traduzindo-se numa “maior eficiência e segurança”. Após um ano de projeto é ainda possível concluir que é necessária mais informação sobre as operações de exploração florestal na frente de trabalho: “Será essencial explorar novas tecnologias e metodologias para plantar a floresta, aliando o respeito ambiental à inovação, caminhando para o conceito de Floresta 4.0”, precisa.

Com a duração de três anos, o projeto foi apresentado publicamente no mês de março deste ano. Mesmo com o fim previsto para 2023, Carlos Fonseca está confiante de que os impactos do rePLANT irão muito para além desta data: “Estamos igualmente convictos que este poderá ter sido um primeiro projeto e que haverá a necessidade de dar continuidade nas diferentes linhas de atuação”.

O rePLANt conta com um investimento de 5,6 milhões de euros, sendo apoiado em 3,3 milhões de euros pelo Compete/Portugal 2020, através do Programa Operacional Competitividade e Inovação (POCI) e o Programa Operacional Lisboa 2020.

 O que desejam para o futuro?

Trabalhamos para aumentar o conhecimento da nossa floresta, a gestão florestal sustentável, a competitividade e inovação do setor florestal português, de modo a reduzir-se o impacto dos grandes incêndios rurais. O setor florestal abrange atualmente mais de 24 mil empresas, é responsável por mais de 100 mil empregos e representa cerca de 10% das exportações do país, números estes que podem aumentar. É por esta razão que devemos dedicar mais atenção a este setor, trazendo uma nova perspetiva sobre a gestão integrada da floresta e do fogo, cimentada no conhecimento científico e tecnológico, através da introdução de novos equipamentos mais eficientes e inteligentes para a floresta, contribuindo para a sua sustentabilidade ambiental, social e económica.

As 20 as entidades que colaboram no projeto são: o ForestWISE CoLAB, a The Navigator Company, a REN, a Sonae Arauco, a Altri Florestal, a Amorim Florestal, a DS Smith, a E-Redes, o Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC), a Universidade de Coimbra, o Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa, a Whereness, a EDP Labelec, a Trigger Systems, a Frazivel, a Tesselo, a Florecha, o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.

Cristiana Macedo