Portugal está a atravessar uma fase decisiva da sua transição energética, marcada pela rápida expansão das energias renováveis, pela redução estrutural do papel do gás natural e por desafios crescentes na adaptação das redes elétricas e dos mercados energéticos. As conclusões foram apresentadas no âmbito da revisão da Política Energética de Portugal, apresentada na última sexta-feira, em Lisboa, pela Agência Internacional de Energia.
Segundo a análise apresentada, o sistema elétrico português já sofreu uma transformação mais rápida do que o previsto, com a redução acentuada da utilização das centrais de ciclo combinado a gás. Estas unidades estão a operar menos de 3.000 horas por ano, um nível que era apenas esperado para meados da década de 2030.
Apesar de o gás continuar a desempenhar um papel essencial na estabilidade e flexibilidade do sistema, a sua utilização está a diminuir rapidamente, levantando preocupações sobre a capacidade do sistema elétrico em manter esses serviços sem alternativas já plenamente operacionais. Entre essas alternativas estão o armazenamento de energia, a gestão da procura, as interligações internacionais e soluções hidroelétricas.
A revisão alerta que existe o risco de o gás sair do sistema antes de existir substituição suficiente, o que pode afetar não só o setor elétrico, mas também a indústria, que reduziu significativamente a sua procura.
O relatório sublinha também que a transição energética exige uma abordagem integrada entre o crescimento das renováveis e o declínio do gás. A expansão da produção eólica e solar está a ocorrer em paralelo com uma pressão crescente sobre as infraestruturas elétricas.
Atualmente, existem cerca de 45 GW em pedidos de ligação à rede elétrica, dos quais 10 GW já foram atribuídos. As redes de transmissão precisam de integrar energia renovável terrestre e offshore, além de gerir fluxos elétricos complexos entre regiões e com Espanha. Ao mesmo tempo, as redes de distribuição enfrentam um aumento da procura devido à eletrificação dos transportes, bombas de calor e geração descentralizada.
A coordenação entre operadores de transmissão e distribuição foi destacada como essencial para garantir estabilidade e eficiência.
Nova realidade das redes elétricas e necessidade de investimento antecipado
O sistema elétrico português mudou profundamente na última década. Em 2015, era dominado por carvão, gás e hidroeletricidade convencional. Em 2025, o carvão desapareceu do sistema e a energia solar passou a desempenhar um papel central, com picos de produção ao meio-dia e maior integração com armazenamento hidroelétrico.
No entanto, as redes atuais não foram desenhadas para esta realidade mais descentralizada e variável. Os investimentos tradicionais, feitos de forma reativa, já não são considerados adequados ao ritmo da transição.
A revisão defende investimentos proativos e antecipatórios, incluindo o reforço das redes de transmissão para integrar energia eólica offshore e o aumento da capacidade de distribuição para suportar veículos elétricos, autoconsumo solar e eletrificação do aquecimento.
A crescente presença de energias renováveis está a provocar maior volatilidade nos preços da eletricidade, com períodos de preços próximos de zero quando há excesso de produção solar e eólica, e picos superiores a 100 euros por megawatt-hora em momentos de escassez.
Esta situação revela, segundo o relatório, uma insuficiência de recursos de flexibilidade no sistema. O armazenamento de energia, especialmente baterias, surge como solução central, assim como a participação de agregadores de procura e carregamento inteligente de veículos elétricos.
Embora Portugal esteja a preparar uma estratégia de armazenamento de energia para 25 anos, é sublinhada a necessidade de metas concretas e mecanismos de mercado que tornem estes investimentos viáveis.
Risco para a segurança energética até 2035
As projeções para 2035 levantam preocupações significativas. O cenário apresentado não deve ser interpretado como previsão, mas como alerta: sem novos investimentos, a saída de capacidade a gás pode criar uma lacuna de flexibilidade e segurança no sistema elétrico.
À medida que as centrais a gás reduzem operação, as suas receitas deixam de ser suficientes para garantir viabilidade económica, aumentando o risco de encerramentos não planeados.
O relatório defende melhorias nos sinais de preço de longo prazo, incluindo mercados futuros mais líquidos, contratos de compra de energia e leilões mais transparentes. Também recomenda reformas no desenho do mercado para garantir que os serviços de equilíbrio e flexibilidade refletem as necessidades reais do sistema.
Na fase final da intervenção, destacaram-se medidas já em curso para apoiar a transição energética de forma socialmente justa. Entre elas está o programa E-LAR, que apoia a eletrificação de consumos domésticos, e diversos programas do PRR orientados para o combate à pobreza energética.
Está também prevista uma Estratégia Nacional de Literacia Energética, em consulta pública, que visa melhorar a capacidade dos cidadãos de tomarem decisões informadas sobre consumo e eficiência energética.
A Tarifa Social de Energia foi igualmente destacada como instrumento essencial de apoio às famílias vulneráveis, apesar de ainda necessitar de melhorias.
Assim, as prioridades definidas passam por reforçar a coordenação do sistema energético, acelerar a eletrificação dos setores finais e garantir simultaneamente segurança energética e competitividade económica.
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