Apesar de ser um dos pilares fundamentais da vida na Terra, o solo continua a ser um recurso subvalorizado, tanto pela sociedade como por muitos sistemas agrícolas. Para Cristina Cruz, investigadora do cE3c – Center for Ecology, Evolution and Environmental Changes e do CHANGE – Global Change and Sustainability Institute, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, essa negligência explica-se, em grande parte, pela sua invisibilidade.
“A degradação do solo ocorre de forma lenta e silenciosa, ao contrário da água ou do ar, cuja poluição é mais imediata e perceptível”, explica. Esta característica tem contribuído para que, durante décadas, a agricultura tenha privilegiado a produtividade a curto prazo, muitas vezes à custa da saúde do solo.
Práticas como a mobilização intensiva, o uso excessivo de fertilizantes minerais e a simplificação dos sistemas agrícolas levaram à perda de matéria orgânica, biodiversidade e estrutura. A par disso, persiste uma visão limitada do solo como mero suporte físico, ignorando a sua complexidade enquanto ecossistema vivo.
É precisamente esta perspetiva que projetos como a Soil Academy procuram transformar. A iniciativa, financiada pela Fundação Calouste Gulbenkian, envolve agricultores no terreno com o objetivo de promover práticas regenerativas baseadas no conhecimento científico e na observação direta.
O reconhecimento do solo como um sistema vivo está no centro desta mudança de paradigma. Longe de ser apenas um reservatório de nutrientes, o solo é um ecossistema complexo, habitado por milhões de organismos que asseguram funções essenciais como a ciclagem de nutrientes, a retenção de água e a resiliência das culturas.
“Mais do que alimentar a planta, é fundamental alimentar o solo”, sublinha Cristina Cruz. Isso implica práticas como a incorporação de matéria orgânica, o uso de biofertilizantes, a diversificação de culturas e a manutenção de cobertos vegetais. A redução da mobilização do solo surge igualmente como uma medida-chave para preservar a sua estrutura e atividade biológica.
Esta abordagem torna-se ainda mais relevante num contexto de alterações climáticas. Solos saudáveis são mais capazes de reter água, resistir à erosão e enfrentar períodos de seca, fatores críticos num país com características mediterrânicas como Portugal.
Degradação crescente e impactos já visíveis
A degradação dos solos agrícolas resulta de múltiplos fatores acumulados ao longo do tempo. Entre os principais destacam-se a intensificação agrícola, a erosão, a compactação causada por maquinaria pesada, a salinização e a contaminação por agroquímicos.
Os efeitos já são evidentes. Ao nível da produção, verifica-se maior instabilidade nas colheitas, menor eficiência no uso de recursos e crescente dependência de inputs externos. No plano ambiental, destacam-se a perda de biodiversidade, a degradação da qualidade da água e o aumento do risco de desertificação.
“Investir na saúde do solo é hoje uma condição essencial para garantir a produtividade agrícola e a sustentabilidade dos ecossistemas”, alerta a investigadora.
Um dos principais objetivos da Soil Academy é aproximar o conhecimento científico da realidade agrícola. O projeto aposta numa abordagem colaborativa, envolvendo diretamente agricultores em ensaios no terreno, onde são testadas práticas como cobertos vegetais, redução da mobilização e uso de biofertilizantes.
Mais do que recetores de conhecimento, os agricultores assumem um papel ativo no processo. Através de formação, workshops e partilha de experiências, cria-se uma dinâmica de aprendizagem coletiva que valoriza tanto a ciência como o saber empírico.
Este modelo é reforçado pela colaboração entre universidades, empresas e associações agrícolas, formando um ecossistema de inovação onde o conhecimento é continuamente ajustado à realidade prática.
Um impacto que vai além do projeto
Embora tenha uma duração limitada, a Soil Academy pretende deixar um legado duradouro. O foco está na capacitação dos agricultores e na criação de bases para uma transição progressiva para sistemas agrícolas mais sustentáveis.
Espera-se que esta abordagem se traduza numa maior adoção de práticas regenerativas, com impactos positivos na fertilidade do solo, na eficiência do uso da água e na redução da erosão. Paralelamente, poderá contribuir para aumentar a capacidade de sequestro de carbono e melhorar a qualidade ambiental.
No fundo, trata-se de uma mudança estrutural: passar de uma agricultura dependente de inputs para uma agricultura baseada nos processos naturais do solo.
“É o agricultor quem transforma conhecimento em decisão e decisão em impacto”, conclui Cristina Cruz. “Por isso, trabalhar com o agricultor é a forma mais eficaz de mudar o sistema”.











































