A certificação de pesca sustentável do Marine Stewardship Council (MSC) está a ganhar terreno em Portugal, mas continua a representar apenas 3% a 4% do pescado consumido no país. O número foi avançado durante um encontro com jornalistas, integrado na Semana “Mar para Sempre”, iniciativa anual que junta retalho, indústria e associações do setor para sensibilizar os consumidores para a importância da sustentabilidade dos oceanos.

Criado em 1997 no Reino Unido, numa parceria entre a WWF e a Unilever, o MSC desenvolveu um sistema de certificação assente em dois pilares: a avaliação independente das pescarias, que analisa o estado dos stocks, o impacto ambiental e a qualidade da gestão, e a certificação de cadeia de custódia, que garante a rastreabilidade do peixe desde a captura até ao consumidor final. Só assim é possível assegurar que o produto com Ãelo Azul não é misturado com pescado não certificado.
Em Portugal, explicou Rodrigo Sengo da MSC Portugal, o crescimento do programa tem sido significativo nos últimos anos, desde a sua entrada no país em 2010. No ano passado, a sardinha ibérica voltou a ser recertificada, após um “processo exigente de melhoria e recuperação do recurso” – desde então, surgiram dezenas de novos produtos no mercado, muitos destinados à exportação, sobretudo em conserva. No total, existem atualmente cerca de 450 produtos certificados disponíveis, incluindo marcas próprias da distribuição.
“Ao escolher produtos certificados, o consumo está a apoiar o investimento feito pelas pescarias, gerando diretamente impacto positivo no oceano”
A certificação tem sido particularmente relevante para a indústria transformadora nacional, que exporta para mercados do Norte da Europa, onde a sustentabilidade é frequentemente uma exigência dos retalhistas e dos consumidores. “No Norte da Europa, a certificação é quase uma condição de entrada. No Sul, é ainda vista como uma mais-valia”, referiram os responsáveis do MSC, sublinhando que países como Dinamarca, Alemanha ou Reino Unido apresentam níveis de reconhecimento do selo bastante superiores aos de Portugal.
No mercado interno, o principal desafio está no pescado fresco, que representa cerca de metade do consumo nacional. Ao contrário do produto congelado ou enlatado, cuja certificação é mais simples de garantir, o peixe fresco implica envolver múltiplos pequenos operadores (lotas, intermediários e peixarias) na certificação de cadeia de custódia. Ainda assim, grandes grupos de retalho já investiram na certificação e esperam disponibilizar sardinha fresca com Selo Azul nas próximas campanhas.

Segundo dados apresentados no encontro, 46% dos consumidores portugueses reconhecem o Selo Azul do MSC e, entre esses, 78% afirmam confiar na certificação. No entanto, a sustentabilidade surge apenas como quarto ou quinto fator de decisão de compra no Sul da Europa, atrás de critérios como qualidade e benefícios para a saúde, avançou Alberto Martín Aristín, diretor do MSC para Portugal e Espanha.
É precisamente aí que a campanha “Mar para Sempre” pretende atuar: aproximar o tema da sustentabilidade das motivações já existentes, como a procura por uma alimentação saudável. A mensagem é simples: embora seja difícil para o consumidor avaliar o estado de cada espécie ou o impacto de cada arte de pesca, é fácil reconhecer o Selo Azul como garantia de que aquele pescado provém de uma pescaria certificada e sujeita a auditorias independentes.
Para o MSC, o objetivo até 2030 passa por aumentar a percentagem de capturas associadas ao programa e reforçar a presença de produtos certificados no retalho, de forma a mitigar a sobrepesca e as práticas de captura insustentáveis. Além disso, pretende-se que o reconhecimento do Selo Azul cresça mais 10%, que a compreensão chegue aos 50% e que a confiança dos consumidores portugueses possa atingir o patamar de 80%, aproximando-se de países como a Dinamarca e Alemanha.
Em relação ao impacto do preço do pescado, os responsáveis acreditam que a certificação não torna o produto mais caro, e que os preços são impactados por outros fatores externos a esta ferramenta. Além disso, quanto mais pescarias da mesma espécie estiverem certificadas, mais o preço será estabilizado, até por uma questão de competitividade no mercado, afirmou Rodrigo Sengo.
Quanto tempo demora a certificação MSC?
O processo poderá ser mais complexo para as pescarias, confessaram Rodrigo Sengo e Alberto Martín Aristín, pois estas, por norma, precisam de fazer investimentos para tornar a sua atividade mais sustentável e de acordo com os critérios do MSC. A auditoria à frota, feita de forma independente por empresas terceiras, pode levar 1 ano ou mais, consoante o nível de preparação da pescaria.
Já para as empresas de retalho, a certificação pode demorar cerca de três meses, por não exigir tanto investimento, mas sim uma formação cuidada de manuseamento e respeito pelos produtos com Selo Azul.
Semana “Mar Para Sempre”
A principal ação de sensibilização está a decorrer durante esta semana (2-6 março), mas prolongar-se-á durante todo o mês de março, através das redes sociais, comunicação social e publicidade em autocarros.
As campanhas pretendem usar uma “comunicação simples e direta”, para atingir os consumidores finais, e foram pensadas para alinhar o driver da sustentabilidade com o driver da vida saudável associada ao consumo de pescado.
Ao todo, são cerca de 28 entidades (desde associações e empresas) a promover esta mensagem do MSC.








































