“Temos tomado o oceano como garantido e hoje estamos perante uma emergência oceânica”

“Temos tomado o oceano como garantido e hoje estamos perante uma emergência oceânica”

“O Oceano é um fator de união. Infelizmente, temos tomado o oceano como garantido e hoje estamos perante uma emergência oceânica: é preciso que a maré mude”. O alerta é do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, que falou na manhã desta segunda-feira, 27 de junho, na 2.ª Conferência dos Oceanos das Nações Unidas, em Lisboa.

“O aquecimento global está a elevar as temperaturas oceânicas para níveis recorde, criando tempestades cada vez mais fortes e mais frequentes; os níveis do mar estão a subir; as nações insulares deparam-se com o espectro da inundação; a crise climática está a aumentar a acidez dos oceanos, o que está a perturbar a cadeia marinha alimentar”, disse Guterres, alertando para quantidade de plásticos – “oito milhões” – que são despejados, por ano, no oceano: “Sem medidas drásticas, este plástico irá ser mais pesado do que todo o peixe nos oceanos até 2050”. Esta quantidade de resíduos de plástico, de acordo com o secretário-geral da ONU, já está nas zonas mais remotas do planeta e até nas fossas oceânicas mais profundas: “Mata a vida marinha e prejudica as comunidades que dependem da pesca e do turismo”. Por isso, “não é possível ter um planeta saudável sem um oceano saudável”, atenta.

António Guterres não tem dúvidas de que, se o oceano não for bem cuidado, as consequências vão ter impacto na Agenda 2030: “Um oceano saudável e produtivo é, por isso, vital para o nosso futuro comum”. Mesmo com os esforços que têm sido feitos em prol do oceano, o secretário-geral da ONU deixou o alerta: “Não tenhamos ilusões: precisamos de fazer muito mais em conjunto”. E, por isso, as recomendações partilhadas pelo dirigente centram-se no “encorajamento a todas as partes interessadas em investir em economias oceânicas sustentáveis em prol dos alimentos, da energia renovável e dos meios de subsistência”. Para tal, “precisamos de mais financiamento de longo-prazo”, apela, lamentado que o ODS 14 é o menos financiado de todos: “Precisamos de modelos comerciais sustentáveis que promovam as economias oceânicas em harmonia com o ambiente marinho, por exemplo, precisamos de uma indústria sustentável”.

“O oceano tem de se tornar um modelo de como melhor gerir o património comum para o bem de todos”, recomenda António Guterres, destacando que, para tal, deve-se “prevenir e reduzir a poluição marinha tanto de fontes terrestres como marinhas: temos de ter medidas de conservação com base na área e na gestão integrada das zonas costeiras”.

Outra recomendação passa pela proteção dos oceanos e povos que neles vivem e que dependem para a sua subsistência: “Precisamos de infraestruturas costeiras, investimentos nas instalações portuárias que sejam resilientes e no restauro e conservação dos ecossistemas”.

O secretário-geral da ONU sublinhou que os esforços serão centrados nas “comunidades costeiras e naquelas cujas meios de subsistência dependem de um sistema de alerta precoce no mar”. Por fim, o apelo foca-se por “mais ciência e inovação”, para que se abra um “novo capítulo para maior sessão oceânica global: encorajo parcerias conjuntas público-privadas para apoiar investigação nos oceanos e uma gestão sustentável e aos Governos para que tenham uma maior ambição ajudando a saúde dos oceanos”.

A 2.ª Conferência dos Oceanos começou esta segunda-feira, 27 de junho, e termina na próxima sexta-feira, 1 de julho. Sob o tema “Salvar os Oceanos Proteger o Futuro”, vários chefes de Estados e de Governo, em conjunto com líderes do setor privado, da comunidade científica e outros parceiros juntam-se para definir um novo caminho que assegure a proteção e a conservação dos oceanos e dos seus recursos.

Cristiana Macedo