Tempestades recentes confirmam “novo normal climático” e expõem falta de investimento em adaptação, alerta WWF

A sucessão de tempestades que tem afetado Portugal nas últimas semanas é um sinal claro de que o país já vive num “novo normal climático”, marcado por fenómenos meteorológicos extremos mais intensos e frequentes, alerta a WWF Portugal. A organização ambiental defende que continuar a apostar sobretudo na resposta a emergências é insuficiente e apela a um reforço urgente da prevenção, da adaptação às alterações climáticas e do investimento estrutural, com o restauro da natureza como eixo central.

Chuvas intensas, ventos fortes e forte agitação marítima têm provocado cheias, inundações e deslizamentos de terras um pouco por todo o território, com impactos simultâneos em várias bacias hidrográficas. Os prejuízos, segundo a WWF, são significativos para populações, infraestruturas, atividades económicas e ecossistemas.

“A intensidade destes fenómenos já não pode ser encarada como excecional”, afirma Catarina Grilo, diretora de Conservação e Políticas da WWF Portugal. A responsável sublinha que a ciência tem vindo a demonstrar que o aquecimento global aumenta a capacidade da atmosfera de reter humidade, potenciando episódios de precipitação intensa concentrada no tempo, bem como períodos prolongados de seca.

A organização alerta ainda para a vulnerabilidade estrutural do país face às alterações climáticas, apontando o baixo nível de investimento em adaptação e prevenção de riscos. Um estudo do McKinsey Global Institute indica que Portugal terá de multiplicar por dez o investimento anual até 2050 para responder ao aumento da exposição ao calor extremo, à seca e às cheias. A atual abordagem, excessivamente reativa, acaba por gerar custos humanos, sociais e económicos muito superiores aos que seriam necessários para prevenir os impactos.

Nesse contexto, a WWF defende que as soluções baseadas na natureza devem assumir um papel central na estratégia climática nacional. O restauro de rios, zonas húmidas, florestas autóctones e ecossistemas costeiros é apontado como uma das formas mais eficazes e custo-eficientes de aumentar a resiliência do território.

“Ecossistemas saudáveis funcionam como verdadeiras infraestruturas naturais de proteção”, explica Catarina Grilo, referindo que zonas húmidas e leitos de cheia renaturalizados ajudam a absorver e desacelerar a água da chuva, enquanto florestas diversificadas reduzem a erosão e estabilizam encostas. Em áreas costeiras, sistemas dunares e sapais podem atenuar o impacto das tempestades marítimas e da subida do nível do mar, e em meio urbano os espaços verdes contribuem para a gestão da água da chuva e a redução do risco de inundações.

A ONG defende ainda um reforço do ordenamento do território, evitando a construção em áreas de risco, como as classificadas na Reserva Ecológica Nacional, e a integração de soluções baseadas na natureza nos planos nacionais, regionais e municipais. O envolvimento das comunidades e da sociedade civil é também considerado essencial para uma adaptação climática eficaz.

“Exigimos mais do que respostas a emergências: exigimos planeamento, investimento adequado e a recuperação da natureza como aliada fundamental na proteção das pessoas, dos territórios e do nosso futuro”, conclui Catarina Grilo.