Foi nas recém-inauguradas instalações da Terberg Resitul, na Venda do Pinheiro, que Sónia Santos, diretora-geral da empresa, nos recebeu para uma conversa sobre um setor em plena transformação. Entre metas ambientais cada vez mais exigentes, desafios operacionais persistentes e uma crescente escassez de recursos humanos, a gestão de resíduos em Portugal atravessa um momento crítico. Ao longo da entrevista, a responsável destaca a importância da inovação tecnológica, da adaptação dos equipamentos às realidades do terreno e, sobretudo, de uma maior proximidade ao cliente como pilares estratégicos para responder às exigências atuais e futuras do setor.
Como é hoje o posicionamento da Terberg Resitul no setor da gestão de resíduos no nosso país?
A Resitul começou há 20 anos, criada pelo Engº António Bento, que tinha um propósito: trazer para Portugal o que de melhor se fazia a nível internacional. Isto porque em termos de gestão de resíduos evoluímos muito rápido e, às vezes, acontecia o cliente querer uma solução que ainda não existia em Portugal. Então sentimos esta missão. Hoje em dia sentimos muito que o cliente, quando tem alguma dúvida, nos procura. Somos líderes de mercado em termos de comercialização de equipamentos, mas também ajudamos o cliente, informando-o sobre como poderá utilizar esses equipamentos.
Somos líderes de mercado em termos de comercialização de equipamentos, mas também ajudamos o cliente, informando-o sobre como poderá utilizar esses equipamentos.
O atual modelo de gestão de resíduos em Portugal é sustentável a nível económico e operacional, ou poderia ter uma revisão?
Penso que estamos num momento de grande instabilidade, até no sentido de motivarmos a população, que é sem dúvida o nosso foco. Mas mais do que sensibilizar, temos de os motivar a fazer uma seleção de resíduos e a terem uma consciência ambiental cada vez maior. E este é um desafio grande, da sociedade em geral. Depois temos a parte da recolha, que a nós nos afeta muito, e aqui os recursos humanos são cada vez mais difíceis de conquistar. É um setor que não é muito apelativo, e os ordenados e condições laborais também não são muito apelativos. Portanto as viaturas, os equipamentos que disponibilizamos aos municípios, cada vez se têm que adaptar e ajustar mais aos operadores para resultar numa operação muito mais eficaz. Antigamente a viatura era o que era e as pessoas adaptavam-se. Hoje em dia, temos uma preocupação muito grande ao nível da segurança e da qualidade. Por fim, no que diz respeito ao tratamento, temos os aterros, que estão cada vez mais em fim de linha, e temos metas para atingir. Mas infelizmente não se sente uma coerência financeira e operacional. A pressão de atingir as metas está aí, mas precisávamos de parar um pouco e criar uma estratégia internacional que, entre os três “ambientes”, nos permitisse ter outra tranquilidade para atingir as metas.
A pressão de atingir as metas está aí, mas precisávamos de parar um pouco e criar uma estratégia internacional que, entre os três “ambientes”, nos permitisse ter outra tranquilidade para atingir as metas.
Portugal, dentro do contexto da União Europeia, deixou-se atrasar face a outras realidades internacionais?
A dificuldade de recursos humanos é uma dificuldade geral, comum a todos os países. Mas lá fora acabam por dar outro valor ao nosso setor. Para outros países, é normal o munícipe pagar uma taxa de resíduos e é natural fazer uma separação efetiva de resíduos. Em Portugal, nesse sentido, estamos muito longe dessa sensibilização.
Em termos de viaturas e de segurança, ao nível da UE, eles estão muito mais à frente, implementam realmente para proteger as pessoas que trabalham com os equipamentos. Em Portugal, implementamos porque somos obrigados a isso. Estamos todos à espera da inteligência artificial para suprimir as necessidades de recursos humanos, mas em termos de responsabilidade para com o ambiente, sem dúvida que continuamos um bocadinho mais atrás do que é a UE.
Quais têm sido as principais prioridades estratégicas da empresa?
A Resitul começou muito focada na atividade comercial. Representamos os melhores produtos a nível internacional. Eu costumo dizer que a qualidade dos produtos, já a temos. A dificuldade que tivemos ao longo dos anos foi perceber as dificuldades dos nossos clientes. Nesse sentido, chegámos à conclusão que é importante a proximidade, o pós-venda, a assistência técnica. Esta proximidade ao cliente tem sido o nosso foco nos últimos anos e prevemos que assim continue.
Até 2016-17 estávamos apenas localizados em Mafra e, em 2017, sentimos necessidade de crescer para norte, ou seja, de dar pós-venda, porque tínhamos já grandes frotas a operar na zona norte. Portanto criámos instalações físicas no Porto. Numa primeira fase, posicionámo-nos em Alfena e, passados dois anos, precisámos de crescer e mudámos para a Maia, onde temos cinco técnicos totalmente disponíveis. Investimos também nas novas instalações, onde estamos agora, na Venda do Pinheiro, que resulta de uma aposta de crescimento em pós-venda aqui na zona centro. E, em maio, vamos abrir instalações no Algarve, onde já temos dois técnicos 100% dedicados à zona do Baixa Alentejo e Algarve. Este é, sem dúvida, um investimento que queremos continuar a fazer, ou seja, formar os técnicos dos nossos clientes, investir em formação dos nossos clientes, poder preparar motoristas, cantoneiros, eletricistas, mecânicos dos nossos clientes, para que eles próprios consigam ter uma estrutura física na utilização dos nossos equipamentos, suportável e sustentável. Este tem sido o nosso foco nos últimos anos, é por aqui que queremos continuar.
Estamos todos à espera da inteligência artificial para suprimir as necessidades de recursos humanos, mas em termos de responsabilidade para com o ambiente, sem dúvida que continuamos um bocadinho mais atrás do que é a UE.
De que forma a Terberg Resitul se tem adaptado às novas exigências regulatórias e ambientais a nível nacional e europeu?
Vamo-nos ajustando, e aqui temos a vantagem de o grupo estar nos comitês internacionais, o que significa que algumas destas normativas, quando chegam a Portugal, já temos conhecimento delas. Isto permite-nos implementá-las, dar a garantia ao nosso cliente de que vai estar em conformidade com a legislativa internacional, e também percebermos o impacto que ela vai ter quando a implementarmos. Porque há países onde é fácil implementar uma norma comunitária, pois todos a aceitam e respeitam. Em Portugal isso normalmente não acontece, até porque a necessidade operacional a isso nos obriga, a recolher com qualidade os resíduos que são depositados, a termos circuitos o mais otimizados possível porque não temos assim tantas viaturas suplentes… Ou seja, o facto de irmos aos comitês e ficarmos informados permite-nos também perceber e alertar um bocadinho os nossos clientes no sentido de se prepararem para que determinada norma comunitária tenha o menor impacto possível. E isto traz-nos uma grande vantagem no mercado. Mais uma vez, não é só vender o produto, é estar junto do cliente e da solução, para a ver como uma solução integrada.
Até que ponto o atual enquadramento regulatório favorece a eficiência operacional das empresas do setor?
Eu acredito que favorece. Temos de olhar para o novo sistema de uma forma positiva. Temos de juntar-nos para conseguir lá chegar, porque este setor da gestão de resíduos tem vários players a atuar no mercado e, às vezes, cada um olha para si próprio. Por vezes, falta sustentabilidade entre todos para conseguirmos trazer o mais positivo que podemos destas normas que nos chegam, porque vamos ter que as cumprir.
Que papel desempenha a inovação tecnológica na melhoria da eficiência e sustentabilidade das operações da empresa?
O grupo Terberg tem uma preocupação muito grande com a sustentabilidade dos equipamentos que produz. Temos uma vasta gama de equipamentos, que vai desde o equipamento mais pequeno, de 5 metros cúbicos, ao equipamento maior, um carro de 27 metros cúbicos e, neste momento, estamos a uniformizar tudo o que são componentes. Ou seja, apesar dos equipamentos terem dimensões e desempenhos diferentes, tentamos sempre que utilizem os mesmos componentes. Isto por uma questão de sustentabilidade e de investimento do cliente, para ele não ter que ter, para cada equipamento, stocks diferentes. Isto é uma vantagem para o cliente e também o é para nós, porque, em termos de stocks, obriga-nos a ter uma gestão muito mais coerente e sustentável. Nas novas instalações fizemos um grande investimento numa máquina de gestão de stocks, que faz uma gestão ajustada dos componentes e nos dá alertas para necessidades de socks. Também ao nível dos recursos humanos internos, tentamos sempre dar o máximo de condições às pessoas que trabalham connosco, porque retenção de talentos também é uma das nossas prioridades e tentamos sempre ver o lado positivo da tecnologia, da modernização e dos sistemas que nos permitam melhorar os nossos serviços, comportamentos ou procedimentos internos.
O próprio grupo Terberg, ou a marca Bucher, no setor das varredoras, tem tido uma preocupação sustentável. Nas varredoras estamos a utilizar cada vez mais componentes metálicos para evitar a utilização e o desgaste do plástico, pois as tubagens de plástico levam a derrames hidráulicos nas vias públicas, a um desgaste que leva a plásticos depositados no ambiente. Portanto, existe aqui uma preocupação cada vez maior de construção dos equipamentos sustentáveis, operacionais e com tecnologia que nos permita melhorar o pós-venda e o desgaste dos equipamentos.
Por vezes, falta sustentabilidade entre todos para conseguirmos trazer o mais positivo que podemos destas normas que nos chegam, porque vamos ter que as cumprir.
Que medidas concretas têm vindo a implementar para reduzir a pegada ambiental?
Em Portugal, a utilização de viaturas elétricas ou híbridas foi um dos primeiros passos que o grupo Terberg nos obrigou a implementar. Depois temos uma preocupação em que as novas instalações sejam o mais sustentáveis possíveis, seja aqui na Venda do Pinheiro, e futuramente no Algarve, com painéis solares ou, sensores de luminosidade, por exemplo.
Em termos de equipamentos, a Resitul, há três ou quatro anos, forneceu a primeira viatura 100% elétrica no mercado, ao município de Cascais. Temos esta preocupação de adaptar os nossos equipamentos a soluções ambientais, sejam elas elétricas, ou o novo combustível com HVO que já não é derivado de combustível fóssil… Temos sempre ajustado a construção dos nossos equipamentos às realidades que o mercado nos traz, o que permite reduzir a pegada carbónica.
Há ou não uma desconfiança sobre a utilização dos resíduos? Porque é que, nos últimos anos, não se fez sensibilização? Tendo em conta estas realidades, quais os principais desafios operacionais no setor da recolha e gestão de resíduos?
Nós tivemos um crescimento exponencial da recolha seletiva há uns 10 anos, um pouco talvez porque as campanhas estavam mais próximas dos jovens. Depois caiu-se no misticismo de que a viatura que recolhe, recolhe tudo junto, criou-se aqui um descrédito; penso que pela pressão de recolher resíduos, acabámos por misturar os resíduos. Ou seja, a evolução dos últimos 20 anos trouxe-nos a exposição daquilo que é a recolha municipal. Hoje tudo está no Facebook ou no Instagram, e os municípios começaram a viver com uma pressão de recolha: bem ou mal, o que interessava era recolher. E isto, associado a uma forte falta de recursos humanos, é um problema para o qual temos que olhar com outros olhos. Penso que caiu-se no descrédito devido à pressão de recolher, de ter uma cidade limpa. E isto complementado com a recolha de biorresíduos, uma implementação também governamental e europeia, que nos trouxe uma preocupação com um novo fluxo de resíduos que ninguém sabia muito bem como recolher.
Em termos de equipamentos, temos preparado toda a frota para que o mesmo equipamento que hoje vai recolher papel, esteja capacitado em taxas de compactação para papel; no dia a seguir vai para embalagens, ajustamos a taxa de compactação para embalagens. Ou seja, voltamos à sustentabilidade do equipamento, para que os municípios não tenham que fazer um investimento para cada tipo de resíduo que recolhem.
Como tem evoluído a relação com os municípios?
O nosso principal cliente são os municípios. Temos sentido que, ao longo dos anos, o município tem vindo a ficar mais preocupado com a recolha de resíduos. Antes era uma obrigatoriedade, hoje já é quase um orgulho poder ter um sistema eficaz e uma operacionalidade correta. Nós somos o principal fornecedor dos municípios de Cascais, Porto, Lisboa, Portimão ou Tavira. Temos os grandes municípios já com os nossos equipamentos e gostamos muito de nos irmos atualizando e de os informar como podem fazer melhor e otimizar a parte operacional.
Que áreas considera prioritárias para investimento nos próximos anos? E que tendências vão marcar o futuro da gestão de resíduos?
Atravessamos uma grande dificuldade de recursos humanos. Existem equipamentos na Europa que são operados apenas com um motorista e poderíamos ir para uma solução mono-operador, mas temos uma realidade que não é só o contentor, é a envolvente do contentor, e isto em Portugal tem muito peso: uma operação mono-operador só recolhe o contentor, não limpa a envolvente. O grande desafio do futuro será motivar as pessoas a quererem trabalhar neste setor. Não pode ser o “homem do lixo”, esta função tem que ser valorizada.
Outro desafio é a questão do equipamento versus operação. Somos um país com muita variedade de recolha, de sistemas, e isto só complica a operação, torna-nos ineficientes. Eu sou do tempo em que vendíamos uma viatura de recolha e era o motorista ou o cantoneiro que se adaptavam à forma de trabalhar da viatura. Hoje verificamos o contrário, é a viatura que se tem de adaptar aos contentores, aos motoristas, aos cantoneiros, às dimensões dos circuitos, às inclinações, e portanto fazermos um estudo prévio da necessidade do cliente. Hoje é muito importante, e é um desafio, não só vender uma viatura de lixo ou uma varredoura, mas saber onde é que esta vai trabalhar, que tipo de contentores vai recolher. Nós damos formação quando entregamos a viatura, acompanhamos os primeiros turnos, é preciso ir ao terreno. Quando andamos em formação, argumentamos sempre que estamos ali para transmitir alguns princípios: segurança, para sentirem que têm segurança no equipamento que vão utilizar: conexão, para perceberem o que estão a fazer, qual é o propósito, porque não é só recolher lixo, é recolher lixo com o máximo de operacionalidade possível.
A digitalização está a transformar vários setores. Como está a Terberg Resitul a incorporar esta tendência nas suas operações?
Esse tem sido um desafio, enquanto Terberg, que quando chega traz como missão implementar a digitalização. Os softwares, todos os programas com que operamos, são internacionais. O que nos dá muito mais flexibilidade. Em termos dos equipamentos, rapidamente se consegue aceder a um equipamento e, não vou dizer repará-lo, mas pelo menos identificar a avaria. Toda a nossa gama, tanto de varredoras como de viaturas de recolha, está equipada com um sistema de Terberg Connect, em que todo o registo da viatura é guardado e transmitido em tempo real.
Esta também é uma das nossas prioridades internas, não é só o cliente que tem dificuldade de recursos humanos, nós também. Técnicos, eletricistas, mecatrónicos, está difícil, e portanto, ter um técnico na estrada, é desperdício. Diria que já temos cerca de 90% da nossa frota regida por estes softwares, o que nos permite uma rápida e eficaz resposta.
Tenho sido a grande responsável pelo crescimento desta empresa. Sinto muito a Resitul como a minha casa.
Enquanto diretora-geral, que visão tem para o crescimento da empresa em Portugal?
Estou na Resitul há 20 anos: a empresa começou em novembro de 2005 e eu entrei a 8 de janeiro de 2006. E estou como diretora-geral há sete anos. Tenho sido a grande responsável pelo crescimento desta empresa. Sinto muito a Resitul como a minha casa. Nos primeiros anos, o Eng.º António Bento foi o nosso diretor, uma pessoa com uma grande visão e estratégia. Somos o que somos hoje graças a ele, uma pessoa com um conhecimento do mercado muito grande e com uma visão muito comercial, no sentido de vender o melhor produto que existe.
Mas faltava-nos o pós-venda, as peças, a proximidade ao cliente. E, em 2016, o grupo Terberg decide adquirir 100% da Resitul, que na altura tinha cinco colaboradores, e é quando assumo a direção geral. Houve alguns fatores que considerei essenciais para crescermos: pós-venda, proximidade ao cliente. Como dizia o Eng.º António Bento, “queremos mecânicos de luva branca”, que cheguem, resolvam e vão embora. Investimos muito em formação dos nossos técnicos e dos técnicos dos nossos clientes. Queremos que os técnicos dos nossos clientes se sintam confortáveis a operar os nossos equipamentos, que os reparem corretamente e que, quando não o conseguirem, contem connosco à distância de uma chamada. Este é o nosso foco e a minha visão enquanto diretora-geral… além de querer reter pessoas, dar qualidade de trabalho. Vimos de uma era em que trabalhar 12 horas por dia era normal, em que as pessoas abdicavam de estar com a família, mas os jovens têm uma visão totalmente diferente. Temos um projeto para 2026 de criar a Academia Terberg Resitul, que será dedicada aos colaboradores dos nossos clientes.
Que mensagem gostaria de deixar ao setor e aos decisores políticos no que diz respeito à gestão sustentável de resíduos?
Temos de pensar como um todo, o país precisa de um plano estratégico nacional. Os stakeholders são vários e precisamos de perceber qual o caminho que nos vai ajudar a todos. Nós, enquanto Terberg Resitul, procuramos parceiros nos equipamentos que fornecemos, nos contentores que apresentamos aos clientes, não queremos fazer tudo sozinhos. Um dos valores do grupo Terberg é a ação social, e nós desempenhamos essas ações, não precisamos de as publicitars, são ações nossas em que sentimos que acrescentamos valor à vida dos outros. Para o setor, esta é a maior mensagem que posso transmitir: vamos trabalhar juntos, criar parcerias entre todos, e perceber onde cada um consegue ser mais forte porque, no final de contas, temos metas para atingir, temos resíduos para recolher, temos um planeta para salvar, e temos toda a mesma missão, não estamos é coerentes no caminho para lá chegar.
Por Inês Gromicho e Pedro Chenrim. Fotos @Raquel Wise. Publicada na edição 116








































