“Transição energética acelera graças às inovações tecnológicas mais recentes”, diz estudo

“Transição energética acelera graças às inovações tecnológicas mais recentes”, diz estudo

Categoria Advisor, Investigação

A Capgemini acaba de publicar a 22a edição do estudo anual World Energy Markets Observatory (WEMO), desenvolvido em parceria com a De Pardieu Brocas Maffei, Vaasa ETT e a Enerdata.

Esta edição, segundo a consultora, procede à análise de dois períodos distintos: o ano de 2019, em que se mantiveram as tendências anteriores relativamente à transição energética, aos progressos alcançados nas energias renováveis e nas baterias elétricas, bem como às dificuldades em cumprir ao objetivos traçados pelos Acordos de Paris sobre as alterações climáticas; e o ano de 2020, marcado pela profunda disrupção provocada pela pandemia da Covid 19, que se repercutiu profundamente no setor da energia fazendo emergir uma “nova realidade”.

Principais conclusões da edição 2020 do WEMO:

  1. A diminuição acentuada da atividade económica provocada pela pandemia provocou a maior redução de emissões de gases com efeito de estufa (GES) de que há memória desde a Segunda Guerra Mundial. Porém, os objetivos de longo prazo relacionados com as alterações climáticas continuam a ser muito desafiantes.

Em virtude do abrandamento do crescimento económico registado em 2019, o crescimento do PIB nos países do G20 apresentou uma diminuição de 0,8 pontos por comparação com o ano anterior, indica o estudo. Também o crescimento da procura de energia está a abrandar e o aumento do consumo foi de apenas 0,7%, contra os 2,2% registados em 2018. Embora as emissões poluentes a nível mundial tenham aumentado 0,6% em 2019 e atingido o seu nível mais elevado de sempre, as emissões do setor energético em particular registaram uma queda de 0,4% provocada por uma combinação de vários fatores, incluindo a diminuição do consumo de carvão muitas vezes substituído pelo gás, o crescimento das energias renováveis e a melhoria dos níveis de eficiência energética. O declínio significativo do consumo, provocado pela pandemia da Covid-19, foi responsável pela maior redução de emissões de GES desde a Segunda Guerra Mundial. Prevê-se, de acordo com o relatório que em 2020 as emissões venham a registar uma diminuição de 7% a 8%, como resultado das restrições relacionadas com as viagens e do forte abrandamento industrial que se tem feito sentir.

Apesar destes resultados aparentemente positivos previstos para 2020, de acordo com Colette Lewiner, Energy and Utilities senior advisor da Capgemini, estas reduções são temporárias: “A redução das emissões registada em 2020 está relacionada com o período de confinamento e com as restantes restrições à mobilidade que a pandemia da COVID-19 tem vindo a provocar em todo o mundo. É provável que o nível das emissões volte a aumentar à medida que o mundo vá conseguindo ultrapassar esta situação. Para nos mantermos no caminho certo a nível ambiental, teriam de ser tomadas medidas de contenção semelhantes às atuais todos os anos, durante os próximos 10 anos, o que é, naturalmente, inviável e indesejável. Para podermos cumprir as metas traçadas no contexto das alterações climáticas são necessárias mudanças profundas.”

  1. A produção de energia a partir de fontes renováveis e as tecnologias de armazenamento das baterias estão a evoluir rapidamente.

As energias renováveis já representam mais de metade do investimento mundial da produção de eletricidade; “esta tendência é mais acentuada nos países desenvolvidos do que nos países emergentes, que continuam a construir centrais elétricas a carvão e a gás para satisfazer a procura crescente de eletricidade”, refere o relatório. Graças à expansão do mercado das energias renováveis e aos avanços tecnológicos, os custos das energias eólica e solar continuaram a diminuir mais de 10% em 2019, e esta redução mantém-se constante numa base mensal. As energias eólicas offshore parecem agora as mais promissoras, enquanto a aceitação das instalações onshore continua a apresentar problemas.

Os custos das baterias para veículos elétricos e o armazenamento estacionário voltaram a registar uma redução de 19% em 2019 (baterias de iões de lítio), e foram anunciados projetos para a construção de 115 unidades fabris de grande dimensão, sendo 88 delas na China. Este mercado é dominado pelos players asiáticos, nomeadamente China, Japão e Coreia do Sul.

Paralelamente, e a fim de recuperar a posição de liderança que perdeu no sector das baterias e dos painéis solares, a Europa decidiu avançar com investimentos muito importantes nas áreas do desenvolvimento do hidrogénio verde como fonte de descarbonização industrial e do armazenamento da eletricidade. Em julho de 2020, a Comissão Europeia decidiu investir entre 180 e 470 mil milhões de euros até 2050 de modo a transformar o hidrogénio verde numa importante componente do cabaz energético europeu, tendo como meta que este passe a representar 12% a 14% do mix global.

  1. A percentagem crescente das energias renováveis no cabaz energético, aliada ao encerramento das centrais de fontes de geração programada, acarreta riscos para estabilidade da rede elétrica.

Dada a percentagem crescente das fontes de energia renovável intermitente (eólica e solar) no cabaz energético, o equilíbrio da rede elétrica é mais difícil de assegurar e a segurança do abastecimento pode estar em risco. Esta situação foi patente este ano, tanto na Europa como nos EUA:

  • Em abril de 2020, durante o confinamento, a diminuição do consumo de eletricidade registada na Europa, aliada ao clima ensolarado e ventoso que se fez sentir, gerou um aumento substancial da percentagem (entre 60% a 70%) de eletricidade renovável na rede. A Alemanha e o Reino Unido quase que sofreram apagões virtuais, demonstrando que tanto as redes como a regulação não são adequadas para lidar com a elevada quantidade de energias renováveis na rede elétrica. Sobretudo se tivermos em conta que está previsto que este valor venha a aumentar até ao final desta década.
  • Em meados de agosto de 2020, durante uma onda de calor, nos EUA a região da Califórnia experimentou falhas localizadas em áreas onde o fornecimento de energia depende em 33% da energia renovável, principalmente da energia solar. Esta situação representa um desafio nas noites quentes de verão, quando a produção da eletricidade de fonte solar cai para zero, mas a necessidade de utilização dos ares condicionados se mantém. Este problema tem tendência a intensificar-se à medida que a Califórnia avança no cumprimento da meta de as energias renováveis virem a ser responsáveis por 60% da produção de eletricidade até 2030, e em que procede à eliminação gradual da produção de energia programada a partir de centrais de combustíveis fósseis e nucleares.

Philippe Vié, Global Head, Energy and Utilities, Capgemini, defende que, “muitos recursos e ferramentas digitais alcançaram um nível elevado de maturidade e estão disponíveis para melhorarem a previsibilidade, a fiabilidade, a estabilidade da rede e, em última análise, a própria segurança do abastecimento, acelerando a transição energética.”

A estabilidade da rede exige ativos de produção programada, tecnologias de armazenamento ou o consumo flexível dos combustíveis. O WEMO identifica várias formas de melhorar o equilíbrio da rede com uma quantidade significativa das fontes renováveis, incluindo: previsões de produção melhoradas, opções de armazenamento não poluentes, especialmente das baterias a curto prazo e do hidrogénio a médio prazo. A melhoria da gestão dos recursos energéticos distribuídos na rede elétrica, passa igualmente por explorar a digitalização; pela inteligência artificial e pela automação, de modo a permitir uma previsão mais rigorosa e um maior controlo da procura; e pela implementação de uma rede inteligente em larga escala. Espera-se que a alteração da legislação ou regulação inclua taxas de consumo dinâmicas que adaptem as tarifas ao fornecimento e à rede, incentivando igualmente o investimento em software e em tecnologias de Inteligência Artificial.

  1. Os planos de relançamento pós-Covid-19 irão acelerar o desenvolvimento da economia verde?

Um terço do fundo europeu de recuperação, orçado em 750 mil milhões de euros2, inclui a afetação de verbas a projetos de desenvolvimento sustentável e de transição energética. Na mesma linha, os planos dos Estados-Membros incluem também alocações de verbas para projetos na área do ambiente. Segundo o WEMO, este é um progresso muito encorajador. No entanto, a implementação destes planos será decisiva. O estudo recomenda por isso que, na atribuição dos fundos se reforce a importância do requisito “verde”, e que seja feito um acompanhamento rigoroso da sua respetiva utilização.

Para que se alcancem os objetivos fixados no contexto das alterações climáticas e se garanta a segurança do abastecimento de energia, o WEMO recomenda:

  • Controlar as emissões de GES;
  • Encorajar a desenvolvimento de formas de produção de energia verde;
  • Favorecer a eletrificação;
  • Garantir a segurança da gestão da rede;
  • Desenvolver o hidrogénio verde;
  • Garantir a concretização dos projetos financiados pelas verbas do fundo de relançamento afetas ao desenvolvimento da sustentabilidade e da economia verde.

O World Energy Markets Observatory é uma publicação anual da Capgemini que monitoriza os principais indicadores dos mercados da eletricidade e gás nas regiões da América do Norte, da Europa, da Ásia (incluindo a China e a Índia) e da Austrália. Esta edição aborda, pela primeira vez este ano, as pressões a que estão sujeitos os principais grupos da indústria do petróleo e do gás e que os levaram a traçar estratégias para a adoção da diversificação das fontes de energia e a comprometerem-se com a neutralidade carbónica.