“Um ecossistema como o das Berlengas é demasiado frágil para se brincar aos biólogos”

“Um ecossistema como o das Berlengas é demasiado frágil para se brincar aos biólogos”

O Partido da Terra (MPT), biólogos e investigadores estão indignados com a aprovação do projecto da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) pela Comissão Europeia, que visa exterminar o rato preto das Berlengas, o único mamífero, juntamente com o coelho, que habita a ilha. Alegam que os argumentos da SPEA são completamente “inválidos” e que não se baseiam em trabalho empírico realizado no local, mas sim “em conjecturas e generalizações abusivas de outras realidades”. “É surpreendente e aberrante falar em erradicação do rato preto”, disseram num debate convocado pelo MPT para discutir a, que consideram ser, “invalidade” do projecto. “Tudo indica que o rato preto da Berlenga está em equilíbrio no ecossistema onde permanece há alguns séculos e se há quem considere o contrário tem que o demonstrar. Um ecossistema insular pequeno como o das Berlengas é demasiado frágil para se brincar aos biólogos. O facto de não ser uma espécie protegida pelas directivas e convenções não significa que seja uma espécie para eliminar. Se esta fosse a leitura, ficávamos com meia dúzia de espécies na Terra”, explicou o biólogo Raúl Santos. O eurodeputado José Inácio Faria, do MPT e membro efectivo da Comissão para o Ambiente do Parlamento Europeu, vai mais longe e, diz mesmo, que a decisão da UE em apoiar o projecto só se justifica por “amadorismo e incompetência científica” ou por, simplesmente, “nem sequer terem lido o projecto”. “Nem seria necessário o conhecimento in loco da Berlenga para o recusar. Em qualquer dos casos a razão é a mesma: incompetência”, sublinhou José Inácio Faria à Ambiente magazine.

Depois da comunidade científica nacional e internacional se ter manifestado desfavoravelmente contra o projecto Life+ Berlengas que visa a aniquilação do rato preto, através da subscrição de uma petição online, o MPT, entretanto, já apresentou uma moção intitulada “Contra o Extermínio do Rato Preto e Coelho das Berlengas”. No documento, foi proposto que o Estado Português desse cumprimento aos compromissos assumidos com a conservação das populações do arquipélago considerado Reserva da Biosfera pela Unesco, que fosse suspenso a prossecução do projecto Life+ Berlengas e a suspensão imediata da campanha de “desratização” em curso, até que exista fundamentação científica credível que recomende, ou não, a intervenção antrópica na dinâmica do ecossistema da Berlenga. A moção foi rejeitada com votos contra do Partido Socialista e do Partido do Parque das Nações Por Nós(PNPN), votos a favor do BE, PEVPCP, PAN e MPT e abstenções do IND,PSD e CDS/PP.
Questionado pela Ambiente magazine sobre quem beneficia mais com o avanço da eliminação desta espécie, o deputado José Inácio Faria foi perentório: “Eu diria que, mais do que beneficiar, somos todos nós que somos prejudicados com a eliminação deste espécime único! Mas, se pensarmos bem, a Câmara de Peniche fica ‘bem vista’ perante os visitantes que se sentem incomodados pelo rato quando deixam comida fora das tendas (porque ninguém vê o rato de dia), porque suporta afirmações falsas, como, por exemplo, que está a contribuir para a saúde pública (o rato não transmite doenças) ao desratizar a ilha todos os anos. Mas, também a SPEA fica ‘bem vista’ perante o International Bird Life e todos os seus parceiros internacionais que aqui esperam vir a ter um centro de experimentação. E isto só é possível porque o ICNF não protege os valores naturais do arquipélago e deixou de se suportar no conhecimento científico universitário que desde sempre trabalhou na  Berlenga. Está prisioneiro das licenças emitidas às firmas marítimo-turísticas que transportam visitantes para a ilha e que, por exemplo, justificam não se controlar o número de visitantes diários e a tentativa do seu aumento legal. A isto não será estranho o facto de este projecto prever mais um estudo de capacidade de carga, o terceiro desde que a Reserva foi criada, sendo que o último foi aproximadamente há 7/8 anos. O grande problema da Berlenga é infelizmente o Homem. E as gaivotas, que são também um problema antrópico. Mais que saber quem beneficia, o que sabemos, o que a comunidade científica sabe, é que a Biodiversidade ficaria seriamente prejudicada se este projecto avançasse tal como está”.

Recorde-se que o projecto Life+ Berlengas considera “nefastas” as acções do rato preto para com as aves marinhas e que, estes mamíferos, podem ser uma “ameaça” à sua sobrevivência. Raúl Santos diz que estas afirmações são “extrapolações abusivas de estudos realizados noutros ecossistemas” e que “não foi provada na Berlenga a existência de predação do rato preto sobre as aves do ecossistema”. “Afirmações como ‘podem ser uma ameaça’ carecem absolutamente de fundamentação cientifica. a população de cagarras (ave que nidifica na Berlenga) na Berlenga aumentou muito nos últimos anos”, garantiu.
Num debate sobre o projecto Life+ Berlengas, decorrido na semana passada, realçou-se o facto de o método de extermínio proposto para o rato preto ser “perigoso para o ecossistema” e deste projecto violar leis relativas à protecção e conservação do meio ambiente. Se o extermínio do rato preto vier mesmo a acontecer, Raúl Santos diz mesmo que, esta acção, pode ser “uma catástrofe para o ecossistema da Ilha”.
As entidades envolvidas no projecto, também convocadas para o debate, não compareceram, “não mostrando interesse” em defender a ideia que pretendem levar avante, acusou o eurodeputado.