Visão japonesa inspira app CropScope para otimização de recursos na agricultura

Visão japonesa inspira app CropScope para otimização de recursos na agricultura

Foi promovido na passada terça-feira, 22 de fevereiro, um webinar sobre a nova ferramenta de trabalho que faculta toda a informação do campo para utilização diária no controlo das suas culturas. Denominada por CropScope, a solução que se baseia em dados e em inteligência artificial já foi testada com sucesso com vários produtores de tomate de indústria. A apresentação ficou ao cargo de Ana Duarte, Gestora de Conta e Desenvolvimento de Negócio da NEC Portugal, e de Tiago Caetano, técnico Agrícola de Investigação & Desenvolvimento da Kagome AgriCenter.

A ferramenta surge do conhecimento conjunto da NEC (multinacional de tecnologias de informação) e da Kagome (multinacional do setor agroalimentar): “Aliar o conhecimento agrónomo que vem da Kagome com a parte tecnológica que vem da NEC permite dar uma resposta aos desafios que o setor enfrenta”, explica Ana Duarte.

No mercado desde 1989, ambas as empresas, de origem japonesa, viram a necessidade de se reinventarem e, ao mesmo tempo, oferecer uma solução inteligente à agricultura: “O preço inflacionado e escasseamento de recursos – água, energia ou fertilizantes – estão na origem desta nova solução que, através de uma visão japonesa, centra-se na otimização dos recursos”, refere Tiago Caetano.

Numa altura em que a Península Ibérica enfrenta uma situação de seca nunca fez tão sentido uma ferramenta que otimize a alocação do recurso, nomeadamente na “quantidade certa”, no “local certo” e no “tempo certo”, intitulando-se  na agricultura de precisão: “O grande objetivo é conseguir-se uma agricultura mais sustentável, utilizando e interiorizando a utilização destes recursos e obter  a máxima produtividade dos nossos campos agrícolas”, acrescenta o responsável.

Com o objetivo de ajudarem a construir um planeta melhor e mais sustentável, ambas as empresas querem dotar a agricultura com métodos mais eficientes para lidar com os desafios. Tal como explica Ana Duarte, a missão da NEC e da Kagome passa por “conseguir um solução que tenha como base de partida toda a informação que vem do campo e aliar (a mesma) à inteligência artificial: “Juntar tudo numa ferramenta que se traduz numa solução para o dia-a-dia dos agricultores”. Reforçando aquele que é o grande objetivo da CropScope – tornar a agricultura mais sustentável, de precisão, inteligente e com uma produção rentável  – a investigadora lembra a importância da mesma no facto de ajudar agricultores, especialistas ou técnicos a terem uma “aplicação racional” dos fatores de produção, permitindo uma produção superior: “Só conseguimos ter uma agricultura sustentável e inteligente quando conseguirmos que a água seja um fator de produção utilizada nos tempos certos e nas quantidades certas”, alerta. 

Aquando da sua criação, em 2015, a CropScope centrou-se, primeiramente, em recolher informação e fazer um levantamento do estado do setor, sendo o tomate, devido à Kagome, a cultura central:  “Hoje em dia, trabalhamos outras culturas como o milho, o pimento, o kiwi ou os espargos”, afirma Tiago Caetano. Atuando em Portugal, Espanha, Itália, América do Norte e Sul, Ásia e Austrália, a ferramenta já oferece uma panóplia de funcionalidades direcionadas para agricultores ou técnicos agrícolas e para as fábricas: “São várias funcionalidades que cobrem o espectro do que é a indústria”.

Casos práticos: 

A comunicação é uma das funcionalidades da CropScope: “O agrónomo, ao utilizar a aplicação e focando determinada parcela agrícola, tem acesso a toda a informação do campo que está a visitar. Ao analisar o campo, o trabalhador pode utilizar a ferramenta e criar alertas ou comentários acerca da sua observação. Uma vez que todas as informações são georreferenciadas, o agrónomo faz o alerta e passados alguns segundos, o agricultor recebe a notificação e poderá, a partir daí, ver os alertas e comentários, ficando disponível um género de chat aberto”.

Ao nível da rega, a ferramenta ajuda os agricultores a controlar, por exemplo, o excesso ou a falta de humidade no solo. Através de uma central de notificações, os agricultores recebem uma notificação sobre o estado de determinado campo. Quer seja através do smartphone ou do PC, a ferramenta assegura uma informação fidedigna da situação meteorológica, permitindo aos agricultores terem acesso aos resultados da temperatura ou da precipitação prevista. Com informações detalhadas, o agricultor poderá decidir a quantidade de rega a aplicar numa determinada parcela agrícola e usar a água de forma mais eficiente, otimizando e aplicando a quantidade certa no momento certo.

Os desafios da agricultura moderna 

Apesar de não haver certezas quanto ao futuro, as previsões são de que a população continuará a aumentar e os recursos do planeta não conseguirão dar resposta. Tão importante nesta equação é “saber utilizar os recursos” de forma a garantir “alimentação”, refere Ana Duarte, constatando que, face a este aumento de população, a produção de alimentos terá de aumentar nos próximos 20 a 30 anos: “Apesar de distante (o futuro), temos de dar respostas rápidas”.

Sendo o “aumento de produtividade” uma questão premente na agricultura moderna, a responsável alerta para as implicações deste desafio: “Mais águas e mais fertilizantes não tornam a agricultura mais sustentável”. Por isso, a quantidade de água disponível é um desafio muito grande e a sua utilização tem mesmo de ser feita de forma eficiente”. E o mesmo serve para a “utilização de fertilizantes” que devem ser usados de forma mais racional”. Como consequência do mau uso dos recursos, geram-se problemas de gestão dos campos: “Todos os anos, há menos agricultores e menos pessoas a dedicarem-se à agricultura, e quem fica, tem de gerir mais área e, consequentemente, uma carga de trabalho mais elevada. Fazer toda esta gestão na hora certa e no sítio certo é, de facto, um dos grandes desafios que vemos na agricultura moderna”, sustenta.

Cristiana Macedo