Num contexto europeu marcado pela volatilidade dos preços da energia e pela urgência da transição energética, surgem novos modelos capazes de transformar a forma como as empresas produzem, consomem e gerem energia. A Youdera posiciona-se precisamente nesse cruzamento entre inovação tecnológica, sustentabilidade e eficiência financeira, como explica Pedro Miranda, Co-Founder e CEO da empresa.
Qual é a principal atividade da Youdera?

A Youdera ajuda as empresas europeias a reduzirem o custo e o risco energético sem investirem capital próprio. Fazemo-lo através de um modelo Zero CAPEX, em que financiamos, instalamos e operamos a infraestrutura energética no local do cliente – solar fotovoltaico, baterias, comunidades de energia, eletrificação de processos, reabilitação energética do edifício – e o cliente paga apenas a energia que consome, a um preço previsível e inferior ao da rede.
Hoje, gerir energia já não se resume a comprar eletricidade ou instalar painéis. É coordenar várias decisões em paralelo: quanto produzir no telhado, quanto armazenar em bateria, quando ir buscar energia a um PPA off-site, como tirar partido de uma comunidade de energia, qual o contrato de fornecimento que faz sentido em cada momento da curva de mercado. É esta complexidade que removemos do dia-a-dia do cliente. Em mais de uma década, instalámos mais de 2.500 sistemas na Suíça, em Espanha e em Portugal, e operamo-los na nossa plataforma digital – o que nos permite entregar uma solução integrada e não apenas um produto.
A empresa aposta em modelos descentralizados e em soluções “Energy-as-a-Service” com Zero CAPEX. Como funciona este modelo na prática e o que o diferencia das abordagens tradicionais no setor energético?
O princípio é simples: o cliente não compra equipamentos, compra energia. A Youdera financia o sistema – sejam painéis no telhado, um carport solar no parque de estacionamento, uma bateria para gerir picos de potência, ou um conjunto destes – instala, opera, faz a manutenção e monitoriza a produção em tempo real. O cliente assina um contrato de fornecimento de longo prazo, normalmente um PPA, e paga apenas o kWh consumido a uma tarifa fixa, abaixo do preço da rede, desde o primeiro dia.
A diferença face à abordagem tradicional é sobretudo de âmbito. Um instalador entrega-lhe painéis. Um retalhista vende-lhe um contrato. Nós entregamos o resultado: energia mais barata, mais previsível e mais limpa, sem CAPEX e sem responsabilidade técnica para o cliente. Num caso recente, financiámos a renovação completa da cobertura de um cliente industrial, combinando-a com a instalação solar – uma operação que, isoladamente, exigiria investimento próprio significativo e que, no nosso modelo, passa a ser paga ao longo do tempo, através da própria energia produzida.
Por outro lado, em vez de um único ativo, desenhamos o conjunto: dimensionamos o solar a partir da curva de carga real do cliente – em intervalos de 15 minutos -, decidimos se faz sentido juntar uma bateria para reduzir potência contratada e participar nos mercados de flexibilidade, e avaliamos se o cliente deve ancorar uma comunidade de energia ou ir buscar volume adicional a um PPA off-site. Dependendo do caso, isto pode materializar-se num único contrato ou numa combinação de contratos – o ponto é que o cliente tem um único interlocutor: a Youdera funciona como one-stop shop para a sua infraestrutura energética.
Como avalia os atuais desafios energéticos na Europa, especialmente pela sua experiência em diversos mercados?
A Europa está no caminho certo, mas o ritmo está aquém do necessário e o ponto de partida é desconfortável: segundo o Eurostat, em 2024, cerca de 57% da energia consumida na União Europeia foi importada – petróleo, gás natural e carvão, sobretudo. Isto é um problema económico e, hoje, sobretudo geopolítico. A guerra na Ucrânia e a tensão no Médio Oriente tornaram este risco estrutural, não conjuntural, e ele traduz-se em volatilidade nos preços que as nossas empresas pagam todos os meses.
A resposta passa por produzir mais electricidade dentro de portas e electrificar o que ainda anda a fuel – climatização, calor de processo, mobilidade, indústria. Cada quilowatt-hora produzido localmente, e cada processo electrificado, é menos um euro a financiar regimes externos. Não é um desafio de doze meses, é um percurso de uma década ou mais. Mas é o único que reduz simultaneamente custo, risco e dependência.
O outro grande desafio é a visibilidade. A maioria das empresas com que trabalhamos não conhece, ao detalhe, o seu próprio consumo. Quando passamos da factura mensal para os dados de 15 minutos – que é o que fazemos quando começamos uma relação – aparecem rapidamente coisas que estavam escondidas: potência contratada acima do necessário, penalizações de energia reactiva, erros de facturação, ciclos tarifários subóptimos. Sem essa visibilidade, é impossível tomar boas decisões de compra ou de investimento.
As empresas continuam a encarar a energia apenas como um custo operacional? Deve haver uma mudança de estratégia na forma como olham para a gestão energética?
A mudança já começou, mas está longe de estar completa. Há uma geração de gestores que cresceu a ver a energia como uma linha da conta de exploração – uma factura que se paga ao fim do mês e se renegoceia de dois em dois anos, normalmente em pânico, quando o contrato está a expirar. Esse modelo deixou de funcionar.
O que vemos hoje, nos clientes mais avançados, é uma abordagem que combina três horizontes em simultâneo. No curto prazo, gerem a factura – auditam cada linha, optimizam potência contratada e ciclos tarifários, eliminam penalizações reactivas. No médio prazo, gerem a compra – combinam contratos a preço fixo, indexados e PPAs, fazem coberturas faseadas em vez de assinarem um único contrato anual. No longo prazo, gerem a infraestrutura – instalam solar, armazenamento, eletrificam processos, aderem a comunidades de energia. Quando estas três camadas funcionam em conjunto, a energia deixa de ser um custo passivo e passa a ser uma alavanca activa de competitividade.
Num cliente do retalho alimentar com várias dezenas de lojas, por exemplo, a combinação destas três camadas – auditoria, contratação inteligente e geração local – traduziu-se numa redução significativa do custo unitário de energia, mantendo o mesmo perfil de risco. O ponto importante é este: não há um interruptor único que resolva o problema; há um conjunto de decisões coordenadas que, juntas, geram um resultado material.
A transição energética é frequentemente associada a elevados investimentos iniciais. Como pode a tecnologia e o modelo de financiamento da Youdera ajudar empresas a acelerar essa mudança sem comprometer liquidez ou capacidade de investimento?
O Zero CAPEX existe precisamente para retirar essa objecção da mesa. No nosso modelo, a Youdera financia integralmente o investimento – seja num sistema solar de algumas centenas de kWp numa cobertura industrial, num conjunto de carports solares num parque de estacionamento, num sistema de armazenamento com bateria para gerir picos de potência, ou na combinação de tudo isto. O cliente não imobiliza capital, não contrai dívida e não consome a sua capacidade de investimento, que fica disponível para o que é central no seu negócio.
Na prática, o cliente assina um contrato de fornecimento de longo prazo – ou uma combinação de contratos, consoante os ativos envolvidos – paga a energia que consome a uma tarifa fixa abaixo da rede e, no final, dependendo do contrato, pode adquirir o ativo. O fluxo financeiro é positivo desde o primeiro mês. Num caso típico de uma instalação industrial com cobertura aproveitável, isto traduz-se em poupanças imediatas e em geração local com credibilidade ESG, sem qualquer linha adicional no balanço.
A componente tecnológica é o que torna isto sustentável. Toda a operação corre sobre o nosso software: monitorizamos a produção em tempo real, comparamo-la com o esperado, detectamos automaticamente falhas de inversor, degradação de strings, anomalias de consumo. O cliente acede a um único ecrã para todas as suas instalações – produção, consumo, facturas, KPIs energéticos – o que dá à direcção financeira a visibilidade que antes não existia. Sem esta camada digital, o Zero CAPEX não escalaria; com ela, conseguimos entregar o mesmo nível de garantias técnicas a uma PME ou a um grupo multinacional.
Que oportunidades identifica atualmente para as empresas europeias no contexto da independência e eficiência energética, tendo em conta o potencial das energias renováveis?
A primeira oportunidade está literalmente em cima da cabeça das empresas: as coberturas industriais e comerciais europeias têm um potencial enorme que está, em larga medida, por aproveitar. Para um gestor, isto significa que o ativo já existe – basta financiar a sua activação. É exactamente o que fazemos no modelo Zero CAPEX: transformamos um telhado parado num ponto de geração que paga energia mais barata ao próprio negócio.
A segunda oportunidade é o armazenamento. As baterias deixaram de ser apenas uma solução de backup. Hoje, num cliente industrial, uma bateria bem dimensionada permite reduzir potência contratada, deslocar consumo de horas de ponta para horas de vazio, aumentar o autoconsumo do solar e participar em mercados ibéricos de flexibilidade – mFRR e aFRR – que pagam para que a procura responda à rede. Combinada com o solar, multiplica o retorno do investimento.
A terceira oportunidade são as comunidades de energia e os PPAs off-site. Para uma empresa que não tem cobertura suficiente para gerar tudo o que consome – pense numa unidade fabril de alto consumo ou num grupo com lojas pequenas distribuídas – estas estruturas permitem aceder a energia renovável a preço competitivo sem ter de instalar tudo no próprio local. Estamos a vê-lo materializar-se em vários sectores, do retalho à hotelaria, passando pela indústria farmacêutica.
A quarta é a eletrificação de processos – bombas de calor a substituir caldeiras a gás em climatização e calor de processo, carregamento de frotas eléctricas alinhado com horas solares, fornos eléctricos e motores de alta eficiência. Cada uma destas medidas, isoladamente, é interessante. O ganho real está em sequenciá-las bem, com o solar e o armazenamento, para que a procura nova seja absorvida por geração local.
Enquanto empreendedor português a liderar uma empresa sediada na Suíça, como vê o papel da inovação europeia no futuro da energia e quais são os próximos passos da Youdera nesse caminho?
A Europa tem uma posição única. Tem regulação ambiciosa, tem capital disponível para infraestrutura de descarbonização – e estamos a vê-lo de perto: a Amundi, uma das maiores gestoras de activos europeias, entrou no capital da Youdera precisamente por acreditar nesta tese – tem indústria com motivação para descarbonizar, e tem recursos endógenos significativos. O que faltou, durante muito tempo, foi escala na execução descentralizada. É aí que empresas como a nossa têm um papel a desempenhar.
Eu acredito que Portugal pode ir mais longe do que qualquer outro país do espaço europeu neste percurso. A nossa latitude permite-nos correr, ao longo de praticamente todo o ano, com uma combinação de eólica, hídrica, solar e armazenamento. Se electrificarmos a sério – climatização, processos industriais, transportes – e se continuarmos a investir em produção local e em flexibilidade, Portugal tem condições para se transformar naquilo a que se chama um electro-estado: um país capaz de funcionar quase inteiramente a electricidade produzida internamente. Não acontece em dois ou três anos. Provavelmente é um percurso de quinze anos. Mas é uma ambição realista e estrategicamente decisiva – e devemos tentar.
A nossa história ilustra bem este movimento europeu. Fundámos a empresa em 2015 no parque de inovação da EPFL, em Lausana, com qualidade suíça e ambição europeia. Reunimos economistas de energia, especialistas em compras, engenheiros e analistas de dados, sem qualquer afiliação com fornecedores de electricidade. Essa independência é central no nosso modelo: o incentivo de um retalhista é fechar um contrato; o nosso é a qualidade do contrato para o cliente.
O nosso foco para os próximos anos é consolidar a operação nos mercados onde já estamos – Suíça, Espanha e Portugal – e expandir para outros países europeus, onde vemos uma procura crescente por soluções integradas. Continuamos a aprofundar a plataforma tecnológica, que é o que nos permite escalar com qualidade, e a alargar gradualmente o âmbito do nosso serviço para acompanhar uma realidade em que gerir energia já não se resume a produzi-la localmente – passa também por gerir como se compra e como se consome. É esse arco completo, do telhado à factura, que queremos continuar a entregar aos nossos clientes.








































