A organização lamenta que o anúncio da obra surja numa altura em que a região de Coimbra enfrenta consequências de fenómenos extremos de precipitação, classificando a decisão como “inoportuna e manipuladora”. Segundo a ZERO, apresentar a barragem como resposta aos episódios recentes de cheias revela uma abordagem “reativa e não estratégica” na gestão do risco.
De acordo com o comunicado divulgado este sábado, o Ministério do Ambiente e Energia pretende lançar o concurso para a construção da Barragem de Girabolhos até ao final de março. A associação considera a decisão “precipitada” e afirma que não foi apresentada uma avaliação técnica integrada que sustente a urgência ou a eficácia da obra.
Para a organização ambientalista, infraestruturas desta dimensão exigem estudos atualizados nas áreas da hidrologia, ordenamento do território, análise custo-benefício e avaliação de impactes ambientais, defendendo que decisões estruturais não devem ser tomadas em contexto de crise.
A ZERO sublinha ainda que a construção da barragem não constitui uma resposta de curto prazo às populações afetadas. Entre projeto, avaliação ambiental, financiamento e execução, poderão decorrer vários anos até à eventual entrada em funcionamento da infraestrutura, o que, segundo a associação, invalida a sua apresentação como solução para a emergência atual.
A organização defende que, no imediato, deve ser dada prioridade a medidas de resposta rápida, proteção das populações e mitigação dos impactos, deixando as soluções estruturais para um momento de maior distanciamento técnico e participação pública efetiva.
Outro dos pontos criticados é o custo estimado da obra, que poderá ultrapassar os 500 milhões de euros. Num contexto de recursos públicos limitados, a ZERO questiona as prioridades nacionais e aponta alternativas consideradas mais eficazes e menos dispendiosas, como soluções baseadas na natureza articuladas com o cumprimento rigoroso dos instrumentos de ordenamento do território.
A associação recorda que o projeto integrou o Programa Nacional de Barragens de Elevado Potencial Hidroelétrico, aprovado em 2007 com fins exclusivamente energéticos, tendo sido abandonado em 2016 por falta de rentabilidade económica. Agora, volta a surgir nos planos governamentais no âmbito da estratégia “Água que Une”, desta vez com fins múltiplos e financiamento público.
Capacidade insuficiente para travar cheias prolongadas
Para sustentar a sua posição, a ZERO apresenta dados de precipitação registados entre 3 e 12 de fevereiro na estação meteorológica de Mangualde/Chão de Tavares, próxima do local previsto para a barragem. Nesse período, foram acumulados 315,6 litros por metro quadrado.
Aplicando este valor à área da bacia hidrográfica associada à barragem — estimada em 980 quilómetros quadrados, cerca de 15% da bacia do Mondego — a organização calcula um volume potencial de aproximadamente 309 milhões de metros cúbicos de água. Este valor ultrapassa a capacidade total prevista para a infraestrutura, estimada em 244,7 milhões de metros cúbicos.
Segundo a ZERO, este exercício demonstra que, em cenários de precipitação intensa e prolongada, a barragem poderia encher rapidamente, reduzindo a margem de retenção e obrigando à libertação de caudais, o que limitaria a sua eficácia no controlo de cheias a jusante.
Perante tudo isto, a associação considera que insistir na Barragem de Girabolhos representa “um erro estratégico” e desvia recursos de soluções mais eficazes para a adaptação às alterações climáticas. A organização apela ao Governo e aos ministérios do Ambiente e Energia e da Agricultura para que promovam uma resposta tecnicamente fundamentada e integrada para a gestão do risco de cheias na bacia do Mondego.







































