ZERO critica PTRR e acusa Governo de manter “velhas soluções” face à crise climática
A ZERO considera que o Plano de Transformação, Recuperação e Resiliência (PTRR), apresentado pelo Governo, falha em responder de forma adequada aos desafios da crise climática, mantendo uma aposta em modelos considerados ultrapassados.
Numa análise ao documento final do plano, a organização reconhece alguns avanços nas áreas da energia, indústria e soberania alimentar, mas critica o que classifica como uma “incapacidade crónica” de abandonar o paradigma das grandes obras de engenharia tradicional, como barragens e infraestruturas pesadas.
A posição surge após os episódios climáticos extremos registados no início de 2026, que provocaram inundações e danos em várias zonas urbanas. Para a ZERO, este contexto exigia uma mudança estrutural nas políticas públicas, com maior foco em soluções baseadas na natureza, algo que, segundo a associação, não se verifica no PTRR.
Entre as principais críticas está a estratégia de gestão da água, que prevê um investimento de cerca de 740 milhões de euros em novas barragens e transvases. A organização considera esta abordagem um “erro histórico”, defendendo antes o restauro ecológico e a adaptação das cidades a fenómenos extremos como cheias e inundações.
A ZERO aponta também preocupações com a simplificação dos processos de licenciamento, prevista no plano. Na sua perspetiva, esta medida poderá fragilizar salvaguardas ambientais e permitir construção em zonas de risco, em nome de uma maior rapidez administrativa.
Outros pontos negativos identificados incluem a ausência de metas concretas para a eficiência hídrica, a falta de ambição na área dos resíduos e a não integração de propostas relacionadas com a prevenção de incêndios rurais, nomeadamente no que diz respeito à reabilitação de incendiários reincidentes.
Apesar das críticas, a associação destaca alguns aspetos positivos no plano. Entre eles, a criação de um seguro climático obrigatório para imóveis, a aposta nas comunidades de energia renovável e programas de reabilitação energética de edifícios. A integração de medidas ligadas à soberania alimentar também é vista como um passo na direção certa.
Ainda assim, a ZERO conclui que o PTRR apresenta uma abordagem desequilibrada: “tecnologicamente avançado” em algumas áreas, mas “ecologicamente analfabeto” na gestão do território, da água e dos resíduos.