As fortes chuvas registadas nos últimos dias provocaram um novo colapso de uma estrutura de rejeitados mineiros nas Minas da Panasqueira, no concelho da Covilhã, com o arrastamento de grandes volumes de resíduos para a ribeira de Cebola, afluente do rio Zêzere. O incidente ocorreu na passada quinta-feira, na freguesia de São Jorge da Beira, e volta a expor a fragilidade de escombreiras e barragens de rejeitados que permanecem há décadas sem reabilitação ambiental adequada.
Na sequência do sucedido, a Empresa Portuguesa das Águas Livres (EPAL) iniciou esta terça-feira a recolha de amostras de água em vários pontos da região. O objetivo é avaliar eventuais impactos na qualidade da água destinada ao consumo humano, incluindo na albufeira de Castelo de Bode, principal origem de água para a Área Metropolitana de Lisboa. A iniciativa reflete preocupações crescentes quanto aos efeitos cumulativos de acidentes repetidos numa bacia hidrográfica de importância estratégica nacional.
Este é já o terceiro colapso conhecido desta infraestrutura de rejeitados nas últimas décadas. As Minas da Panasqueira são exploradas pela Beralt Tin and Wolfram Portugal, subsidiária da empresa mineira canadiana Almonty Industries. A exploração gerou ao longo de mais de um século enormes volumes de resíduos mineiros, muitos deles ricos em sulfuretos e suscetíveis à drenagem ácida. Alguns depósitos, como os do Cabeço do Pião, encontram-se em contacto direto ou muito próximo do rio Zêzere.
Vários estudos científicos têm identificado níveis elevados de arsénio e outros metais pesados nos solos, sedimentos e cursos de água associados aos rejeitados da Panasqueira, apontando para riscos ambientais persistentes e potenciais impactos na saúde humana. Apesar desse conhecimento, não foram implementadas soluções estruturais de remediação nem programas de reaproveitamento dos rejeitados, que continuam a conter quantidades relevantes de volfrâmio e outros materiais críticos, acusa a MiningWatch Portugal.
Paralelamente, têm sido denunciadas descargas recorrentes de águas residuais não tratadas ou insuficientemente tratadas para a ribeira do Bodelhão durante os meses de maior precipitação. Observadores ambientais consideram que a repetição de acidentes e incumprimentos revela uma tolerância prolongada por parte das autoridades responsáveis pela fiscalização ambiental.
O colapso mais recente afetou diretamente terrenos agrícolas adjacentes, incluindo olivais e vinhas. Os proprietários exigem agora o apuramento de responsabilidades e compensações pelos prejuízos sofridos. Os materiais libertados são potencialmente ácidos e podem conter concentrações elevadas de arsénio e outros elementos perigosos, levantando preocupações quanto à contaminação dos solos e à perda de produtividade a médio e longo prazo.
“O que se passa na Panasqueira não é compatível com os padrões de boas práticas definidos a nível europeu e internacional para a gestão de rejeitados mineiros”, afirmou Nik Völker, da iniciativa MiningWatch Portugal. Segundo o ambientalista, a manutenção de infraestruturas instáveis e a persistência de descargas poluentes resultam em danos ambientais recorrentes e em riscos crescentes para a agricultura e para recursos estratégicos como a água.
A MiningWatch Portugal alerta que, sem uma estratégia clara para estabilizar as escombreiras, eliminar descargas ilegais e remediar a contaminação histórica, novos colapsos serão inevitáveis, com impactos que se estendem muito para além da área da exploração mineira.









































