Por Jorge da Silva Cunha, diretor-geral da Yunex Traffic Portugal
A mobilidade urbana e interurbana entrou numa fase decisiva. A densidade populacional, a pressão sobre a infraestrutura existente e metas ambientais mais exigentes, impõem um desafio simultâneo: melhorar a fluidez, reduzir emissões, reforçar a segurança e tornar o transporte público mais atrativo. Para responder a esta equação, a modernização da mobilidade tem de passar pela digitalização da via e por uma gestão orientada por dados. É neste quadro que os Sistemas Cooperativos de Transportes Inteligentes (C-ITS) assumem uma relevância estrutural, ao permitirem comunicação V2X (Vehicle-to-Everything) entre veículos, infraestrutura e centros de controlo, em tempo real.
O ganho principal é a passagem de uma operação reativa para uma operação preventiva. Um corredor cooperativo não espera pela formação de filas, pelo “efeito dominó” de um incidente, nem pela perda de regularidade de uma linha: antecipa eventos, ajusta a operação e reduz incerteza, com impacto direto em tempos de viagem, consumo energético e risco.
Entre as aplicações com maior retorno social destaca-se a prioridade inteligente. Veículos de emergência podem ativar automaticamente um “corredor verde”, com os semáforos a ajustarem fases antes da chegada, o que reduz tempos de resposta e aumenta segurança nos cruzamentos. A mesma lógica, aplicada ao transporte público de forma dinâmica e criteriosa, melhora a regularidade e diminui tempos de paragem. Num país que procura cada vez mais independência do automóvel, esta é uma alavanca com benefícios visíveis para quem usa a rede todos os dias.
A mobilidade conectada também pode ser uma aliada direta da descarbonização, não por magia tecnológica, mas porque permite operar melhor aquilo que já existe. Aplicações como o GLOSA – que aconselha a melhor velocidade para “apanhar” o verde – mostram que é possível reduzir travagens e acelerações inúteis, com impacto real nas emissões. Não se trata apenas de informar o condutor, trata‑se de pôr semáforos e veículos a “negociar” em tempo real, afinando a operação ao segundo. Se quisermos levar a sério a redução de CO₂ nos corredores urbanos, este casamento entre GLOSA e gestão inteligente do tráfego deixa de ser uma curiosidade académica para se tornar numa opção que vale a pena colocar em cima da mesa.
Importa ainda sublinhar que a mobilidade conectada não termina à entrada das cidades. Nas autoestradas, nos túneis e nas pontes, a diferença entre um episódio controlado e uma crise de segurança mede-se, muitas vezes, em minutos – e esses minutos dependem de informação atempada e de resposta coordenada. Os C-ITS permitem antecipar congestionamentos e incidentes, ajustar velocidades de forma credível e consistente e alertar condutores antes do “efeito surpresa”.
Em túneis, onde a margem de erro é mínima, a capacidade de detetar fumo ou visibilidade degradada e de articular sinalização, iluminação e ventilação deixa de ser um extra tecnológico para passar a ser um requisito de gestão responsável. E em travessias expostas, como pontes, a adaptação a vento forte ou piso escorregadio traduz-se numa mensagem simples: a infraestrutura torna-se parte ativa da segurança, em vez de um cenário passivo à espera do próximo incidente.
A tecnologia é madura e escalável. Portugal dispõe de conhecimento técnico e de um ecossistema pronto para avançar, mas precisa de coordenação: uma estratégia por corredores, interoperabilidade, cibersegurança e metas mensuráveis. A digitalização da mobilidade é inevitável – em causa está a capacidade de a executar com ambição, consistência e impacto.








































