APDA: As respostas das entidades gestoras em tempo de pandemia (I)

APDA: As respostas das entidades gestoras em tempo de pandemia (I)

Categoria Águas, Ambiente

A APDA (Associação Portuguesa de Distribuição e Drenagem de Águas) realizou, no passado dia 23 de outubro, através da sua Comissão Especializada de Sistemas de Distribuição de Água, um webinar sobre “A Gestão do Abastecimento de Água em Tempo de Pandemia”. A sessão debruçou-se sobre a “evolução dos consumos”, as “roturas” e as “perdas de água” na fase de confinamento.

Reforçar a colaboração com outras entidades gestoras do setor

A representar a EPAL (Empresa Portuguesa das Águas Livres, S.A.) esteve Abel Luís, supervisor de Ampliação da Rede de Lisboa,  que começou por referir que a “redução do número de intervenções” que se verificou na fase de confinamento (março, abril e maio)  já foram compensadas nos últimos três meses. Além disso, o responsável destaca que, durante o período crítico da pandemia, os “trabalhadores da manutenção” e os “parceiros” nunca falharam ao essencial: “Foram executadas menos intervenções mas foi possível reforçar a execução de alguns investimentos em obras de manutenção importantes que acabaram por ser antecipadas”. Assim, um aspeto benéfico do confinamento, segundo o responsável, prende-se com o facto de ter sido possível executar obras que, normalmente, são muito difíceis de se concretizar, como  a “obra de manutenção que inclui a reabilitação de 125 metros de conduta em frente aos Jerónimos, em Belém”.

Do ponto de vista do responsável, uma das conclusões que podem ser tiradas desta pandemia está precisamente no “trabalho contínuo” com o “empreiteiro”, de forma a garantir que “teria disponibilidade para atuar numa urgência” e, assim, responder às necessidades de todos. O “sucesso obtido” nesta primeira vaga da pandemia prende-se com o “espírito de colaboração” entre os trabalhadores das várias direções da EPAL, na “capacidade para recompensar” os trabalhadores e na “colaboração empreendida com fornecedores e empreiteiros”, valorizando a sua presença e disponibilidade nos momentos mais críticos. Mesmo assim, Abel Luís considera que o futuro pode ser melhor, nomeadamente em “reforçar a colaboração com outras entidades gestoras do setor”, no sentido de “partilhar experiências, sucessos ou dificuldades”.

Reparações e preocupações imediatas

Do lado da Águas do Norte esteve Guilherme Santos, engenheiro da entidade. Desde 2015 que a entidade do Norte tem um “sistema de gestão de água” que engloba “cinco municípios” e que constitui “dois mil quilómetros de redes”. Redes essas que, segundo o responsável, “apresentavam algumas patologias”, nomeadamente “problemas de desenho” do projeto, “patamares de pressão muito elevados”, acessórios de “pouca qualidade” e “condutas envelhecidas”. Com este quadro, o nível de roturas é elevado, apesar do “acompanhamento e uma evolução dos nossos sistemas, o que já permitiu reduzir em mais de 50%”, refere. E a prova é que o ano de 2020 começou com um “nível de roturas abaixo” de 2019, afirma.

No entanto, o confinamento trouxe mais perturbações ao sistema: “Criou constrangimentos porque as pessoas, ao deixarem de circular nas ruas, deixaram de ter vigilância da rede”, refere. E o mesmo acontece do lado das equipas, que “foram reduzidas”, acrescenta. Neste cenário, o objetivo da Águas do Norte deixou de ser a “médio e longo prazo”, passando a preocupação a estar centrada em “não faltar água”, bem como “garantir” e “assegurar” que o “abastecimento de água era feito” a toda a população: “Reparámos coisas mais imediatas e atendemos às preocupações mais imediatas”, sustenta.

Com a chegada do mês de setembro, a entidade conseguiu “aumentar a eficiência sobre o sistema”, as “equipas passaram a estar mais no terreno” e as pessoas voltaram a circular: “Voltámos a repor” todos os indicadores, refere.

Não restam dúvidas de que a pandemia veio trazer ainda mais fragilidades ao sistema e a razão apontada pelo responsável está no facto de “não termos cobertura a 100%”, quer da “monitorização de caudais”, quer de “pressões”, existindo assim uma “separação grande” entre a “capacidade que temos” e a “robustez do sistema”. De acordo com Guilherme Santos, “não temos ainda capacidade para fazer previsão e fazer baixar o nível de roturas”. 

Roturas não comunicadas

Responder a tempo e com qualidade foi talvez o grande desafio e todas as entidades gestoras. O mesmo aconteceu na Águas de Cascais (AdC) que, desde logo, teve a necessidade de “reduzir algumas equipas” e, ao mesmo tempo, “garantir o abastecimento” e a “recolha do efluente”, fazendo-o através do “acompanhamento normal da rede”, refere Rodrigo Duarte, responsável departamento de exploração de abastecimento na AdC.

No período de confinamento, uma das preocupações teve que ver com o facto de “muitas roturas não terem sido comunicadas” pelos clientes. Para responder às dificuldades, a empresa redobrou a “análise dos caudais” e o “perfil de consumismo”. Segundo o responsável, houve uma “redução significativa” de consumo devido à “falta de turismo” na região, tendo um grande impacto a “nível do número de roturas”: por um lado, “ajudou a responder e manter os mesmos valores de tempo e resposta”; mas, por outro, “não deixava de ser uma preocupação”, sustenta. 

Já no pós-confinamento, a situação inverteu-se com os “caudais a disparar”, havendo “um retrocesso dos valores” e com o “número de roturas a disparar”, afirma. No entanto, nos meses de junho e julho, a AdC já tinha a “equipa de deteção de fugas” e as “equipas de monitorização” prontas a “dar respostas” e a “manter” o abastecimento aos clientes. 

Aquela que parece ser uma das conclusões do período do confinamento foi, segundo o responsável, a alteração do “perfil dos clientes”, algo que teve um “grande impacto para o comportamento da rede”, mesmo a nível das roturas: “Nesta fase, estamos em velocidade cruzeiro”, sustenta. 

Manter padrões do serviço

Em representação dos SIMAR de Loures e Odivelas, esteve Maria José Neto, diretora do departamento de exploração de águas, que começou por destacar que a entidade distribui e garante abastecimento a 170 mil clientes, divididos pelos dois municípios. Segundo a responsável, uma das variáveis que dificulta a gestão dos sistemas de abastecimento é o facto de se tratar de uma “rede envelhecida”. Além disso, “nos 3500 quilómetros de rede, há uma grande percentagem de fibrocimento”, algo que dificulta os “trabalhos” de “reparação” e da própria “continuidade do abastecimento” aos clientes. Uma outra variável prende-se no “ordenamento do território inconstante”, dificultando a “gestão do patamares de pressão”, acrescenta. 

Aquela que foi a gestão levada a cabo no tempo de pandemia foi, desde logo, “proteger os trabalhadores” e “garantir que as equipas estivessem operacionais”. O confinamento originou, mesmo assim, a que “todos os trabalhos de manutenção programados fossem interrompidos”, a “equipas em confinamento” e, ainda, a “uma redução de 50% das equipas de manutenção a nível de urgências”. Além disso, a pandemia originou no “aumento de 25 roturas”, algo que “não é significativo face à rede” que existe. No entanto, o número de respostas foi conseguido, quer em período de confinamento, quer no pós-confinamento: “Não aumentamos o número de horas de reparação o que levou a que as pessoas não sentissem essa diferencia do funcionamento” dos SIMAR. Maria José Neto vinca essa conclusão, acrescentando que “as reclamações não aumentaram” provando que, com “esforço coletivo”, foi possível “manter os padrões do serviço”, remata. 

Cristiana Macedo